O educador Dom Lourenço de Almeida Prado

Opinião / 15:28 - 3 de fev de 2009

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A educação brasileira perdeu, na última semana, uma das suas maiores e mais importantes referências. Morreu aos 97 anos, o reitor emérito do tradicional Colégio de São Bento do Rio de Janeiro, Dom Lourenço de Almeida Prado. O monge beneditino atuou como reitor da instituição, que em 2008 comemorou 150 anos de atividades, por quase meio século. Comecei a manter contato com Dom Lourenço, quando, aos oito anos de idade, ingressei no São Bento. Durante minha permanência nesse estabelecimento - verdadeiro tempo sagrado do aprendizado - recebi os mais importantes ensinamentos da minha vida e posso afirmar que a rigorosa disciplina imposta pelo então reitor; a atenção que ele dedicava à transmissão do conhecimento com efetiva qualidade; a obrigatoriedade da leitura de dez livros anualmente; os conceitos apreendidos sobre os valores humanos e éticos; o conhecimento de línguas estrangeiras; o aprendizado de música e artes e o acompanhamento permanente das grandes questões da Cidade Maravilhosa, do país e do mundo, bem como conceitos religiosos católicos e ecumênicos me permitiram chegar ao estudo universitário, ancorado em uma formação sólida. Os vários anos passados nesse colégio me possibilitaram enxergar a vida e o mundo de uma forma muito mais lúcida e realista. E todo esse aprendizado se deve ao trabalho que Dom Lourenço desenvolveu por quase cinqüenta anos em favor da construção do conhecimento e de sua imensa preocupação com a formação do caráter da juventude. Essa mesma preocupação foi por ele também demonstrada no tempo em que, em Brasília, integrou o então Conselho Federal de Educação. Seus pareceres são observados e continuam servindo como fonte de inspiração para vários dos atuais conselheiros. Participou, ainda, do Conselho Estadual de Educação e era, dentre várias, titular das Academias Brasileira e Internacional de Educação. Nascido em Bica da Pedra (hoje, Itapuí, interior de São Paulo), formado em medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, nos anos 30, Nelson de Almeida Prado, oriundo de uma família quatrocentona de São Paulo, ingressou no Mosteiro de São Bento, em 1940, adotando o nome religioso de Lourenço. Esse nome marcaria sua história como monge e, principalmente, como educador de reconhecida relevância na cultura brasileira. Afastado da reitoria por vontade própria, já que completara 45 anos à frente da instituição, recebeu o título de reitor emérito, em reconhecimento ao magnífico trabalho desenvolvido. Comungando idéias com o filósofo francês Jacques Maritain, Dom Lourenço deixou uma vastíssima bibliografia versando sobre a Educação da Juventude. De acordo com ele, a formação humana é essencial no processo educacional e deve ser tratada, fundamentalmente, no ensino médio. ?A preocupação de formar o homem na sua plenitude cabe ao ensino médio. A universidade perdeu o seu caráter universal e hoje está mais voltada para um ensino que forma especialista?, avaliava. Ele também defendia que ?a escola é, no tempo moderno, algo indispensável. A criatura humana necessariamente precisa de educação e precisa de apoio para ser educada. No primeiro momento da vida é educada em casa; depois, para o desenvolvimento cultural, ela precisa de pessoas especializadas para ajudá-la a crescer e aprender. A escola ensina a conviver com as demais criaturas. A escola oferece a convivência social entre os que estão crescendo na mesma época e o apoio indispensável para que a criatura humana avance no conhecimento das Letras e das Artes, que é o que a conduz à maturidade. O fim da escola é justamente ajudar a criatura humana a chegar à sua condição de pessoa humana livre, de forma que a escola é um convívio de aprendizado e apoio para que o ser chegue a essa plenitude para a qual nasceu e para a qual caminha e deve crescer.? Apesar de idoso, Dom Lourenço jamais deixou de acompanhar a evolução do mundo e sublinhava que, na era do hipertexto, do predomínio da linguagem virtual, digital entre os jovens, ?a escola deve cuidar de não pensar que nós vivemos de fato no delírio da imagem e, agora, do digital. O aprendizado é feito pelas coisas que chegam à inteligência, de forma que é o aluno que aprende, não é o mestre que transmite. Ele tem que se servir desses elementos como meios, como recursos, mas não fazer disso o próprio ensino. O ensino é uma comunicação. É o aluno que, solicitado, aprende, de forma que os recursos audiovisuais são positivos quando são recursos, e são negativos quando são sufocantes. O menino que assiste a cinco, seis horas de televisão por dia, que permanece à frente de um computador, ele está de fato se fechando ao mundo, se iludindo, pensando que está aprendendo pela vista, em vez de aprender pelo ouvido e pela inteligência.? Muito me orgulho de ter passado a integrar, há dois anos, a Galeria dos Grandes Educadores Brasileiros, por votação direta e secreta realizada pela Associação Brasileira de Educação, e estar ao lado de emblemáticas e notáveis figuras como o próprio Dom Lourenço, o professor Cristovam Buarque, ex-reitor da Universidade de Brasília, primeiro Ministro da Educação do Governo Lula e atual Senador da República, e os acadêmicos Arnaldo Niskier e Evanildo Bechara, ambos da Academia Brasileira de Letras. Orgulho maior foi receber essa láurea das mãos do atual Reitor do Colégio de São Bento, Dom Tadeu Albuquerque, meu antigo mestre, e que representou, na ocasião, Dom Lourenço. Sua morte será sempre muito sentida e sua obra sempre lembrada no meio acadêmico, já que sua vida foi um exemplo de sabedoria e de pregação. Dom Lourenço foi um grande conselheiro, um fraterno amigo, um idealista, um educador brilhante e um homem que acreditou vivamente que a educação é o começo, o meio e o fim para a construção de uma sociedade mais justa, mais digna, mais ética e, sobretudo, mais humana. Paulo Alonso Reitor do Anglo-Americano.

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