O aprendizado é um processo ativo

Por Paulo Alonso.

Opinião / 19:01 - 22 de ago de 2019

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Dale Johnson é gestor do programa de aprendizagem adaptativa da Universidade do Arizona, uma das instituições mais inovadoras dos Estados Unidos. Há cinco anos, a universidade, com cerca de 100 mil alunos, implantou o modelo da aprendizagem adaptativa e conseguiu feitos importantes, como melhorar a nota dos estudantes e tornar tanto os professores como os alunos mais satisfeitos.

Para ele, que acaba de visitar o Brasil, é preciso mudar a escola e tornar o ensino bem mais significativo do que é hoje, tanto para os alunos, como para os professores, assim como para a sociedade civil organizada.

Em sua palestra, em São Paulo, ele disse que a instituição na qual atua começou o processo de adoção do ensino adaptativo com uma análise das necessidades do próprio corpo discente, a partir da qual descobriu-se, por exemplo, que a velha técnica de fazer uma aula-palestra para todo o grupo não atendia mais adequadamente.

A partir dessa descoberta, Johnson e sua equipe foram conversar com empresas de tecnologia sobre as possibilidades de se criar um sistema de aprendizagem. Descobriram, então, uma tecnologia que estava sendo usada nos Estados Unidos na preparação de testes para alunos em fase vestibular.

 

É preciso ter pensamento crítico,

ser capaz de se comunicar e ser criativo

 

O primeiro trabalho desenvolvido com essa empresa durou cerca de três anos, tempo para que fosse criado um curso de Mmatemática que começasse a trabalhar com a metodologia da sala de aula invertida e a usar um material didático adaptável para fornecer aos alunos o conhecimento básico. O aprendizado mais profundo passou a acontecer há aproximadamente cinco anos em sala de aula. Esse é o nosso modelo de aprendizagem adaptativa e ativa.

A escolha por iniciar esse novo procedimento pela Matemática deveu-se porque já se contava nesse curso, lá na Universidade do Arizona, com estruturas de ensino bem desenvolvidas. Depois, esse mesmo trabalho foi estendido para os cursos como Biologia, Química, Economia, Psicologia, História e Filosofia.

Já são 65 mil alunos da Universidade do Arizona abrangidos por essa inovação, mas até o final deste ano, Johnson acredita que mais 24 mil outros estudantes estarão inseridos nesse programa, quase totalizando o quantitativo de estudantes matriculados na universidade.

No modelo de aprendizagem adaptativa, há duas variações: o modelo de ritmo próprio e o modelo adaptativo ativo. Johnson preferiu adotar o modelo do ritmo próprio apenas no curso de Álgebra, sendo nos demais utilizados o modelo adaptativo ativo sincronizado.

As aulas são organizadas da seguinte forma: os alunos utilizam o sistema adaptativo e, depois, têm aprendizagem ativa nas aulas. A primeira parte do processo é realmente de aquisição de informação. É o momento em que eles fazem toda a leitura, assistem a todos os vídeos e fazem algumas avaliações, como questionários e exercícios online tipo quizzes.

Quando vão para a aula, os alunos aplicam o que aprenderam em estudos de caso. Essa nova dinâmica de se transmitir o ensino vem sendo, de acordo com ele, absorvida pela comunidade acadêmica, com grande aceitação e até com empolgação, pois, na realidade, está a Universidade do Arizona quebrando paradigmas e criando processos de apreensão do conhecimento com mais rapidez, de forma lúdica e eficaz.

Todo o material didático adaptativo foi produzido apenas para liberar tempo para as atividades em sala de aula. Em Introdução à Biologia, por exemplo, há, segundo comenta, 450 alunos, que trabalham em 75 grupos para realizar seções individuais de aprendizagem ativa. Ou seja, eles trabalham juntos e depois são divididos em equipes de seis pessoas nas salas.

Johnson crê que a universidade moderna, antenada nas tecnologias atuais e de inovação, deveria estar engajada nessa perspectiva de ensino, uma vez que é um processo simplesmente transformador. Johnson acredita que todo ser humano tem as mesmas necessidades de aprendizagem.

Se você nasceu no Brasil ou nos Estados Unidos, há metodologias para te apoiar e acho que, finalmente, elas alcançaram a teoria. Nos últimos 70 anos, os pesquisadores do Brasil, da Bélgica, da África do Sul, enfim, em todo o mundo, têm descoberto como aprendemos. Porém, não conseguíamos mudar nossa técnica de ensinar porque estávamos presos às antigas palestras. Quando descobrimos essa nova metodologia, ela abriu uma nova oportunidade para nós, uma oportunidade que não existia há 15 anos. Esse é o grande diferencial. Acho que ela poderia funcionar igualmente bem no Brasil e tenho certeza de que já há muitas experiências no Brasil. O mundo está cada vez menor.”

A adoção da aprendizagem adaptativa ativa requer muitos recursos financeiros. E a Universidade do Arizona está disposta a continuar a investir nesse processo, que também envolve muitas pessoas e requer dos professores uma dedicação alta de tempo, além de uma equipe de suporte, com designers instrucionais e produtores de vídeo.

Todas essas pessoas custam muito dinheiro. Diferentemente do que acontece no Brasil, as universidades norte-americanas costumam receber doações de fundações. E essas doações servem como subsídios, por exemplo, para o desenvolvimento de softwares.

Mas para adotar metodologias desse tipo, torna-se imprescindível a aceitação do corpo docente que, para tanto, tem de mudar totalmente o seu olhar em relação à educação moderna e suas construções. De maneira geral, os professores estão acostumados a fazer palestras, que eles não se sentem confortáveis em uma sala de aula onde os alunos fazem todo o trabalho. O professor precisa de várias experiências para chegar ao nível de especialista.

Isso significa que a primeira vez que ensinam no novo modelo, eles ficam muito desconfortáveis porque simplesmente não há o momento da palestra. Eles basicamente apenas trabalham com os grupos de alunos. E é preciso dizer que eles precisam fazer perguntas, e não fornecer apenas respostas, como faziam até agora. Nesse cenário, os membros do corpo docente andam pela sala perguntando aos alunos por que isso está acontecendo, o que estão experimentando, o que acham de tal coisa e assim por diante.

Com a introdução dessa nova metodologia, a frequência dos alunos na universidade mudou, uma vez que todos tiveram redução de tempo em sala de aula. Aqueles que vinham três vezes por semana, por exemplo, passaram a vir somente uma, pois todo o trabalho de preparação é feito em casa. Eles vêm para a universidade para resolver problemas.

Os estudantes gostaram disso, bem como o corpo docente. Eles estão muito mais focados no processo de aprendizagem. Se vou a uma palestra e perco alguma informação importante, posso perder tudo o que vier depois disso. Mas, se estou assistindo a um vídeo e não entendo alguma coisa, posso apenas clicar no replay e assisti-lo novamente. E é assim que os estudantes estão se comportando. Vemos o comportamento deles mudar quando assistem aos vídeos duas vezes ou três vezes. Também permitimos que eles façam a avaliação mais de uma vez para praticar. Nós queremos que eles aprendam a aprender. Assim, quando se formarem e receberem uma tarefa do chefe, eles se sentirão à vontade para fazer o próprio aprendizado e não precisarão de orientação de um supervisor”, comenta Johnson.

Existe uma curva de aprendizado muito difícil tanto para o corpo docente quanto para os alunos. No começo, Johnson diz que costumava receber muitas reclamações dos alunos, que diziam que não estavam recebendo o ensino que buscavam. A partir daí, houve uma necessidade de convencê-los de que o aprendizado é um processo ativo e não um processo passivo.

Ouvir não é aprender. Ouvir é apenas o primeiro passo no processo de aprendizagem. E fazer é aprender. E, dessa maneira, quanto mais cedo se der oportunidade para os alunos fazerem algo, mais forte será o processo de aprendizagem.

Johnson entende que é imprescindível plantar na mente dessas pessoas que, na sua vida profissional, eles trabalharão em muitas equipes e quanto mais cedo eles puderem praticar, mais fortes serão suas habilidades. Então, o argumento é simples: o aprendizado ativo propicia o desenvolvimento de habilidades e competências importantes para o século XXI.

Para que essa metodologia seja exitosa, é preciso que toda a comunicação sobre essa nova modalidade de ensino seja pensada, produzida e divulgada de forma clara aos alunos e professores, com instruções transparentes, sem deixar dúvida sobre a qualidade desse nova modalidade de transmissão do conhecimento. Mesmo que seja algo totalmente novo, a comunidade acadêmica está aberta a isso porque viverá em um modo novo de aprendizado.

Na realidade, no mundo em que vivemos, é preciso ter pensamento crítico e ser capaz de se comunicar, além de ser criativo. Essas são as habilidades fundamentais que todo profissional precisa dominar para ter sucesso, ainda que sejam carpinteiros ou encanadores. Independe da profissão. Quando são criados os exercícios de aprendizado ativo, são dadas aos alunos oportunidades de praticar essas habilidades e conquistar novas competências.

Paulo Alonso

Jornalista, é chanceler da Universidade Santa Úrsula.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor