Microcrédito, uma ferramenta para o desenvolvimento

Opinião / 13:04 - 15 de out de 1999

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No momento em que o combate à pobreza é tema central nos debates em todo o mundo, constituindo-se no principal alvo, a longo prazo, do Fundo Monetário Internacional (FMI), propostas de todos os gêneros e calibres pululam dos quatro cantos do planeta. Algumas totalmente fora da realidade, outras, nem tanto. Contudo, assemelham-se a um arremedo de retalhos, que no fim não produzirá resultados, como as recentes propostas brasileiras vêm nos mostrando. O grande erro de praticamente todas as propostas já apresentadas é a busca de soluções, quase sempre a curtíssimo prazo, dando o peixe a quem tem fome, sem ensinar a pescar. Desse modo, não há avanço concreto, apenas superficial e por um período curto de tempo, voltando invariavelmente à estaca zero logo após. Vem surgindo, no entanto, uma ferramenta inovadora no combate à pobreza, que ainda engatinha no Brasil, mas que já avança com imponência em alguns vizinhos na América Latina. Promete também prover o peixe ao cidadão no início, mas não se contenta com isso apenas. Durante a refeição, ensina como pescar outros mais e ainda exige, mais tarde, o pagamento pela provisão inicial. Deste modo, promove o amor próprio aos indivíduos, sedentos não somente pelo alimento e pela moradia, mas sobretudo pelo trabalho, que lhes possibilita adquirir os bens materiais com a necessária dignidade. Essa ferramenta para o desenvolvimento é o microcrédito. Parece um tanto desumano, principalmente na nossa atual conjuntura de juros. No entanto, ao se elucidar os mecanismos de funcionamento, com certeza, governo, iniciativa privada e a sociedade civil hão de bater palmas e proclamar pelo seu rápido desenvolvimento. Primeiramente, é preciso entender o que é e como funciona esta modalidade de crédito. No Brasil, algo em torno de 25% da população tem relacionamento com bancos; isto quer dizer que o restante, cerca de 75%, fica totalmente à margem de crédito. Pois bem, são essas pessoas o público-alvo do microcrédito, que criará condições para que desenvolvam suas potencialidades. Basta ter uma profissão ou uma boa idéia. Para o mecânico, por exemplo, são financiadas as ferramentas, para a dona de casa que faz congelados, financia-se um freezer e assim por diante. Os juros são baixos, se comparados aos de outras modalidades de empréstimo, com prazos de pagamento compatíveis com o bom andamento do projeto. Após ser concedido o crédito, a instituição concedente tem a obrigação de visitar seu cliente pelo menos duas vezes por mês para acompanhar o andamento do projeto, dando o treinamento devido e verificando se o dinheiro está sendo aplicado de modo correto. Se, por exemplo, a pessoa não souber separar o orçamento doméstico do orçamento do projeto, com certeza tudo irá por água abaixo. O microcrédito, num primeiro momento, é aberto para comunidades, o que facilita as visitas dos agentes das instituições financeiras - o acompanhamento familiar é imprescindível - e também a participação integrada dos membros. O crédito pode ser concedido para uma única pessoa ou mesmo para um grupo, gerando maior solidariedade entre os membros. Se um não pagar, os outros rateiam. Há um comprometimento social. É importante ressaltar, no entanto, que ao ser constatado que o filho do mecânico, por exemplo, é dependente de drogas ou o marido da dona de casa que faz congelados é alcoólatra, o empréstimo somente será concedido após a resolução de tais problemas. Isto porque há uma possibilidade grande de o dinheiro ser desvirtuado de sua rota. É feito, nesse caso, um encaminhamento para um profissional de saúde capacitado para resolver as questões juntamente com a família e, a partir daí, estuda-se a possibilidade de concessão do crédito. Os agentes das instituições financeiras também são treinados para estimularem os pais a matricularem seus filhos na escola, reforçando o caráter educativo do processo. É preciso haver vontade política por parte do Governo e das instituições financeiras para que essa modalidade de crédito vá avante. É bom para todos. Financia a geração de renda, de poupança e gera riqueza. Todas as experiências feitas no mundo deram certo, até mesmo na América Latina, como no caso da Bolívia, em que o Banco Sol adotou o microcrédito há 13 anos e hoje alcança rentabilidade média de 30% sobre o patrimônio, enquanto os outros bancos bolivianos, em média, alcançam apenas 10%. Isto se deve ao fato de a inadimplência tender a zero e o custo do dinheiro ser bem reduzido. Para o governo, é um gol de placa, pois auxilia na erradicação da pobreza no país e para as instituições financeiras, uma ferramenta para alavancagem de lucro. Segundo as últimas pesquisas, cada empréstimo concedido através do Microcrédito gera cerca de 2,5 empregos diretos em média. Os poucos financiamentos desse tipo no Brasil eram feitos até hoje através de Organizações Não-Governamentais (ONGs). É preciso que o repasse dos recursos, liberados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) seja feito para instituições de ponta, como as financeiras de pequeno porte, que estão mais perto do povão e poderão dar maior capilaridade ao processo, constituindo-se no principal aliado do governo para o bem-estar social. José Arthur Assunção Diretor da ASB Financeira.

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