O cinema brasileiro

Opinião / 17:24 - 27 de out de 1999

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Não há quem desconheça o talento e a capacidade que tem o brasileiro para fazer cinema. De Anselmo Duarte a Glauber Rocha, de Nelson Pereira dos Santos a Bruno Barreto, de Joaquim Pedro de Andrade a Carla Camurati, de Walter Hugo Khouri a Walter Salles, demos - e continuamos a dar - provas de que sabemos realizar bons filmes, merecedores do aplauso da crítica e da consagração do público. Nada mais inconsistente do que a idéia de que os brasileiros não gostam do seu próprio cinema, rejeitam a produção nacional: quando o filme é bom, quando a obra é de alta qualidade, milhões de espectadores enchem as salas de cinema. Não por acaso, entre os dez filmes de maior público no Brasil, em todos os tempos, dois são brasileiros: Dona Flor e seus dois maridos, dirigido por Bruno Barreto, em 1976, a terceira maior bilheteria, com quase 11 milhões de ingressos vendidos; e A dama do lotação, de Neville d"Almeida, lançado em 1978, o décimo filme entre os de maior sucesso de público, com quase 7 milhões de espectadores. Some-se, ao êxito nacional, o bom desempenho no exterior, de tal magnitude que, em quatro anos, três produções brasileiras disputaram o Oscar de melhor filme estrangeiro: O quatrilho, de Fábio Barreto, em 1976; O que é isso companheiro?, de Bruno Barreto, em 1977, e Central do Brasil, de Walter Salles, em 1999 - este, com a prodigiosa interpretação de Fernanda Montenegro, uma das indicadas para o Oscar de melhor atriz. Com todos esses méritos, impressiona que os produtores e diretores do cinema brasileiro vivam de mendigar recursos, passem o tempo com o pires na mão a implorar pelo dinheiro que lhes possibilite trabalhar. Não obstante o disposto na chamada Lei Rouanet, de 1991, e na Lei do Audiovisual - n.º 8.685, de 1993 - o incentivo do Governo tem se mostrado minúsculo ante as enormes carências da indústria cinematográfica nacional. Enquanto isso, nossos distribuidores e exibidores oferecem-se ao quase monopólio do cinema estrangeiro, das produções hollywoodianas - muitas delas, diga-se a verdade, sem nenhum valor artístico, em que prevalecem os roteiros melosos e os efeitos especiais elaborados sob medida para alienar os ingênuos. Contra essa vergonhosa exploração, tomei a liberdade de apresentar o Projeto de Lei n.º 550/99, que estabelece alíquota mais gravosa, no âmbito do imposto de renda, para a remuneração pela exploração de obras audiovisuais estrangeiras. Proponho que se aplique a essas receitas - milionárias, muitas vezes - nada menos que o imposto de 40 % na fonte, visando a submeter a um tratamento tributário distinto as obras audiovisuais nacionais e estrangeiras, encarecendo estas em favor daquelas. Tenciono, com o Projeto, homenagear todos aqueles que, com inteligência e criatividade, dão brilho e importância ao nosso cinema: diretores e produtores, atrizes e atores, roteiristas e técnicos. Homenagem que rendo, sobretudo, a Walter Salles, o magnífico diretor de A grande arte, Terra estrangeira e da obra-prima que é Central do Brasil. Perguntado, em recente entrevista, sobre que novos mecanismos podem concorrer para a recuperação do cinema nacional declarou: "Um deles seria taxar a renda dos filmes estrangeiros. Ela é igual, hoje, para todos. Não se leva em conta a renda. Isso gera uma multiplicação da mesmice." Sem embargo da sua natureza artística, o cinema é uma indústria cara, um ofício dispendioso que não se exerce senão com muito dinheiro. Sem o apoio e a proteção que o sobreponham às leis do mercado, o talento acaba por se vender à sedução da fortuna, a riqueza da arte e a força do filme desaparecem sob a montanha dos bilhões arrecadados. Como cidadãos e como políticos, cumpre-nos lutar não só para que o cinema nacional sobreviva, mas que tenha condições de seguir mostrando, nas telas do mundo, a grandeza do nosso povo e a beleza da nossa terra. Sem a intenção de fazer trocadilho, esse é, para os nossos cineastas, o problema central do Brasil. Wilson Santos Professor e deputado federal (PMDB-MT)

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