Modalmais - Fechamento de mercados: resumo da semana 5 a 9.08

No mercado internacional, semana começou com espectro de uma guerra comercial entre EUA e China.

Opinião do Analista / 11:00 - 12 de ago de 2019

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Dois fatores principais marcaram a semana para os mercados. O primeiro no âmbito mais global e o segundo local. No mercado internacional, a semana começou com o espectro de uma guerra comercial entre os EUA e a China, com todas as derivações afetando o mundo. No segmento doméstico, tivemos a volta do recesso do Poder Legislativo e as expectativas com relação ao trâmite da reforma da Previdência.

A semana começou com tintas negras em termos de desenho de guerra comercial, e isso mexeu com todo o mundo e todos os mercados. Só para lembrar, Donald Trump tinha anunciado nova tarifação sobre produtos chineses, inicialmente de 10% sobre US$ 300 bilhões. Com Trump dizendo ingressar bilhões de dólares na economia pelas incertezas, taxa de juros e restrições impostas. Afirmou ainda que a China estava louca para fazer o acordo com empresas saindo do país.

A China, por sua vez, anunciou que deixaria de comprar produtos agrícolas americanos e não excluía a possibilidade de tarifá-los. A moeda yuan voltou a paridade superior a sete unidades por dólar, sendo automaticamente designada pelos EUA como manipuladora cambial. Dizendo que iria ainda ao FMI contra prioridades que o país tinha. A paridade acima de sete para cada dólar não foi vista na última década.

EUA e China estavam iniciando a guerra comercial e diferentes países emergentes passaram a reduzir suas taxas de juros. Nesse caminho, foram a Índia, a Nova Zelândia, Tailândia e as Filipinas. Austrália manteve juros estabilizado mas pode flexibilizar. Certamente empurraria outros países emergentes na mesma direção e forçaria alguns bancos centrais de países desenvolvidos. Desnecessário dizer que os mercados ficaram desequilibrados. O dólar se fortaleceu perante quase todas as moedas do mundo, as taxas de juros de países desenvolvidos caíram muito, a aversão se fez presente, os mercados desabaram; enquanto o ouro atingia a maior cotação em seis anos.

Donald Trump voltou à carga contra o Fed dizendo que juros altos deixam o dólar valorizado e prejudicam o setor industrial. Enquanto isso, dirigentes regionais do Fed davam declarações estimando que a guerra comercial poderia ter que forçar mudanças nas políticas monetárias. Alguns estimando até nova queda dos juros na reunião do Fomc do Fed de 0,25% ou 0,50%. Charles Evans do Fed de Chicago defendia duas quedas nesse final de ano, e James Bullard de St. Louis, que votou contra a queda recente, passou a admitir a possibilidade de mudanças de rumo, principalmente se os investimentos e crescimento esfriarem. Na última sessão da semana, Trump voltou a vociferar contra a China e os mercados retornaram ao clima de aversão ao risco.

Nesse ambiente de largo estresse dos investidores e grande volatilidade, a consequência foi buscar proteção em ativos indexados em moedas fortes e saídas precipitadas de ativos de emergentes. As commodities cederam, e com elas as ações de empresas ligadas ao setor. Bastou, por exemplo, que os estoques americanos de petróleo crescessem um pouco, para o óleo WTI cair mais de 5,0% e o minério de ferro na China que chegou a passar recentemente de US$ 122 por tonelada para US$ 94.

Na economia, indicadores de conjuntura ajudavam no tom negativo. O PMI da atividade de serviços para diferentes países em julho mostrou desaceleração, e somente os EUA, Reino Unido e Brasil tiveram elevações.

Mas com o Brasil ainda em zona de contração da atividade de 48,2 pontos. Na Alemanha, as encomendas à indústria de junho cresceram 2,5%, bem acima do previsto de 0,3%. A produção industrial de junho encolheu 1,5% de previsão de -0,3%. Como temos dito, a Alemanha preocupa por mostrar desaceleração como liderança da região, mas a pior referência segue sendo a Itália onde o governo não se entende. E a Espanha que não consegue formar gabinete de governo.

No Japão, o saldo da balança comercial de junho mostrou encolhimento de 87,4%, com superávit de 224,2 bilhões de ienes. Na China, o saldo comercial de julho foi superávit de US$ 45,6 bilhões em queda em relação aos US$ 51,00 bilhões do mês anterior. Os pedidos de auxílio-desemprego nos EUA encolheram 8 mil posições. O crédito ao consumidor de junho foi abaixo do esperado em US$ 14,6 bilhões.

O Institute of International Finance (IIF) estimou que em menos de uma semana saíram recursos de emergentes no montante de US$ 6,8 bilhões. Somente em três pregões da Bovespa durante o mês de agosto (até o dia 5), os investidores estrangeiros já tinham sacado recursos no montante de 3,6 bilhões. Deixando o saldo negativo de 2019 em R$ 14,1 bilhões. Mas como não há mal que sempre dure, os mercados acalmaram e recuperaram perdas recentes com os investidores retomando a migração de recursos para investimentos com propensões ao risco.

No segmento local, com a volta do recesso, a política esteve na ordem do dia. A Câmara retomou discussões sobre a reforma da Previdência, aprovou em segundo turno o texto base e derrubou destaques. Concluiu a votação na noite de 7 de agosto e encaminhou para votação no Senado. Votação que pode ocorrer até o final do mês de setembro. Rodrigo Maia, presidente da Câmara, foi saudado como o grande organizador da aprovação e teve os louros do governo. Aproveitou e já começou a articular a reforma tributária, que na nossa avaliação, contém mais dificuldades para aprovação, mas ainda sim é possível.

Ao longo do período, o presidente Bolsonaro seguiu brigando com a imprensa e atraiu crítica da oposição sobre publicações ordenadas em lei e desmatamento. Paulo Gudes e outros executivos se encarregaram de fazer o contraponto, antecipando mudanças que pretendem fazer para tornar a economia competitiva. O presidente do Banco Central do Brasil (Bacen) fez coletiva de imprensa depois da divulgação da ata do Copom que reduziu a Selic para 6,0%.

A ata veio repetindo termos do comunicado, fazendo carga sobre a necessidade de perseguir reformas e as incertezas e indicadores dando base para quedas de juros. Os investidores projetam nova queda da Selic de 0,50% na reunião de setembro. O secretário do Tesouro, Mansueto de Almeida, discorreu sobre temas sensíveis da economia com larga propriedade. Estimou que mesmo com a reforma da Previdência as despesas com esse item cresceriam R$ 40 bilhões. Disse que não há espaço para investimentos públicos em 2020 por conta de despesas com aumento de pessoal.

Na semana, tivemos ainda a divulgação de vendas no varejo crescendo 0,1% em junho, queda de 0,3% contra igual período de 2018 e expansão no ano de 0,6%. O varejo ampliado (inclui indústria automotiva) cresceu no ano 3,2%, mas ainda assim a recuperação é fraca, se avaliada pelos quatro últimos anos extremamente fracos. O volume de serviços prestados encolheu em junho 1,0% e queda no comparativo com igual período de 2018 de 3,6%. Estamos 12,8% abaixo do pico. O IPCA de julho mostrou inflação em alta para 0,19% (anterior em 0,01%), e no ano crescendo 2,42% e 3,22% em doze meses. O Bndes anunciou devolução de R$ 40 bilhões ao Tesouro e no ano deve atingir R$ 126 bilhões, aliviando as contas públicas.

 

Perspectivas - Uma coisa parece certa para a semana que vai começar: vamos seguir com volatilidade nos mercados de risco e momentos de aversão. Os mercados domésticos mantiveram estreita correlação com o desenvolvimento dos mercados americanos e na próxima não deve ser diferente. Vamos ficar na dependência primeiramente das relações comerciais entre os EUA e China e dos arroubos de Trump contra os chineses. Se o tom aumentar novamente, os mercados irão reagir com aversão ao risco e proteções em títulos lastreados em moedas fortes.

Trump é sempre imprevisível e tem deixado os investidores tensos. Além disso, ainda temos a desaceleração econômica global e indicadores mostrando que a economia americana também começa a desacelerar. Basta ver o comportamento dos juros de mais longo prazo em queda e os de curto prazo em alta. O Japão, por exemplo, atuou ampliando a compra de títulos mais curtos.

No Brasil, o noticiário político deve seguir direcionando a postura dos investidores na alocação de recursos, com preferência para os mercados de risco. Mas será preciso que outros investidores como fundos de pensão e, principalmente estrangeiros, voltem ao mercado direcionando recursos. Com isso, formando colchão para os preços dos ativos.

Do ponto de vista da análise técnica, sempre útil nesses momentos de indefinição, seria positivo ultrapassar o patamar de 105 mil pontos e não perder mais a faixa pouco superior a 102 mil pontos.

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Alvaro Bandeira

Economista-chefe do Banco Digital Modalmais

Fonte: www.modalmais.com.br/blog/falando-de-mercado

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