O Joker é uma joke, mas vale

Por Mércio Gomes.

Opinião / 18:29 - 18 de out de 2019

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

O filme Joker se apresenta com uma performance autoral magnífica o que lhe dá, em alguns momentos, um aspecto de grande filme. Sua trilha sonora ressoa a Stravinsky, misteriosa e ominosa, com um largo uso de violoncelos graves, criando uma atmosfera por vezes hitchcockiana que, ao fim de cada sequência, entretanto, frustra a expectativa criada.

O único susto que o espectador terá é quando o personagem esbarra de cara numa porta de vidro que não abre. Assim, ao final, Joker não me parece um grande filme e seu enredo existencial é quase banal, onde as questões psicológicas são tematizadas e expicadas pedagogicamente, como se tivessem sido retiradas de case studies freudianos e marxistas.

(Tem spoiler aqui; para quem não viu o filme e pretende ver, pare de ler essa postagem.)

Nos últimos 40 anos, acho que desde o governo Reagan, que deu um chega para lá nos sonhos juvenis americanos de uma sociedade ideal, Hollywood busca manter sua posição de top entertainer, big joker fazendo filmes sobre figuras americanas desajustadas.

Os filmes de Tarantino são os mais conhecidos e festejados, mas há muitos, dos piores, como a série Pânico, a uns melhorezinhos, como Cape Cod ou Garota Interrompida. Toda a série de filmes sobre o futuro protagonizada por Schwarzenegger tem seu fundo formado por desajustados. Joker, agora, escancara os manuais freudiano e marxista próprios para high school students, de um modo quase irreal e retroativo. Nesse aspecto parece filme de mensagens dos anos 1960, mais simplório do que A primeira noite de um homem.

 

Armadilha de que só desgraçados fazem

história domina a geração de mais de 40 anos

 

Numa história que se abre com uns moleques com caras de porto-riquenhos batendo e chutando cruelmente um homem vestido de palhaço que os perseguia por eles terem roubado seu cartaz de trabalho de uma loja de quinquilharias pobre num pobre subúrbio de Nova York, vão surgindo todos os clichês de um homem desajustado no meio de um ambiente social molambento e socialmente desqualificado em que para todos os efeitos os pobres e desajustados sofrem as desgraças da sociedade americana dos ricos arrogantes que se metem a mandar em todos.

Se fosse filme de Trufaut, apareceria um personagem lendo em voz alta O Manifesto Comunista. No meio de uma tragédia preanunciada, centra-se como pivô da narrativa a farsa de um talk show apresentado por um indisfarçável canastrão, como seriam todos eles desse mundo. De fato, aos poucos se sente que o mundo é feito de canastrões, e só os desajustados é que têm caráter.

No desenrolar do filme, as verdades freudianas e marxistas vão aflorando rapidamente, como se viessem de uma aula de sociologia de uma universidade da Ivy League. Três tipos wall-streetianos riquinhos fazem bullying com uma moça no metrô, depois se metem a espancar o joker, que em self-defense descarrega um revólver que acabara de ganhar dos colegas que queriam que ele se protegesse de moleques de rua e mata, ao som de uma canção dos The Doors, os três desprezíveis bullies na hora.

Escândalo na cidade, os tipos são divulgados nos noticiários como gente boa e inocente cruelmente assassinados por um psicopata ou vigilante. Vigilante é um tipo que frequentemente aparece nos filmes desses tempos pelo lado do mal. Nos anos 1930 eram do bem.

Em seguida, o joker descobre por sua mãe, com quem tem uma aparente relação de amor e confiança, que é filho ilegítimo de um milionário asqueroso; depois vai à procura do pai e quiçá resgatá-lo pelo amor, faz ameaça de esganar o filho do pai, talvez seu irmão mais novo, encontra o pai vendo um filme ridículo de Chaplin num teatro luxuosíssimo, discute com ele no banheiro chiquérrimo, leva um soco no nariz, ouve pelo suposto pai que não é filho seu coisa nenhuma, que sua mãe é louca, vai ao hospício ver os arquivos da mãe e descobre que ele era de fato louca e o tinha adotado e deixado ele ser brutalizado por um amante, e aí, pimba: sufoca com um travesseiro e mata a mãe.

(Já basta de spoilers.)

O joker-palhaço vira herói para a multidão ou talvez massa ou quiçá consumidores ou até povão americano por ter matado os riquinhos e por ser franco e sincero. Mata porque o mundo é cruel para ele e parece que para todos. Motivada pelo noticiário aparentemente factual, estoura uma riot, o termo que americanos adoram usar para tumultos e pequenas rebeliões nas cidades. Nova York se enche de pânico, destruição e devastação. Cenas bobas pra chuchu, quase amadoras, não tivesse o filme a marca de Hollywood.

Que é que sobra desse filme tão badalado? Muito pouco. A envolvente performance de Joaquin Phoenix, que não é surpresa para ninguém, e o score stravinskiano da trilha sonora. Esses dois certamente podem ganhar Oscars.

Hollywood tem vivido (financeiramente, claro) de fazer filmes ruins com alta produção tecnológica sobre super-heróis de toda sorte e ficção científica do mais alto mau gosto. Muita arma potente também. Vejo que muita gente realmente gosta disso.

O texto subliminar mais intelectualmente ambicioso é o de que esses filmes parecem estar preanunciando uma era de desgraça no mundo, uma nova distopia, como os filmes expressionistas alemães pareciam prever a Era Hitler, não fosse o fato de que, sendo ruins, os filmes não representam qualquer sensibilidade poética que anuncie algo além de seus narizes de cera. A ruindade na arte não vale nada, e 90% dos filmes hollywoodianos são muito ruins. Servem apenas para a cultura americana brincar com seus espelhos distorcidos.

Viver numa vida de consumo irrefreável resulta necessariamente numa atmosfera atravessada de sentimentos de culpa social e filosófica, quiçá até religiosa. Os filmes de Hollywood, ao enfatizarem o descalabro social e existencial da vida, servem um tanto de alívio. O ato coletivo de presenciar a desgraça em cenas dá a sensação de uma certa participação ritualística que leva o telespectador a se redimir, por um breve momento, de sua angústia de viver num mundo em que só o consumo o refresca e o alegra.

O mundo americano atingiu o seu ápice de encantamento cultural, intelectual e social há precisamente 50 anos, quando sua juventude iniciou o processo de liberação sexual e se deu a ousadia de tomar drogas alucinógenas até interessantes e de viver modestamente com pouco. Sonhava-se com um mundo melhor onde só se precisava de love.

Empregos havia de todo tipo para todos, e as cidades se abriam para seus cidadãos e gentes de toda parte. Todo mundo queria estar nos Estados Unidos em 1969, California dreaming. Ainda que houvesse perseguição e morte aos seus líderes, o movimento negro ou black power, o movimento gay e o movimento feminino, não esqueçamos disso, atravessaram seus rubicões com galhardia e juntaram forças intelectuais e morais para caminhar por seus próprios pés e méritos.

Por alguns anos a Guerra do Vietnã pairou trágica como uma mácula que desgraçava essa geração, mas em 1975 estava acabada pelas mãos e vontades dos mais ferrenhos gaviões da direita americana, Nixon e Kissinger. Quem viu isso ao vivo imaginou que a humilhação do exército americano sufocado pelos vietcongs iria pôr o país em depressão cultural, mas se enganou, aparentemente. Pois não é que foi Nixon, o político mais detestado de todos os tempos – talvez perca agora para Trump – quem instituiu a política de ação afirmativa?

Como Hollywood é uma máquina de fazer dinheiro, seus roteiristas movem a geringonça, mas não sabem o que se passa ao seu redor, além de não quererem posar de moralistas. Cultivam imaginação prodigiosa, sem dúvida, mas escrevem histórias estruturalmente repetitivas e de curto alcance, certamente porque estão dominados pela filosofia que aclama narrativas restritas como as únicas possíveis e verdadeiras, e sentem vergonha das grandes narrativas que dominavam o cinema na década de 1950.

Para colocar em termos filosóficos, todos os roteiristas da atualidade viraram deleuzianos, ainda que não tenham lido Deleuze, pois só veem ou só prestam atenção à desgraça ao seu redor. A ideia por trás disso é a de que os destroçados, os oprimidos, os underdogs são os únicos que ainda têm ganas de sair da meleca em que vivem, portanto, são os que podem fazer história. Assim, os heróis chinfrins que desenham são todos farsantes e fictícios, por não existirem como realidade imaginada. De fato, não há, não pode haver heróis no mundo contemporâneo.

A armadilha deleuziana de que só os desgraçados, os underdogs é que fazem história, por terem uma pulsão especial para crescer e desabrochar, terem um “devir”, domina as mentes não só dos roteiristas hollywoodianos, mas de toda uma geração de mais de 40 anos que se sente diminuída e perplexa (e até, pasmem, rejeitada!) por não estar no paraíso que imaginara, ou que a geração que lhes antecedeu imaginou, nos anos 60 e 70. Vê-se isso claramente nos filmes, nos romances e nas análises sociológicas e antropológicas feitas pelos americanos.

O resto do mundo, seja pós-colonizado, seja europeu ou chinês, simplesmente os segue, porque este é o nosso Zeitgeist. O mundo pós-moderno, cujo conceito foi criado e difundido por filósofos franceses, encontrou seu tempo no mundo americano enfadado com sua humilhação do Vietnã e sua frustração existencial, descontando por tudo no hedonismo consumista. E nós outros, de outros países, pagamos o preço por nossa incapacidade de reagir e criar nossas próprias narrativas.

No caso brasileiro, nosso ennui se desenvolve pela briga intestina da classe média por protagonismo político-cultural, e através de uma simbologia que se repete em narrativas de autopiedade e saudades de épocas em que houve alguma originalidade por estar presente alguma pulsão criativa que se estendia pelos poros de toda a rede social, dos pobres à classe média e aos ricos. Essa rede social hoje se encontra esfacelada culturalmente e politicamente.

Me dispersei pelo Brasil ao final dessa análise sobre o filme Joker, americano. É que ele, por ter sido falado e admirado como se fosse um libelo esquerdista à direita, me intrigou pela banalidade e suscitou uma funda memória existencial e intelectual que aspira entender o momento que vivemos mirando a intensidade simbólica que originou o presente que vivemos, tão autotorturante e tão sardonicamente niilista.

Mércio Gomes

Ph.D em Antropologia, presidiu a Funai entre 2003 e 2007. Atualmente leciona na UFRJ. Autor de diversos livros, mantém o blog O Brasil Inevitável.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor