Número de brasileiros que usam cartão cai de 70% para 61% em um ano

Ter um cartão de crédito é sinônimo de comodidade e poder comprar a qualquer hora, mas sem um mínimo de disciplina...

Conjuntura / 11:32 - 28 de jun de 2017

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Ter um cartão de crédito é sinônimo de comodidade e poder comprar a qualquer hora, mas sem um mínimo de disciplina e organização, o bolso do consumidor pode sofrer sérios abalos. Um estudo feito pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) em todas as capitais do país revela que 57% dos usuários de cartão de crédito não controlam de maneira adequada os gastos realizados com esse meio de pagamento. As atitudes mais comuns são consultar pela internet a fatura antes do fechamento (28%), ler a fatura quando ela já está fechada (15%) e fazer o controle de cabeça (13%). Os que não fazem qualquer controle são 1%.

O controle total e sistemático dos gastos no cartão de crédito é tarefa feita por 38% dos usuários, sendo que 21% anotam os gastos no papel, 11% utilizam planilhas e 6% registram as compras em aplicativos no celular.

- O cartão de crédito é tratado por muitos como o vilão do orçamento, mas pode ser um aliado do consumidor que souber utiliza-lo adequadamente. É fácil tirar o cartão do bolso e pagar uma despesa. Porém, se não houver disciplina, mais fácil ainda é perder a noção do quanto foi gasto e ultrapassar os limites do orçamento. O controle financeiro é fundamental para evitar esse tipo de problema - orienta a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti.

O levantamento revela ainda um comportamento negligente do consumidor. Em um ano, cresceu o percentual de usuários de cartão de crédito que não sabem a taxa de juros cobradas quando se atrasa o pagamento da fatura. Em 2016, 55% dos adeptos da modalidade desconheciam os valores. Hoje, são 59% que ignoram o custo do atraso - especialmente as mulheres (66%), os mais jovens (70%) e os que de mais baixa renda (62%). No geral, quatro em cada 10 (38%) entrevistados já ficaram, em algum momento, com o nome sujo por não pagarem a fatura do cartão de crédito e 11% estão atualmente com alguma parcela em atraso.

De acordo com a pesquisa, 90% dos usuários de cartão reconhecem que essa forma de pagamento impõe riscos a vida financeira do consumidor, principalmente por conta dos juros elevados em casos de atraso no pagamento (40%), risco de clonagem do cartão (31%) e por incentivar às compras impulsivas (27%). Apenas 8% dos entrevistados não veem qualquer risco na utilização do cartão de crédito.

- É verdade que o cartão de crédito facilita o consumo, mas não faz a mágica de aumentar a renda, como pode parecer a muitos. Por isso, seu uso demanda muita responsabilidade. É bastante comum encontrar consumidores endividados por terem ultrapassado os limites do orçamento em aquisições por impulso ou gastos incompatíveis com a própria realidade financeira - alerta o educador financeiro do portal Meu Bolso Feliz, José Vignoli.

Com os bancos e demais instituições financeiras mais rigorosos na concessão de crédito em virtude da crise e da inadimplência, nem sempre o consumidor que decide adquirir um cartão de crédito consegue o instrumento com facilidade. Dados da pesquisa revelam que 28% dos entrevistados tentaram adquirir um cartão de crédito nos últimos três meses, sendo que 18% não tiveram sucesso - sobretudo as pessoas das classes C, D e E (21%). Houve também, no último ano, uma diminuição na quantidade de brasileiros que possuem cartão de crédito. Em 2016 eram 70% dos consumidores e agora, 61%. Entre as pessoas das classes C, D e E, o percentual de titulares chega a 54% da amostra.

 

Entre quem não tem cartão de crédito (39%), a principal razão é estar com o nome sujo (26%), falta de comprovação de renda (15%) ou preferência em pagar as contas à vista no intuito de conseguir descontos (13%).

 

Três em cada 10 que possuem cartão usam modalidade pelo menos três vezes por mês

Em média, os usuários de cartão utilizam essa modalidade de pagamento 21 vezes por ano, sendo que 36% o utilizam ao menos três vezes por mês. A pesquisa procurou saber as razões para a grande aceitação do cartão de crédito como meio de pagamento entre os brasileiros e descobriu que a possibilidade de parcelamento é a vantagem mais sentida, mencionada por 23% da amostra. Há ainda 18% de consumidores que gostam de ter prazo para pagar. Ou seja, um período entre a data da compra e o pagamento da fatura. A segurança e poder fazer compras mesmo quando não se têm dinheiro na conta foram citados por 16% e 13% dos entrevistados, respectivamente.

O cartão de crédito também é visto como um aliado nos momentos de emergência. Um terço (33%) dos seus usuários adquiriram esse instrumento para lidar com imprevistos, 25% para não precisar andar com dinheiro em espécie e 15% para pode fazer mais compras que o habitual.

A popularidade do cartão é tão elevada, que 47% dos entrevistados já deixaram de comprar em estabelecimentos que não aceitam cartão de crédito e inclusive evitam frequentar lugares que não oferecem essa modalidade de pagamento. Nesses casos, os tipos de lojas mais citados são bares, restaurantes e lanchonetes (38%), lojas de roupas, calçados e acessórios (37%) ou pequenos estabelecimentos que vendem alimentos e produtos para casa (27%).

Quatro em cada 10 (44%) desses entrevistados possuem apenas um cartão de crédito na carteira, mas há aqueles que não se contentam com essa quantidade. A pesquisa mostra que 38% dos consumidores ouvidos possuem dois ou três cartões. Os que andam com quatro ou mais cartões consigo somam 12% desses consumidores. O principal motivo para aqueles que têm mais de um cartão é que há estabelecimentos que não aceitam todas as bandeiras, então quando um é recusado, utiliza-se o outro (39%). Há ainda 37% de entrevistados que para conseguir melhores prazos, revezam os cartões de acordo com a data de fechamento da fatura.

Dentre as pessoas que têm cartão de crédito, 77% são de bancos convencionais, 8% de financeiras e 8% de fintechs ou bancos 100% digitais.

 

Milhagem - De forma geral, 53% dos consumidores ouvidos no levantamento recorrem ao cartão de crédito para adquirir produtos que não conseguem comprar à vista ou quando o valor da compra é alto (40%). Há, ainda, 35% de usuários que preferem usar o cartão de crédito para acumular pontos em programas de milhagem. Os produtos que os consumidores mais compram parcelados no cartão de crédito são as roupas, calçados e acessórios (60%), eletrônicos (57%), eletrodomésticos (52%) e remédios ou produtos de farmácia (46%). Em média, cada usuário de cartão e crédito no Brasil tem atualmente cinco parcelas a pagar.

A pesquisa também questionou os entrevistados sobre as novas regras do Banco Central para o crédito rotativo do cartão. Desde o início de abril, o consumidor não pode permanecer por mais de 30 dias no crédito rotativo. Assim, se ele tiver realizado o pagamento do valor mínimo da fatura, no mês seguinte terá que lidar com o restante da dívida - seja pagando de forma integral, seja por meio de um financiamento acordado com o banco, mas com juros menores que os praticados no rotativo.

No que diz respeito a essas novas regras, 66% garantem conhecê-las, sendo que 43% concordam com a medida, pois os juros cobrados são abusivos na opinião dos entrevistados. Em contrapartida, 34% não tinham conhecimento das mudanças.

- Mesmo com as novas regras do Banco Central, que restringem o uso por tempo indiscriminado do rotativo, as taxas de juros cobradas no parcelamento da fatura são consideravelmente altas. O consumidor não deve encarar isso como uma opção ao pagamento do valor integral da fatura. O melhor é planejar-se e não gastar além daquilo que pode pagar - alerta a economista Marcela Kawauti.

A pesquisa foi realizada pelo SPC Brasil e pela CNDL no âmbito do Programa Nacional de Desenvolvimento do Varejo, em parceria com o Sebrae. Foram ouvidos 601 consumidores de ambos os gêneros, acima de 18 anos e de todas as classes sociais nas 27 capitais do país. A margem de erro é de 4,0 pontos percentuais e a margem de confiança, de 95%.

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