Nem só de pão...

Empresa-Cidadã / 14 Março 2017

Estudos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) confirmam que o planeta tem condições de alimentar até 12 bilhões de pessoas. São dados apresentados pelo sociólogo suíço Jean Ziegler, que ocupou a relatoria especial para o Direito à Alimentação da ONU, quando de sua mais recente presença no Brasil, em 2013. Ziegler é autor do livro Destruição em Massa – Geopolítica da Fome (Editora Cortez).

Desde 1991, a produção capitalista de alimentos aumenta, chegando a duplicar, em 2002. No entanto, este crescimento se faz de forma concentrada, de tal forma que cerca de 85% dos alimentos negociados no mundo são controlados por somente dez empresas.

Ainda segundo Ziegler, a especulação financeira com o preço dos alimentos em bolsa é um dos fatores determinantes para que os valores da cesta básica sejam inacessíveis para milhões de pessoas. Citando números do Banco Mundial, Ziegler afirma que 1,2 bilhão de pessoas estão situadas na faixa da extrema pobreza, vivendo com menos do que o equivalente ao poder de compra de um dólar por dia.

Outra causa citada da fome é a política energética posta em prática em alguns países, com o uso crescente de agrocombustíveis, que utilizam terras que poderiam ter o uso alternativo da produção de alimentos. Continuou com crítica à política econômica, que privilegia os produtores agrícolas de países ricos, com a oferta desmedida de subsídios.

No que classifica como dumping agrícola, os mercados de países africanos podem comprar alimentos vindos da Europa por 1/3 do preço dos produtos produzidos pelos próprios africanos, desestruturando as suas economias. Ziegler denunciou também o que classificou como “roubo de terras”, isto é, o aluguel ou compra de terras em um país mais pobre por fundos privados e bancos internacionais. Isto ocorreu com mais de 202 mil hectares de áreas férteis na África, com crédito do Banco Mundial e de instituições financeiras da África. Uma das consequências é que os camponeses são expulsos das terras, processo que se intensifica todas as vezes que os preços dos alimentos aumentam com a especulação.

O Banco Mundial justifica a sua interferência neste processo com o argumento de que a produtividade do camponês africano é baixa, com um hectare gerando, no máximo, 600kg de produto por ano, enquanto que na Inglaterra ou no Canadá, um hectare gera até uma tonelada.

Conforme Ziegler, sem oferecer os meios adequados de produção ao camponês africano, o círculo vicioso não se alterará, já que a irrigação é insuficiente, não há adubo animal ou mineral, nem crédito agrícola, na medida da necessidade, além da dívida externa dos países dificultar que eles invistam na agricultura.

Segundo Ziegler, as mudanças só ocorrerão por meio da mobilização e da pressão popular. Caberia exigir dos ministros de finanças nas assembleias do Fundo Monetário Internacional que votem pela extinção das dívidas externas, além da mobilização para impedir o uso de agro combustíveis em condições iníquas e para acabar com o dumping agrícola.

Dia do Nutricionista

Em 31 de março, comemora-se o Dia do Nutricionista, profissão criada em 1902, no Canadá, com a denominação de “dietistas”. No Brasil, é o dia em que, em 1949, foi criada a Associação Brasileira de Nutricionistas, hoje Associação Brasileira de Nutrição (Asbran). Antes, em 1926, a Argentina teve o pioneirismo no continente, com a criação do Instituto Municipal de Nutrição em Buenos Aires.

No Brasil, o primeiro curso de Nutrição foi criado em 1939, no então Instituto de Higiene, da Universidade de São Paulo (USP), com o nome de Curso de Nutricionistas. A profissão é regulamentada desde 1967 pela lei no 5276, revogada e substituída em 1991, pela lei 8234.

Parabéns, nutricionistas!

Em poucas mãos, muitas bocas

Um pequeno número de empresas controla os alimentos do mundo, através da produção de sementes, de fertilizantes e de agrotóxicos, para combater as pragas. São estas corporações que definem o que você encontrará nos mercados e do que você gostará. Por meio de incorporações, como a compra da Monsanto pela Bayer, formou-se um oligopólio cada vez mais poderoso.

Outra multinacional integrante do oligopólio é a norte-americana DuPont. No Brasil, ela está presente no segmento de tratamento de sementes, com um inseticida usado para o controle da lagarta helicoverpa, nas lavouras de soja e de algodão. O inseticida foi lançado no início da década nos EUA e, de lá, passou a ser vendido em outros países como Argentina, México e Brasil. Para desenvolver a molécula de que resultou este defensivo, a DuPont investiu cerca de US$ 200 milhões. O mercado global de tratamento de sementes, de cerca de US$ 2,5 bilhões em 2013, poderá chegar a US$ 4 bilhões, em 2018. O Brasil representa cerca de US$ 700 milhões deste mercado, que cresce à taxa de 10% ao ano, desde o início da década. Mais de 90% da área plantada com soja, no Brasil, utiliza sementes tratadas. Coisa de gente grande...

paulomm@paulomm.pro.br

Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).