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Não existem bruxas

A redução da expectativa do governo quanto ao crescimento da economia veio tarde e é mais um fator de alerta para as contas...

Conversa de Mercado / 20 Julho 2018

A redução da expectativa do governo quanto ao crescimento da economia veio tarde e é mais um fator de alerta para as contas públicas. O Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas, divulgado nesta sexta-feira, pelo Ministério do Planejamento, diminuiu a projeção de alta do PIB de 2,5% para 1,6%. O menor crescimento prejudica as receitas de arrecadação federal e piora ainda mais a conta do governo, já deficitária. Aumenta o problema do herdeiro.

De acordo com o relatório, que é divulgado a cada dois meses e orienta a execução do Orçamento para o restante do ano, o crescimento decepcionante está ligado à greve dos caminhoneiros. Mesmo assim, a projeção encontra-se acima do que o mercado prevê (o Focus estima crescimento de 1,5%, com queda a cada semana). Como todos tinham uma visão bem mais otimista do que a realidade, não fica difícil observar que um incremento de 1,5% do produto este ano parece ser teto, ainda mais com a turbulência externa que afetará o desempenho da economia mundial.

O que ainda não está em destaque na conta dos relatórios de projeção para o PIB brasileiro, mas que deve entrar em breve, é a disputa comercial entre os EUA e a China, incluindo a postura protecionista da terra do Tio Sam. Esta semana, o FMI alertou que o impacto no PIB mundial será uma perda de 0,5%. Tal fato prejudica o lado do “Brasil que dá certo”, leia-se, exportações do agronegócio. Não seria de se estranhar que o incremento da economia brasileira fique abaixo dos 1,5%. Neste sentido, maiores serão os cortes de arrecadação e haverá a piora para a estimativa de déficit.

Mas, sem grandes alarmes no relatório, o governo reduziu a folga fiscal para o cumprimento da meta fiscal deste ano. Agora é prevista uma diferença de R$ 1,845 bilhão, contra os R$ 6,198 bilhões anteriores. O ministro do Planejamento, Esteves Colnago, declarou que se o governo não tivesse atendido às reivindicações dos caminhoneiros para interromperem a greve, a folga ficaria em R$ 8 bilhões.

Ora, não se pode acreditar em bruxas, mas que elas existem, existem. A queda na arrecadação será muito maior do que a perda da folga orçamentária e, para cumprir a meta de déficit fiscal de R$ 159 bilhões, algo terá que ser feito. O governo diz que cumprirá, mas parece mesmo um chefe de família que mente sobre a realidade do seu salário em relação às despesas para manter o status quo.

O lado o alívio vem da alta do preço do petróleo. O comportamento da commodity leva o governo a ter mais sorte que juízo. Por conta dos aumentos dos preços dos barris, a receita com royalties foi elevada em R$ 11,625 bilhões. Mas, como nem todo mundo é de ferro, a maior parte deste valor será consumido, pois a despesa primária projetada foi aumentada em R$ 7,546 bilhões. E a responsabilidade fiscal fica para o próximo.

Não há como ter credibilidade no “reformista” Governo Temer. Que entrou no poder afirmando que resolveria a tal herança maldita de Dilma. Mas até que se pode dar um certo crédito. A projeção de crescimento para a economia foi errônea no início do ano em 1,5 p.p. Na Era Mantega, nem o abismo entre o fato e a expectativa era muito maior. Claro, houve a surpresa da greve dos caminhoneiros, que mostrou as falhas de infraestrutura do país. Mas os indicadores econômicos demonstravam que não havia pujança, vide o desemprego e a capacidade ociosa da indústria.

Ao ver a projeção do Ministério do Planejamento, sabe-se que ainda há uma gota de otimismo. Portanto, 1,6% é sonho, pouco menos é esperança... agora a realidade será boa se o PIB passar de 1,2% de crescimento. Se isso ocorrer, é lucro, assim como se conseguirmos manter os juros baixos diante do cenário internacional que impactou diretamente a taxa de câmbio.