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Meu irmão Ricardo Boechat

Por Paulo Alonso.

Opinião / 11 Fevereiro 2019 - 18:21

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Entre a perplexidade, a triste notícia, o espanto e a falta de coragem em ter de acreditar, atônito mesmo, recebo, por uma ligação de celular, o comunicado da morte de um irmão-camarada, do meu compadre, conselheiro, homem digno e de bem, pai extremoso, filho dedicado, jornalista notável, dono de uma inteligência rara e lucidez fantástica Ricardo Eugênio Boechat. Morto, aos 66 anos, em uma queda de helicóptero, quando sobrevoava o Rodoanel, em São Paulo.

Brow, como eu o chamava, era uma pessoa alegre, despojada, simples, que amava a vida, a mulher Veruska, os filhos, dentre os quais, Bia, minha afilhada, Rafael, Paulinha e Patricia, os irmãos, a mãe, Dona Mercedes.

Meu convívio com o Brow marca décadas de relacionamento, desde que ele se desligou da Secretaria de Estado de Comunicação do Governo Moreira Franco, da qual fora secretário, e retornou à redação de O Globo, na qual já me encontrava. Ali, nossa amizade se consolidou. O papo do dia a dia, as notas que passava para ele, a companhia agradável, o humor fino, a sabedoria na ponta da língua. As longas discussões sobre tantos e tão vários assuntos.

 

Deixa o nome registrado no panteão

dos grandes jornalistas do Brasil

 

E sempre, na sua companhia, nos divertíamos, seja no Leblon, onde morou até se mudar para São Paulo, seja na antiga Faculdade da Cidade, para onde ele foi levado por mim para ministrar aulas de Jornalismo Impresso e editar o Jornal da Cidade, seja em Angra, com as famílias. E o tempo foi passando e a amizade se estreitando, o carinho permanecendo.

Ainda no ano passado, o convidei para proferir a aula magna de Jornalismo em uma faculdade que dirigia no Rio de Janeiro. Falamos, rimos, ele me disse que só iria se eu mandasse um jatinho buscá-lo. Brincadeiras permanentes, seriedade com o trato da notícia, com o jornalismo. Implacável defensor da correção, da ética e do compromisso indeclinável com a verdade.

Dizer que estou triste e fortemente abalado seria ser eufêmico com as palavras. Estou, na verdade, chocado, por perder uma pessoa verdadeiramente querida, exemplar. Chocado por não mais poder privar do seu sarcasmo e ironia. Chocado por não mais poder estar com ele. Chocado por não mais poder acompanhá-lo no rádio e na televisão, com sua irreverência alucinante. Chocado com os destinos da vida.

Juntamente com os ministros Barros Levenhagen, que foi presidente do Tribunal Superior do Trabalho, e Alexandre Belmonte; e com o advogado Roberto Costa, o Brow fazia parte desse grupo para lá de seleto de amigos verdadeiros, os de sempre, com os quais podemos contar a qualquer hora.

Ao longo da vida, perdi outros amigos igualmente queridos, e sempre lembrados, como os ex-ministros da Educação Paulo Renato de Souza e Esther de Figueiredo Ferraz, como a escritora Rachel de Queiroz, o poeta João Cabral de Melo Neto e os artistas plásticos Sylvio Pinto e Albery.

Perdi meu pai, Cezar Alonso, advogado notável, diretor de banco e, por anos e anos, secretário-geral da Presidência do Banco Central; perdi meu tio, almirante Adalberto de Barros Nunes, que foi ministro da Marinha. De cada uma dessas pessoas, guardo, na minha mente e no meu coração, lembranças e mais lembranças. Saudade, muita saudade. Ensinamentos de vida. Lições de vida.

Perder o Brow agora não estava no script, e nem eu jamais imaginei que pudesse escrever algo sobre ele, neste momento de partida para a eternidade. Sim, ganhador de prêmios Esso, o Brow deixa o seu nome registrado no panteão dos grandes jornalistas do Brasil. Seu exemplo de sagacidade, perseverança e de dignidade deverá ser perseguido pelos homens de bem e que querem uma Pátria livre. Seu exemplo deve ser seguido pelos demais jornalistas e pelos estudantes de Comunicação.

Profundamente entristecido, escrevo essas linhas, tentando, de alguma forma, prestar uma justa homenagem ao profissional e ao meu queridíssimo irmão-camarada, que ontem se foi.

Tristeza mais do que profunda.

Um dia nos reencontraremos.

 

 

Paulo Alonso

Jornalista.

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