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Meu amigo estrangeiro

Quando V. vai ao Starbucks ou a algum genérico e não acertam seu nome, escrevem isso aí que quer dizer: "Meu amigo...

Fatos & Comentários / 16 Junho 2018

Quando V. vai ao Starbucks ou a algum genérico e não acertam seu nome, escrevem isso aí embaixo, que quer dizer: "Meu amigo estrangeiro". Igual para todos.

O cara (que já morou nos EUA e fala inglês bem) me pergunta se quero PAPER (papel) na batata frita. Não me liguei que queria dizer PEPPER (pimenta)! Aliás, em outros lugares também pronunciam as duas palavras iguais.

Peço para embalar (Can you pack?) e, fazendo o gesto, sou entendido. Em todos os restaurantes entendo a palavra “Tapo” como resposta. Chego a pensar que fosse algum termo chinês a partir de Tupperware (como Kele quer dizer refrigerante, a partir de KEKA-KELE, por Coca-Cola, como pronunciam). Depois, nas aulas de mandarim para espanhol, fico sabendo que a palavra é DABAO, que quer dizer “pôr no saco”, aliás, palavra que consegui falar na última vez em que fiz todo o pedido em mandarim (feliz como um bebê). Mas o fato é que todas as embalagens pra viagem aqui são verdadeiros Tupperwares! 1.000 X 0 nas nossas “quentinhas”. Aprendam com os chineses.

Digo que sou brasileiro num bar cujo dono é marroquino e fala vários idiomas (seis ou sete, eu acho), inclusive um pouco de português. Sem sotaque quase nenhum, passaria por brasileiro, mas o vocabulário é bastante limitado, o suficiente, entretanto, para atender ao pessoal da embaixada, do outro lado da rua (aliás, é um bar que divide o banheiro com o vizinho de parede, onde o australiano havia me perguntado se era traficante). Diz que aprendeu português quando fez aulas de capoeira, porque os comandos eram na minha língua. Aliás, num certo dia da semana (esqueci qual) tem aulas de capoeira no segundo andar. Ainda vou fotografar ou gravar um vídeo sobre isso.

No final, ganho um presente, por conta da casa. Uma cerveja Super Bock, portuguesa.

Pela segunda vez, tenho que cortar o cabelo em Pequim, agora em outro salão, porque no primeiro (logo que cheguei) eu e o cara não nos entendíamos.... meu cabelo saiu quase do mesmo jeito que chegou. Desta vez, mais caro, pelo menos, o cara arranhava um inglês bem be-a-bá. Tenta puxar conversa, pergunta se sou italiano (já não é a primeira vez em que isso acontece), vai indo. Enfim... não saiu exatamente o que eu queria (não entendeu que era para “fazer o pé” na nuca com máquina, aliás, igual ao que ele mesmo usava), mas... paciência. No geral, ficou bem bom. No final, fala pra mim em inglês: “Como seu cabelo é crespo!”

Ele não conhece o Brasil. Imagina se ele visse os atores Lázaro Ramos ou Thiago Fragoso!

Dos 13 jornalistas da delegação, 11 são da América espanhola e nove sabem que o nosso “Ordem e Progresso” é positivista. Desses, três sabem que a frase completa é “Amor, Ordem e Progresso”. Mas nenhum sabe que a máxima completa é “O Amor por Princípio, a Ordem por Base e o Progresso por Fim”. Mesmo, assim, fico surpreso com a quantidade de “hermanos” que sabe sobre nós.

Num dos dois barezinhos em frente à embaixada, numa mesa, uma brasileira dá aulas, explicando em inglês, de português para uma russa (descobri depois a origem). Quando acabou, brinquei: “Também quero aula”. A brasileira riu, falou que tinha percebido que eu era conterrâneo, porque olhei para elas quando ouvi coisa em português. Disse que era professora por formação e vivia de dar aulas para estrangeiros. Tinha acabado aquela e ia começar outra, agora por Skype. Não estiquei a conversa para não atrapalhar.

Não identifiquei muito bem sotaque... São Paulo?... Curitiba, talvez?... mas meio confuso, escorregava em alguns modos gaúchos de falar... estava meio indefinido... dava para perceber que era de São Paulo para baixo, mas eu não estava seguro (e olha que costumo acertar)... talvez estivesse fora do Brasil por muito tempo, perdeu um pouco da “identidade” (vamos assim dizer)... não sei.

Perguntei de onde era e disse que era de São Paulo (embora não fosse exatamente os sotaques que conheço de SP, há mais de um até mesmo na capital). Aí me perguntou: “Você é do Rio, né?”

Eu ri: “O sotaque denunciou, né?”

Ela riu: “Você fala igual surfista!”

Uma vez, na Bienal do livro em SP, já tinham me falado isso.

Surfixxxta, eu? P*rra, coé, mané?!

J.C.Cardoso, de Beijing, China