Mapfre Investimentos: setor de serviços sob investigação

Segmentos com maior expansão na prestação de serviços não apresentam crescimento da receita real na mesma proporção.

Opinião do Analista / 14:31 - 10 de set de 2019

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A semana contempla diversos indicadores com potencial de impacto nos preços dos ativos. Na arena internacional serão divulgados dados de criação de empregos nos EUA no dia 10. No dia 12 será a vez do índice de preços ao consumidor norte-americano, do índice de preços ao consumidor da União Europeia e da reunião do Banco Central Europeu. No Brasil, por sua vez, destacam-se dados de atividade econômica. Haverá as pesquisas mensais de comércio (PMC), de serviços (PMS), ambas de julho, e o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) de junho nos dias 11, 12 e 13, respectivamente.

Os dados da Pesquisa Mensal de Serviços no Brasil serão reveladores do dinamismo econômico no início deste semestre. Afinal de contas, o setor de serviços é o que vem apresentando o maior crescimento neste ano. Este registrou expansão de 1,2% no segundo trimestre deste ano ante o mesmo período do ano passado de acordo com as contas nacionais. A Indústria e a Agropecuária registraram altas de 0,3% e 0,4% na mesma comparação. Ou seja, o setor de serviços se tornou um importante dínamo e condicionante do crescimento da economia brasileira. Daí a relevância do dado a ser divulgado no dia 11.

Os dados da Pesquisa Mensal de Serviços divulgados até aqui não indicam uma evolução uniforme de seus segmentos. O volume de prestação de serviços apresenta melhor desempenho nos segmentos de Serviços Prestados a Famílias e de Informação e Comunicação. Por outro lado, os segmentos de pior desempenho em termos de volume são os de Transportes e Correios, de Seguros, Previdência Complementar e Planos de Saúde e de Serviços Profissionais e Administrativos. Interessante notar que esse quadro se inverte quando consideramos o coeficiente entre receita real e volume de prestação de serviços por segmento.

O que isso significa? Os segmentos com maior expansão na prestação de serviços não apresentam crescimento da receita real na mesma proporção, e vice-versa. Assumidas algumas hipóteses, pode-se dizer que há segmentos com aumento da prestação de serviços, mas diminuição de preços. Esse é o caso de Serviços de Informação e Comunicação. Pode-se também dizer que há segmentos com diminuição da prestação de serviços, mas aumento de preços. Esse é o caso de Transportes e Correios. Por fim, pode-se dizer que há segmentos com diminuição da prestação de serviços sem recuperação do preço unitário. Esse é o caso de Serviços Profissionais e Administrativos. É aí que as atenções devem se concentrar.

 

Empresas e setores: desempenho positivo das vendas de caminhões - O mercado automobilístico brasileiro iniciou o segundo semestre em desaceleração, impactado pela crise econômica brasileira e pelos dados fracos de exportações causados, principalmente, pela crise na Argentina. Mas as vendas de caminhões parecem ignorar o ambiente interno ruim e se mantém em crescimento. O volume de vendas dessazonalizados de agosto, comparado ao mesmo período de 2018, aponta para um crescimento de 25,1%.

Os dados positivos poderiam ser ainda melhores se as exportações tivessem reagido. As vendas de caminhões na Argentina, maior comprador brasileiro, tiveram uma queda de 32% contra o ano anterior. O fraco desempenho tem enfraquecido o volume das exportações e da produção.

Mas há boas notícias. Números divulgados pela B3, operadora do Sistema Nacional de Gravames (SNG), mostraram crescimento de 40,7% nos financiamentos de veículos pesados novos no primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano anterior. A Confederação Nacional de Transportes (CNT) também aponta para crescimento. Segundo a mesma fonte, o PIB do setor de transportes cresce mais do que o nacional.

As boas notícias não param por aí. Na última semana, o ministro da Economia, Paulo Guedes, esteve com o ministro da Produção e Trabalho da Argentina, Dante Sica, para debater novas regras do acordo para comércio de automóveis. Na reunião foi discutido o acordo automotivo que prevê livre comércio sem condicionantes a partir de julho de 2029. A medida irá alterar a relação entre exportações e importações entre os países. O atual acordo que vencerá em 2020, prevê que a cada US$ 1 importado da Argentina, permite ao Brasil exportar US$ 1,5 sem cobranças de tributos.

 

Gestão: guerra comercial morde e assopra, versão 5.0 - "Pode-se enganar alguns o tempo todo e a todos por algum tempo, mas não se pode enganar todo o mundo por todo o tempo." Atribuída ao grande legislador Abraham Lincoln, a frase resume a tônica da semana nos mercados financeiros, mais uma vez se deixando iludir pela retórica de distensão e "retomada das negociações" entre EUA e China.

A dissonância cognitiva permite a você ignorar a realidade e substituí-la pela fantasia. A fantasia: Trump e Xi chegarão a um acordo até o final do ano, e presidente norte-americano o venderá internamente como uma vitória para garantir sua reeleição. A realidade: a guerra comercial já causou estragos irreversíveis e é apenas o aspecto visível do início de uma longa disputa aberta de duas superpotências pela hegemonia. Mais: os indicadores de atividade seguem confirmando a tendência de desaceleração das economias centrais, apesar dos volumes recordes de estímulos monetários e fiscais por parte de governos e bancos centrais, emissão de moeda e dívidas com taxas de juros artificialmente baixos e retornos reais negativos que, à medida que os Treasuries também ingressam neste grupo, devem rapidamente atingir o volume de US$ 30 trilhões.

Em vez de corrigir a distorção, a política monetária dos bancos centrais aponta no sentido de aprofundá-la. Portanto, nada de concreto foi atingido, embora o pretexto para o movimento tenha levado o Índice S&P 500 a encerrar a semana com cerca de 2% de alta, a apenas 1,5% das máximas, e yields dos Treasuries experimentaram forte recuperação com o clima risk on; enquanto o ouro e a prata - que brilharam neste ano em cima de notícias ruins - inverteram o sinal e ingressaram em forte realização de lucros.

No cenário doméstico o dólar quebrou a sequência de valorização frente ao real e recuou quase 2% na semana, enquanto o Ibovespa subiu 1,8% no período, fechando a semana próximo dos 103 mil pontos.

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