O esvaziamento do sistema financeiro no Estado do Rio de Janeiro

Opinião / 14:44 - 26 de out de 2000

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O Dieese publicou, em abril de 1993, um artigo que analisava a diminuição do sistema financeiro do Estado do Rio de Janeiro. O texto destacava o esvaziamento relativo da participação do estado no Produto Interno Bruto do sistema financeiro nacional, em comparação com São Paulo e, também, a contração da participação do setor no PIB do próprio Estado. Dentre as diversas hipóteses levantadas para justificar este processo destacavam-se os problemas decorrentes da falta de infra-estrutura compatível com as exigências do setor, principalmente no que se referia a telecomunicações e segurança, e o baixo dinamismo da economia fluminense. O efeito do baixo dinamismo da economia fluminense sobre o encolhimento do sistema financeiro do estado, embora real, era relativizado uma vez que o setor perdia participação dentro da economia do próprio estado e, mesmo apresentando problemas estruturais, a economia fluminense se mantinha como a 2ª principal do país, como atesta a tabela abaixo. Participação (%) do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais no PIB Brasil - 1985 a 1997 Estado 1985 1989 1993 1997 Rio de Janeiro 13,35 11,65 12,13 11,02 Minas Gerais 9,27 8,86 8,95 10,01 São Paulo 36,10 37,62 37,45 35,34 Brasil 100,00 100,00 100,00 100,00 Fonte: DECNA/IBGE Elaboração: Subseção Dieese Seeb/Rio De fato, o Estado do Rio de Janeiro perdeu participação relativa no PIB Brasil, (-7,5%), no período em destaque. No entanto, o que explica esta contração não é a diminuição da presença relativa da indústria, mas sim a forte redução da participação do estado no Setor de Serviços, em nível Brasil, como se vê a seguir: PIB - Participação (%) Relativa da Economia Fluminense no Total Brasil Setores selecionados - 1985 - 1997 Setores 1985 1989 1993 1997 Agropecuária 1,41 1,67 0,95 1,21 Ind. Extr. Mineral 50,54 40,24 48,25 56,34 Ind. Transformação 7,95 8,03 7,78 8,22 Construção 12,60 13,26 11,68 10,74 Eletricidade, Gás e Água 32,72 19,65 15,19 12,88 Comunicações 28,30 25,85 22,73 16,98 Intermediação Financeira 17,44 16,79 14,55 9,95 Fonte: DECNA/IBGE Elaboração: Subseção Dieese Seeb/Rio É interessante notar que as principais empresas com sede no estado, nos três grandes setores em que a economia do Rio de Janeiro perdeu força frente aos demais estados do Brasil, eram estatais que passaram ou passavam, no período em questão, por fortes processos de ajuste patrimonial com vistas à privatização. Foram os casos da Cerj, Light, Embratel, Telerj e Banerj. As trajetórias destas empresas após a privatização apontam para uma provável recuperação de parte deste terreno perdido durante os processos de ajuste, à exceção do Banerj, como se verá mais adiante. No que tange especificamente à intermediação financeira, chama a atenção os caminhos distintos que seguiram as economias de São Paulo e Rio de Janeiro. Na verdade, pode-se afirmar que neste setor o crescimento observado em São Paulo se deu em detrimento da participação do Rio de Janeiro. Participação (%) Relativa Da Intermediação Financeira dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e região Sudeste no PIB do Setor 1985 - 1997 Estado 1985 1989 1993 1997 São Paulo 41,32 40,98 48,52 48,88 Rio de Janeiro 17,44 16,79 14,55 9,95 Sudeste 66,03 63,61 70,26 65,10 Fonte: DECNA/IBGE Elaboração: Subseção Dieese Seeb/Rio Se analisarmos a evolução da participação da intermediação financeira nas economias regionais, Tabela 4, poderemos observar também aí uma inversão de papeis entre as economias fluminense e paulista. Se, no primeiro período em destaque, 1985 a 1989, o peso do sistema financeiro na economia do Estado do Rio de Janeiro era muito maior que o observado tanto na economia de São Paulo quanto no agregado do país, esta relação começa a se alterar no período intermediário, 1989 a 1993, e se inverte no período final, entre 1994 e 1997. Assim sendo, o Rio de Janeiro foi perdendo paulatinamente sua vocação de pólo da intermediação financeira, papel este assumido por São Paulo. Participação (%) da Intermediação Financeira nos PIBs Estaduais e Brasil - Taxas Médias Estado 85/88 89/93 94/97 Brasil 12,37 17,70 8,5 São Paulo 13,8 20,59 11,72 Rio De Janeiro 17,46 21,88 8,47 Fonte: IBGE/DECNA Elaboração: Dieese Seeb/RIO Se os dados acima apontam um claro encolhimento da participação do Estado do Rio de Janeiro no valor adicionado pelo setor financeiro, os números relativos à estrutura física de atendimento - as agências - mostram um movimento em sentido contrário. De fato, entre 1988 e 1999 o número de agências no Estado cresceu 21%, quase três vezes mais que o crescimento observado para o país e maior até mesmo que o constatado em São Paulo. Aqui vale uma reflexão mais aprofundada sobre o movimento de expansão das agências. Em primeiro lugar, pode-se detectar uma racionalização, do ponto de vista da rentabilidade do investimento, da rede de atendimento do setor em nível nacional, que cresce muito entre 1988 e 1994, passa por um processo de enxugamento entre 1995 e 1998 (principalmente entre os bancos públicos estaduais e federais que passaram por fortes processos de reestruturação neste período), e apresenta sinais de equilíbrio entre 1998 e 1999. Em segundo lugar, detecta-se, também, um movimento de concentração das agências na Região Sudeste, principalmente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro que respondem, conjuntamente, por mais de 40% das agências do país. O maior crescimento das agências no Estado do Rio de Janeiro é explicado pelo reposicionamento mercadológico das instituições financeiras, inclusive as públicas, que fecharam pontos de atendimento nas regiões Norte/Nordeste e fortaleceram suas redes nas regiões Sul/Sudeste. A abertura destas novas agências vem sendo motivada pelo aumento dos pontos de venda de produtos, se concentrando, portanto, nas regiões de maior poder aquisitivo. O município do Rio de Janeiro concentra mais de 70% das agências bancárias do Estado. Evolução do Nº de Agências nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasil Estado 1988 1992 1994 1998 1999 Brasil 14.987 16.667 18.760 16.060 16.002 São Paulo 4.378 4.859 5.584 5.037 5.015 Rio de Janeiro 1.198 1.432 1.779 1.454 1.449 Fonte: Banco Central do Brasil Elaboração: Dieese Subseção Seeb/Rio Apesar do crescimento do número de agências, as instituições financeiras estão entre as que mais destruíram ocupações ao longo da década de 90. E o que é pior, em termos relativos, o fechamento de vagas no Estado do Rio de Janeiro, 59%, superou em muito o observado no total Brasil e em São Paulo, respectivamente 49% e 46%. A transferência das sedes dos bancos de médio/grande porte para o estado de São Paulo somada ao processo de ajuste do Banerj explicam este movimento. Atualmente não há um único banco de médio/grande porte que tenha sede e poder de decisão no Rio de Janeiro. Evolução dos Postos de Trabalho nas Instituições Financeiras - dados de 31 de dezembro Estado 1989 1993 1997 1999(*) Brasil 795.206 642.630 446.830 400.998 São Paulo 298.506 231.377 170.976 160.939 Rio de Janeiro 105.701 81.557 49.624 43.647 Fonte: Mtb - Rais/Caged Elaboração: Subseção Dieese Seeb/Rio (*) Estoque em 30/11/1999. Com a implantação da reforma monetária que instituiu o Real como moeda oficial do país e reduziu a inflação para níveis próximos de zero, as instituições financeiras perderam a receita com a inflação e foram obrigadas a se adaptarem a esta nova realidade. A participação das instituições financeiras no Produto Interno Bruto decresceu consideravelmente, passando de 13% em média para 7%, percentual próximo da média internacional. No entanto, este processo de ajuste foi mais intenso no Estado do Rio de Janeiro quando comparado, principalmente, ao Estado de São Paulo. Vários são os itens que poderiam ser apresentados para justificar este movimento: falta de infra-estrutura; falta de segurança; reestruturação para privatização de algumas empresas chaves no tocante à demanda por produtos/ativos financeiros etc. Mas, se todos os fatores anteriores contribuíram para este processo, o principal motivo foi outro: o movimento de ajuste/privatização/paralização do Banerj. Este último, com certeza, é o fator que mais contribuiu para o esvaziamento e mesmo fechamento de uma dezena de instituições financeiras no Estado. Ao longo de toda a década de 90 o Banco do Estado do Rio de Janeiro foi sendo paulatinamente esvaziado no tocante às suas operações passivas/ativas. Consequentemente, as operações no mercado interbancário do estado foram diminuindo, assim como os financiamentos à agricultura e outros setores. Em que pese o Estado ter gasto R$ 9 bilhões para sanear o banco, após sua privatização o Banerj foi esvaziado ainda mais, passando a atuar como apoio da estratégia do banco Itaú na região. Deste modo, diferentemente dos demais setores da economia fluminense que passaram por fortes processos de ajuste ao longo da década de 90 com vistas à privatização das empresas estatais, mas que apresentam uma perspectiva de crescimento para os próximos anos, o segmento financeiro da economia fluminense, mantido o estado atual das artes, pode continuar perdendo importância no cenário nacional. Henrique Jäger Economista do Dieese

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