Advertisement

O câncer brasileiro

Em política econômica, a principal função do governo deve ser garantir a estabilidade da economia do país. Quando...

Conversa de Mercado / 13 Julho 2018

Em política econômica, a principal função do governo deve ser garantir a estabilidade da economia do país. Quando se observa esta frase, logo se pensa em incentivo fiscal ou controle de oferta de moeda. O primeiro leva a desequilíbrios entre as receitas e despesas do governo, causa da crise atual. O segundo já é carne de vaca: não se pode pensar em um governo irresponsável monetariamente. Mas existem reformas estruturais que levam uma economia a se beneficiar no médio-longo prazo. O problema é que os governantes acabam querendo mostrar ganhos de curto para, obviamente, se reelegerem, agradando a segmentos estratégicos, vide a bancada ruralista, ou à grande massa da população.

Ora, melhorar a qualidade de vida do povo em geral não é um feito, mas uma obrigação. O que não se vê, é que não adianta fazer esse tipo de manobra de forma artificial. Falta segurança ao investidor, o que passa por grandes reformas regulatórias que transcendam governos. A busca pelo voto no curto prazo para se garantir a continuidade no poder é o câncer brasileiro. O fim do Governo Dilma que o diga. Ao lançar mão cada vez mais de incentivos fiscais e ao aumento do gasto governamental para estimular a economia, criou-se o que se chama de PIB artificial, ou seja, a economia cresceu mais do que deveria e a devolução dos ganhos gerados sem bases sólidas para isso fez com que o país pagasse nos anos seguintes.

Para que haja ganhos de longo prazo, sem que as receitas e despesas do governo sejam influenciadas de forma a colocá-lo em risco fiscal, é preciso que ocorram mudanças estruturais. Estas passam por alteração da legislação que garanta o estímulo ao investimento privado, seja em inovação ou infraestrutura. A primeira é vista como uma nova Revolução Industrial e, diante de um mundo globalizado, as empresas nacionais dificilmente sobreviverão sem pensar em processos disruptivos. No caso da segunda, a demanda é evidente, portanto, há negócio. Falta estímulo e segurança para que os processos se desenvolvam e garantam um crescimento sustentável ao país.

Faltam unicórnios no país e, quando surgem, são comprados por multinacionais. Fácil entender que ser empreendedor aqui é tão complicado. Até porque obter capital para colocar a ideia em prática é algo complicado. Os investidores que dispõem de renda para tal acostumaram-se ao longo dos anos com elevadas taxas de juros pagas pela renda fixa e com baixíssimo risco. Portanto, o custo de oportunidade de investir em novos negócios se mostrou elevado demais. Ademais, não há incentivo para aplicar o capital em novos possíveis unicórnios, cujo retorno é incerto e de longo prazo.

O número de investidores-anjo no país ainda é baixo, ao redor de 7 mil pessoas, e o potencial, de acordo com o presidente da associação de investidores-anjo Anjos do Brasil, Cassio Spina, é de 150 mil. O valor médio investido está em torno de R$ 120 mil. Em 2016, o volume de investimento-anjo no Brasil atingiu R$ 850 milhões, enquanto que em 2010 era de R$ 350 milhões. “O aumento tem sido rápido, porém o mercado ainda é muito pequeno. No mínimo, deveria somar US$ 2 bilhões. Nos EUA é de US$ 20 bilhões”, acredita Spina.

O salto do mercado depende, em parte, de uma mudança de postura do governo. “É preciso dar mais proteção ao investidor e prover estímulos como a isenção tributária sobre os ganhos. Ao contrário do que parece, uma medida como esta não significa renúncia fiscal, pois as empresas investidas crescem, contratam, compram equipamentos e recolhem impostos. Esse movimento por si só leva ao crescimento econômico e aumento da arrecadação”, declara. Em países como Inglaterra e França, os investidores-anjo podem receber deduções de até 50% em seu imposto de renda.

Do lado da infraestrutura, a realidade não é diferente. Há capital e demanda, no entanto, não existe segurança para que o capital seja aportado no longo prazo. O Brasil é atualmente a nona maior economia do mundo, porém ocupa a 73ª posição no ranking de qualidade de infraestrutura do Fórum Econômico Mundial. A precariedade da infraestrutura no país está diretamente ligada ao baixo investimento no setor, fato creditado ao modelo adotado nos últimos anos, em que o governo se colocou como protagonista do processo. “Se há confiança na economia, na política e na regulação, dinheiro não é o problema. Existe dinheiro. Ele está dentro do país financiando a dívida pública. O problema é a insegurança em aplicar nos projetos de infraestrutura”, destaca Wilson Nigri, da consultoria Cwist.