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Marcelo Turra, exemplo de cidadania a ser seguido

Opinião / 17 Maio 2018

O humanista, advogado e professor universitário Marcelo Deatry Turra é idealizador de um projeto denominado “Café Suspenso”, que visa atender à população em situação de rua. Dessa forma, Turra tem percorrido, sempre acompanhado por alunos do Curso de Direito de uma instituição privada, ruas, becos, largos e comunidades carentes, para, juntos, conversarem com essas pessoas e verificarem suas necessidades.

Como a área do grupo é a jurídica, o advogado e seus alunos identificam as angústias dessa população e a orienta em vários assuntos, dentre os quais como obter segunda via da identidade, da certidão de nascimento, encaminhamento a um tratamento de saúde e até mesmo mudança do nome civil, quando se tratar de uma mulher trans em situação de rua.

 

Projeto leva atendimento

à população de rua no Rio

 

Esses voluntários já estão sendo conhecidos e reconhecidos nas áreas do Flamengo, Botafogo, Catete, Largo do Machado e Glória. E a ideia é estender essa ação inclusiva a outros bairros da zona sorte e subúrbios. Para tanto, estão fazendo uma pesquisa com os dados e informações da Prefeitura do Rio, para identificar onde há uma maior concentração de moradores de rua, na Cidade.

A ideia de criar esse projeto, explica Turra, surgiu quando ele leu uma matéria em um jornal que fazia a seguinte pergunta: você já ouviu falar de pessoas que, ao pagarem a conta, deixam também o valor de um lanche ou uma bebida para ser distribuído a quem não tem recursos?”

A atividade foi batizada de “Café Suspenso”, por ser inspirada em prática criada na Itália e bastante comum na Europa. O cliente de uma lanchonete ou restaurante paga, além do que consome, voluntariamente, uma bebida ou uma comida para quem não tem recursos para consumir. Necessitando, as pessoas em situação de rua procuram os estabelecimentos que utilizam essa prática e consomem o que lhes foi deixado a mais pelos clientes.

Inspirado nesse questionamento e nessa prática usual do Velho Continente, ele reuniu discentes, abordou a questão da inclusão social e o visível descaso das autoridades em relação a um percentual tão expressivo e carente da população em suas aulas, e, em seguida, formou o primeiro mutirão, que já esteve, inclusive, e em várias oportunidades, na Comunidade Dona Marta, em Botafogo, dando gratuitamente consultoria jurídica a quem precisa de informações e de orientações.

A ideia, de acordo com Turra, é trabalhar o “Café Suspenso” com o que o grupo, formado por discentes na faixa dos 18-24 anos, tem a oferecer, que é justamente o conhecimento jurídico. Dessa forma, conversam com essas pessoas, estabelecendo uma relação de confiança e atendendo, na medida do possível, às suas necessidades.

Essa equipe, coordenada por Turra, atua em casos de defesa de direitos básicos de grupos marginalizados, direitos dos animais, transexuais, pessoas que vivem com HIV/aids, demandas envolvendo acesso à saúde, dentre outras.

A academia jamais poderia estar distante, alheia a essa questão, uma vez que há falta de políticas inclusivas por parte do poder público. Invisibilidade, preconceito, sentimento de asco e sentimentos ruins são algumas das percepções dos voluntários, quando andam pelas vias públicas e observam os transeuntes olhando para essas pessoas em situação de rua, com desdém.

Esses tipos de segregação, argumenta Turra, já ferem vários direitos fundamentais, que nada mais são do que os direitos básicos individuais, sociais, políticos e jurídicos que são previstos na Constituição Federal de uma nação.

Por norma, os direitos fundamentais são baseados nos princípios dos direitos humanos, garantindo a liberdade, a vida, a igualdade, a educação, a segurança e muito mais. Direitos esses negados àqueles que se encontram em situação de rua. Tanto pelos cidadãos quanto pelo Poder Público.

Um levantamento feito pela Prefeitura do Rio indica que a cidade tem 4.628 pessoas em situação de rua. O número é bem menor que um outro estudo, feito em 2016, que indica 15 mil moradores de rua. O estudo indica ainda que eles são na maioria homens, pardos e pretos, que têm entre 30 e 59 anos. Do total, 86% disseram que sabiam ler e escrever. Cerca de um em cada quatro tinham até o ensino médio (22%). E a maioria presta serviços nas ruas. Normalmente, fazem o trabalho braçal: são carregadores, catadores, pedreiros. A pesquisa apontou que só 1% pede dinheiro.

Diante de um cenário tão sombrio, ações como a que o professor Marcelo Turra coordena com seus alunos são dignas de aplausos e devem servir de exemplo para toda a sociedade, cada vez mais egoísta, distante, em consequência, dos graves problemas sociais que as grandes metrópoles enfrentam.

 

 

Paulo Alonso

Jornalista, é diretor-geral da Facha.