O bicho-papão da estatística

Opinião / 18:39 - 9 de mar de 2000

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O que é estatística? Eis aí uma pergunta que, muito provavelmente, os estudantes se fazem ao ter que estudar métodos e fórmulas, às vezes de difícil compreensão. Para que a estatística? Para que servem os estatísticos? Não é por acaso que na maioria dos cursos de graduação se estuda estatística. Seu conhecimento é necessário para descrever, analisar e interpretar as informações e dados provenientes da realidade, para assim tomar melhores decisões. Ela existe para desvendar os fenômenos da natureza, seja na engenharia, economia, medicina, biologia, física, química, agricultura, entre outras áreas. A estatística é uma ciência do ramo da Matemática, que pode ser dividida em duas grandes partes: a estatística descritiva, que se preocupa com a organização e apresentação dos dados de interesse; e a estatística indutiva, também chamada inferência estatística, que tem por meta a análise e interpretação do significado desses dados. Essa análise e interpretação é necessária, pois, em geral, os dados referem-se apenas a amostras de elementos extraídos do universo da pesquisa, enquanto os resultados desejados são referentes ao conjunto desse universo, também chamado população. Existe aí, portanto, um processo de indução ou inferência - tirar conclusões sobre o todo a partir do conhecimento de uma parte, a amostra - e para isto existem conceitos e fórmulas adequadas. Suponhamos que vamos fazer uma pesquisa eleitoral. Como é impossível entrevistar todo o eleitorado, recorre-se a uma amostra, cujo resultado é projetado para a população de votantes, com uma margem possível de erro, matematicamente calculada, resultante do caráter aleatório, isto é, das incertezas do processo amostral. Essa margem de erro será tanto menor quanto maior for o tamanho da amostra utilizada. Parece simples, mas não é! Há vários pontos delicados a considerar, que podem viciar o processo. Primeiro: a amostra tem que ser bem escolhida, para ser representativa da população. A perfeita casualização é a melhor forma de conseguir isto, o que nem sempre é fácil e barato. Outra coisa: como garantir que os entrevistados emitam sua real opinião? Enfim, praticar estatística, como se vê por este simples exemplo, não é trivial, muito pelo contrário, o que justifica a existência de cursos superiores para formar profissionais de estatística, os quais, em princípio, devem dominar os principais conceitos e técnicas dessa importante matéria. Outras profissões também necessitam ter conhecimentos básicos dela, para evitar decisões erradas. Mesmo estes profissionais, quando a complexidade do trabalho exigir, devem recorrer a especialistas da matéria. Outro exemplo: já vimos pesquisadores usarem milhares de cobaias testando os efeitos de algum medicamento, gastando tempo, dinheiro e, muitas vezes, as vidas de centenas de animais, sem obter resultados significativos. Entretanto, se bem planejado o experimento, com menos de cem bichinhos seria possível tirar interessantes conclusões. Há também problemas estatísticos envolvendo diversas variáveis e suas relações simultâneas. Para esses problemas, hoje existem numerosos "pacotes" computacionais que colocam sua solução ao alcance de todos. Porém, cuidado: de nada adianta sair usando esses programas ao acaso. É preciso dominar os conceitos, para não confiar cegamente nos resultados obtidos, muitas vezes rematados absurdos, simplesmente porque vieram do computador. O tema é fascinante e poderíamos nos alongar no assunto, mas talvez corrêssemos o risco de assustar o leitor. Estaremos satisfeitos se conseguirmos trazer alguns esclarecimentos a respeito da matéria e convencermos os estudantes da importância dessas muitas vezes temida disciplina, tão importante para os que tentam compreender as informações que a natureza e o dia-a-dia colocam debaixo do nosso nariz! Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto Engenheiro formado pelo ITA, master of science pela Stanford University of California e mestre e doutor em engenharia pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

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