Na busca pela estabilidade de preços BCE revisa sua estratégia

Esse procedimento não é realizado desde 2003

Mercado Financeiro / 22:11 - 23 de jan de 2020

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O Banco Central Europeu (BCE) comunicou nesta quinta-feira a revisão de sua estratégia. A iniciativa está sendo considerada o principal projeto do ano da instituição monetária. Para começar, o conselho de governadores da instituição, que se reuniu em Frankfurt, na Alemanha, deixou a principal taxa de juros em zero, enquanto os bancos aplicarão uma taxa de 0,50% sobre os depósitos que confiam ao banco central em vez de emprestá-los a seus clientes.

As taxas permanecerão em seu nível atual, ou “mais baixas”, até que a inflação na Zona do Euro caia para menos de 2%. Conforme a AFP, os guardiães do euro também “decidiram lançar uma revisão da estratégia de política monetária do BCE”, um projeto anunciado em dezembro..

Em quase três meses à frente da instituição, Christine Lagarde se esforçou para cerrar fileiras depois de um pacote de medidas impostas em setembro por seu antecessor, Mario Draghi, ao custo de divisões internas sem precedentes. A francesa precisa ainda esclarecer as linhas gerais da revisão estratégica de política monetária prometida para este ano.

O exercício não é realizado desde 2003 e ocorre após oito anos de mandato de Draghi, um período pontuado por crises. A parte “mais importante da revisão se concentrará em definir a estabilidade dos preços e como alcançá-la”, disse Carsten Brzeski, economista do ING. Essa estabilidade é definida desde 2003 por uma meta de inflação “próxima, mas abaixo de 2%”, atrás da qual o BCE corre há sete anos e que pode ser reformulada com a introdução da ideia de “simetria”.

Assim, a inflação poderia se desviar em torno de 2%, sem que isso leve a instituição a ajustar imediatamente sua política.

O resultado da análise estratégica determinará se as taxas de juros negativas podem terminar em cerca de dois anos, ou se tornar uma característica permanente da política monetária do euro”, disse Friedrich Heinemann, do Instituto ZEW. Esse esclarecimento também seria “útil para limitar as divergências no conselho de governadores”, acrescenta Alain Durré, economista-chefe do Goldman Sachs.

Como Lagarde prometeu “revirar cada pedra”, o pensamento estratégico também deve incluir os efeitos colaterais causados por ferramentas excepcionais, como a taxa negativa e, novo ponto, levando a questão climática em conta. Isso envolveria, por exemplo, “esverdear” a compra de títulos públicos e privados, o famoso QE pelo qual o BCE comprometeu mais de 2,6 trilhões de euros desde 2015 para apoiar a economia. Isso orientaria as escolhas para títulos que atendem aos critérios ambientais.

Em sua segunda coletiva de imprensa à frente do BCE, Lagarde também deve refinar sua avaliação dos riscos para o crescimento, uma passagem importante para os agentes financeiros. Ela terá de pesar suas palavras após a nova ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de sobretaxar os carros europeus, se não abandonarem seus planos de um imposto digital, ou se não resolverem a questão comercial.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, respondeu que tal acordo deve ser possível “em algumas semanas”, como a trégua sino-americana, que surpreendeu Bruxelas.

Os riscos conjunturais parecem se atenuar, a recessão no setor manufatureiro na zona do euro parece tocar o piso, enquanto a inflação subiu para 1,3% em dezembro. Ao final, a chefe do BCE deve, portanto, ceder ao exercício de equilíbrio, fazendo uma avaliação mais otimista do risco que pesa sobre o crescimento sem ter anunciado um “rumo a uma política mais rígida”, resume Durré.

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