No ensino superior, os piores índices são os do Brasil

Por Paulo Alonso.

Opinião / 18:57 - 19 de set de 2019

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A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) promoveu uma pesquisa, em 45 países, para extrair dados sobre o andamento do ensino superior. O resultado desse trabalho foi divulgado, na semana passada, pelo relatório “Education at a Glance”.

Nesse documento, o Brasil aparece entre os cinco países com as mais baixas taxas de pessoas com ensino superior dentre as nações analisadas. Esse resultado não pode ser encarado com novidade para ninguém. Afinal, a educação no Brasil não faz parte de uma agenda de Estado, e os investimentos feitos nessa área estão muito aquém das necessidades do país e, em consequência, dos brasileiros.

Concretamente, podemos citar o corte ocorrido recentemente nas verbas dos programas de doutorado e de mestrado. Essa falta de atenção, e até mesmo de responsabilidade, com uma área tão sensível ao avanço do país e de seu povo certamente está incorrendo em gravíssimos prejuízos ao desenvolvimento, sustentabilidade e soberania do Brasil.

 

País está mal em acesso às universidades,

em verbas, em mestrado e doutorado

 

E assim o país, ainda que seja uma das dez maiores economias do planeta, não caminha, pois a educação, saúde e segurança pública, por exemplo, não são observadas como deveriam ser, causando desesperança no povo, que brigou anos pela restauração da democracia, mas que vive, neste momento, um período autoritário e em flagrante desrespeito à própria democracia, com incursões na censura de livros, o que é absolutamente lamentável e inaceitável. O cenário de penúria das universidades públicas do país é um sinal claro de descompasso com a Ordem e com o Progresso, que se aspira para o país.

Esse relatório informa que apenas 21% dos brasileiros de 25 a 34 anos ostentam diploma de nível superior, ainda que o Brasil tenha pulado de 11%, em 2008, para 21%, dez anos após. Esse percentual, se comparado à média dos países que integram a OCDE, 44%, é simplesmente vergonhoso. É sempre bom observar que somos um país com 209,3 milhões de habitantes, dado de 2017.

O relatório “Education at a Glance” também registra que a taxa brasileira é a pior entre as nações que integram os países latino-americanos, ficando atrás do México, 23%; Costa Rica, 28%, Colômbia, 29%, Chile, 34%, e Argentina, 40%. Na mão correta do desenvolvimento, a Coreia do Sul mantém 70% da sua população, entre 25 a 34 anos, no ensino superior, sendo o país que apresenta o maior índice de pessoas na universidade, seguida da Rússia, 63%, e do Canadá, 62%.

E como se não bastasse, o Brasil está novamente na lanterna do relatório, uma vez que se situa entre os piores no índice de discentes que não conseguem concluir seus cursos no tempo previsto de integralização, quatro ou cinco anos, 67%. Um índice ainda mais grave do que nas médias dos países pesquisados, em que 61% estão nessa situação.

Além da penúria das nossas universidades, a redução no número de contratos do Fies tem diminuído drasticamente o acesso às instituições privadas, responsável por quase 65% das matrículas no ensino superior, diferentemente do que acontece nos países da OCDE, nos quais menos de um terço dos alunos estão matriculados nessas universidades.

Outro dado que precisa ser observado é o gasto por aluno brasileiro igualmente inferior aos países pesquisados. Enquanto no Brasil esse gasto é na ordem de US$ 14,2 mil, os outros países investem, em média, US$ 16,1 mil. Importante ressaltar que em todos os países, mesmo nos quais o ensino superior é pago, há investimento robusto por parte dos governos para manter o funcionamento das instituições, ao contrário do que ocorre no Brasil.

E não é somente na graduação que a situação brasileira está em baixa no relatório da OCDE. No que diz respeito aos programas de pós-graduação, o país aparece de forma ainda mais acanhada. De acordo com os dados colhidos, o Brasil é a quarta menor taxa de pessoas entre 25 e 64 anos com doutorado. O índice aqui é de miseráveis 0,2 % da população, a média dos países é de 1,1%, quase seis vezes mais.

Em relação aos mestres, a situação é igualmente triste. No Brasil, apenas 0,8% das pessoas entre 25 a 64 anos possuem mestrado, enquanto a média dos demais países é de 12,7%. Evidentemente, os programas de pós-graduação, nível stricto sensu, mestrados e doutorados, exigem investimento permanente e desenvolvimento científico. E obviamente se o governo não investe na educação de forma mais ampla, a pós-graduação se inviabiliza, em consequência.

Nesse quesito, o de Mestrado, a Rússia apresenta 29,3%, Polônia, 23,5%, Luxemburgo, 22,5%, Estônia, 21,3% e Eslováquia, 20,3%. Já no Doutorado, a Eslovênia, 3,8%, Suíça, 3,2%, Luxemburgo, 2,2%, Estados Unidos, 2%, e Suécia, 1,6%. Diante desse quadro, constata-se que o Brasil forma menos mestres e doutores do que a média mundial.

Criada em 1961, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com sede em Paris, é uma organização internacional formada por 36 países que aceitam os princípios da democracia representativa e da economia de mercado, que procura fornecer uma plataforma para comparar políticas econômicas, solucionar problemas comuns e coordenar políticas domésticas e internacionais. A maioria dos membros da OCDE é composta por economias com um elevado PIB per capita e Índice de Desenvolvimento Humano e são, assim, considerados países desenvolvidos.

A OCDE também partilha os seus conhecimentos e troca de ideias com mais de 100 outros países e economias, desde o Brasil, China, Rússia e África do Sul até países menos desenvolvidos da África. Dentre os seus objetivos estão: apoiar um crescimento econômico duradouro; desenvolver o emprego; aumentar o nível de vida; manter a estabilidade financeira; ajudar os outros países a desenvolverem as suas economias; e contribuir para o crescimento do comércio mundial.

Argentina, Brasil, Bulgária, Croácia, Peru e Romênia já fizeram seus pedidos de adesão, mas tais solicitações ainda estão sendo analisadas pelo Conselho da OCDE.

Diante desse cenário sombrio, torna-se imprescindível que o governo atente para esse resultado pífio e que, sensível, elabore politicas de valorização em relação à oferta do ensino superior, não permitindo que as universidades públicas continuem sucateadas e que a verba para os programas de pós-graduação sejam suficientes, para que, com eles, se possa desenvolver o Brasil.

No atoleiro em que nos encontramos, fica de fato difícil se ter esperança em um futuro mais digno para os brasileiros, que continuam a padecer – entra governo e sai governo, sai um partido, entra outro; e a situação é idêntica – com a falta de atenção nas áreas da educação, saúde, segurança pública, meio ambiente, saneamento, rodovias, transportes e habitação.

Educação é investimento e não custo. E é dessa forma que as autoridades constituídas deveriam pensar e também criar políticas públicas que sejam eficientes e eficazes, em prol da gente brasileira.

Paulo Alonso

Jornalista, é chanceler da Universidade Santa Úrsula.

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