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Não é o Banco Central que segurará o dólar

Conversa de Mercado / 08 Junho 2018

As intervenções do Banco Central no mercado de câmbio desta sexta-feira trouxeram um alívio momentâneo nas pressões pela desvalorização do real. No entanto, segurar a taxa de câmbio em um momento em que a demanda por dólares não é um ataque especulativo, mas sim a busca por conta da conjuntura econômica que leva à saída dos estrangeiros, faz as tentativas da autoridade monetária parecerem vãs. Depois do desgoverno demonstrado por Temer, dificilmente as coisas irão para o lugar no curto prazo, ainda mais com o crescimento de Bolsonaro nas pesquisas eleitorais. O presidenciável é visto por muitos como a saída para o Brasil, mas economicamente falando, suas ideias não parecem nem um pouco reformistas.

Estes fatores, unidos ao cenário externo mais avesso a emergentes, são os principais causadores da crise do mercado financeiro. Nos últimos dias, grandes companhias registraram fortes perdas em seu valor de mercado e o real derreteu. Para acalmar o efeito manada, o presidente do BC, Ilan Goldfajn, veio a público para falar que fará tudo para controlar o câmbio e que, inclusive, o Bacen poderá ultrapassar o limite máximo de US$ 115 bilhões de swaps cambiais, caso julgue necessário. Ele também frisou que a política cambial e a monetária devem ser tratadas em separado.

A postura do BC foi elogiada pelo diretor do FMI, Alejandro Werner. Mas, se do lado monetário estamos bem servidos, do lado fiscal e político, a coisa está feia. Em entrevista à imprensa, Werner declarou que os problemas brasileiros consistem no déficit fiscal, imprevisibilidade das eleições e necessidade de reformas. Isso todo mundo sabe, porém a situação só piora. A greve dos caminhoneiros, por exemplo, além de prejudicar o já fraco desempenho da economia brasileira, provocará um rombo nos cofres públicos. Segundo as estimativas do Itaú Unibanco, somente os subsídios para manter o preço do diesel mais baixo terão impacto anual de 0,4% do PIB, cerca de R$ 23 bilhões.

Antes da greve, já havia um hiato grande entre a expectativa dos economistas e a realidade do desempenho do PIB brasileiro. A situação agora é ainda pior. O impacto da paralisação dos transportes já foi estimado por alguns setores da economia, mas pode ser ainda pior. Indústrias ficaram paradas, animais morreram, mercados ficaram desabastecidos e o preço dos produtos subiu. A inflação controlada, “grande conquista” do governo Temer, começa a dar sinais de alta e, com o preço do frete mais caro, os consumidores vão sentir no bolso, ainda mais com o dólar caro.

O intervencionismo do governo nunca foi visto com bons olhos pelos investidores e os últimos fatos ocorridos demonstram a falta de seriedade do país. A alta do dólar evidencia isso. É um movimento do tipo: cansei de tentar acreditar neste país. A Fitch Rating, por exemplo, destacou que, apesar do cenário externo adverso, os créditos das empresas estão em tendência positiva na América Latina, menos no Brasil. O motivo? A turbulência política fez o tom otimista do início do ano desaparecer. Nem os hermanos argentinos, que passam por uma crise importante, estão com uma visão tão negativa.

Sem perspectiva que este governo faça alguma coisa e com Bolsonaro liderando a preferência dos eleitores, o BC pode até ter bala na agulha para segurar o câmbio no curto prazo, mas está sozinho na luta. De um lado, Goldfajn acalma os mercados, de outro, seus “aliados” deixam a todos de orelha em pé. Será que R$ 4 é o limite? Os 2% de crescimento já sabemos que não vamos atingir.