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Mapfre Investimentos - Abertura comercial: riscos e oportunidades

Iniciativas podem mitigar riscos e potencializar benefícios.

Opinião do Analista / 14 Março 2019 - 16:29

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A abertura comercial está na ordem do dia. A intenção do governo Bolsonaro é integrar a economia brasileira ao comércio internacional. Isso traz oportunidades. Há convergência de opiniões de que a abertura favorece a produtividade. Os mecanismos dessa relação entre abertura e produtividade são corroborados pela experiência de liberalização comercial em outras economias. Entre esses mecanismos estão o acesso a insumos básicos e bens de capital, a difusão de inovações, a pressão competitiva, a redução da incerteza sobre políticas comerciais futuras e a inserção em cadeias globais de valor (CGV).

Mas a abertura também traz riscos. Para começar, o timing é desfavorável: a intenção do Governo é propor reduções unilaterais de tarifas de importação justamente neste momento de acirramento de posições protecionistas no mundo. Negociar reduções de tarifas com nossos parceiros constituiria estratégia superior. Além disso, o processo de integração tem custos maiores para economias com liberalização comercial tardia, como o nosso caso. Por fim, experiências internacionais demonstram que há ganhadores e perdedores em processos de aberturas comerciais.

Para identificar segmentos econômicos potencialmente ganhadores e perdedores utilizamos o Índice de Vantagens Comparativas Reveladas de Exportações (IVCRE). Este estima quais segmentos possuem vantagens ou desvantagens comparativas em suas exportações. Verifica-se que segmentos da economia brasileira que apresentam maior vantagem comparativa são compostos majoritariamente por produtos básicos e semimanufaturados. Produtos básicos ampliaram sua vantagem comparativa desde o ano de 2007. Já os semimanufaturados perderam vantagem comparativa nesse período. Quanto aos demais segmentos, em grande parte intensivos em tecnologia, todos apresentavam desvantagem comparativa em 2007 e intensificaram este resultado desde então.

Analogamente ao IVCRE, estimamos o Índice de Vantagens Comparativas Reveladas de Importações (IVCRI). Este identifica quais segmentos de produtos importados possuem vantagens ou desvantagens comparativas em relação aos seus pares nacionais no mercado nacional. Produtos importados possuem vantagens comparativas em 5 segmentos: Químicos, plásticos e borrachas, bens intermediários e óleos. Para os demais segmentos a penetração de produtos importados no mercado doméstico é inferior à média internacional.

Combinando ambos os índices, consegue-se identificar os segmentos mais vulneráveis a abertura comercial. Este é o caso dos segmentos de transportes, calçados, pedras e vidros, bens de capital, têxteis e roupas, máquinas e eletrônicos e bens de consumo, conforme figura a seguir. Nestes casos, o IVCR é negativo tanto para importação quanto para exportação. Nestes segmentos, os produtos não obtêm bom desempenho no comércio internacional e ainda não sofrem concorrência de importados no mercado doméstico. Ou seja, têm mais a perder em caso de abertura comercial. A abertura comercial nos demais segmentos causará menor vulnerabilidade uma vez que a dinâmica destes já está em conformidade com a lógica liberal: onde se é mais competitivo, se exporta mais; onde se é menos competitivo, se importa mais.

Quais as formas de mitigar riscos e potencializar os benefícios dessa abertura? Há 2 consensos. Primeiro, acordos de comércio e de investimentos. Estes favoreceriam também a internacionalização de empresas brasileiras. Ocorre que as negociações entre a Mercosul e UE, lançadas em 2000, seguem sem conclusão. Segundo, precisa-se melhorar a eficiência do Governo e o ambiente de negócios. Essa iniciativa deve contemplar menor tempo para abertura de empresas, facilidade para obtenção de alvarás e autorizações, simplificação dos impostos e contribuições e diminuição da burocracia para o registro de propriedades, entre outras medidas.

Mais do que esses consensos, deve-se também valer das possibilidades de empresas transnacionais no Brasil para a inserção do país em CGV. A economia brasileira, mesmo com o décimo segundo maior estoque de Investimentos Diretos Estrangeiros (IDE) do mundo, é pouco integrada a CGV. Nossa taxa de participação em CGV é a segunda mais baixa entre as 25 economias mais exportadoras do mundo. Para reverter essa situação, 4 frentes devem ser consideradas: integrar políticas de comércio exterior e de atração de IDE, melhorar a infraestrutura, apoiar empresas locais, nacionais ou estrangeiras, com potencial de complementariedade nas redes internacionais de produção e fortalecer marcos regulatórios.

Nesse sentido, vale adotar postura ativa na atração de IDE. A economia brasileira decaiu da quarta para a nona posição entre as economias que mais receberam IDE no mundo desde 2012. Os atuais fluxos globais de IDE retrocederam para o nível de 2009. Há maior disputa entre países por menores fluxos de IDE. As iniciativas brasileiras de atração de IDE não poderão mais se ater apenas à postura passiva de recepção de investidores. Novas iniciativas precisarão considerar tendências dos fluxos globais de IDE, modalidades de internacionalização sem capital e a participação crescente dos setores de serviços nos fluxos globais de IDE.

 

Carta do gestor - Com Previdência em standby, desaceleração mundial pesa

O mês de fevereiro foi de maior realismo para os ativos de risco brasileiros, reforçado pela crescente percepção das dificuldades no caminho da aprovação da reforma da Previdência em meio a um ambiente de lento crescimento da economia doméstica e crescentes sinais de desaceleração da economia mundial. Com ruídos advindos da comunicação oficial do governo, dúvidas relativas à matéria apresentada (PEC da Previdência) e muita desinformação acerca de seus números disseminados tanto na mídia quanto no mercado, ficou a impressão de que o rally entre o pós-eleição e o início do ano "passou do ponto", deixando valuations com limitado upside diante de elevada incerteza quanto ao timing e economia fiscal previstos para a reforma. No front corporativo não foi diferente, dados os fracos crescimentos de lu cros das empresas na passagem trimestral à parte isoladas exceções, cujo corolário foi o frustrante PIB brasileiro do 4T18, que trouxe o desempenho consolidado do ano para um avanço de apenas 1,1% contra 2017, o segundo avanço anual consecutivo desta magnitude. Recuperação assim "nunca antes na história deste país".

Ainda assim, não foi o suficiente para fazer os investidores "virarem a mão", dado que o cenário base para o Brasil no ano segue positivo. Assim enxergamos os recentes movimentos nas ações, câmbio e juros muito mais como uma pequena correção ou parada técnica dentro de uma tendência de longo prazo predominantemente positiva. Não tão positivas são as expectativas para o desempenho das economias centrais. Apesar de EUA e China estarem próximos de um acordo comercial abrangente, alguns estragos causados pelo protecionismo são irreversíveis: as vendas de soja americana à China caíram 90% contra o ano anterior, enquanto o nível dos estoques nos EUA cresceu 18% no mesmo período, com mercadorias estragando ante a falta de compradores. Na China, as vendas de veículos, após caírem cerca de 9% em janeiro de 2019 contra o mesmo período do ano anterior, rec uaram cerca de 20% em fevereiro; leitura semelhante e na mesma magnitude vem ocorrendo com as exportações. Impacto parecido foi verificado com as exportações alemãs, considerado o setor mais dinâmico da economia europeia.

Não à toa, o BCE revisou recentemente suas projeções de crescimento para a Zona do Euro em 2019 de 1,7% para 1,1%. Pelo mesmo motivo, a autoridade monetária comunicou ao mercado que postergou para 2020 a possibilidade de aumentos nas taxas de juros e que irá retomar o processo de compras de ativos e de linhas de crédito especiais para os bancos europeus. No mesmo tom, o Federal Reserve adotou postura "paciente", com novas elevações dos juros condicionadas à leitura dos indicadores correntes de atividade. Sendo assim, apesar da atual desaceleração em curso nas economias centrais, a possibilidade remota de elevações dos juros neste ano, aliado ao diferencial frente às taxas brasileiras e a relativa ausência, neste momento, de estrangeiros de nossa bolsa, afasta o risco de fugas maciças de capitais e crises de liquidez na eventualidade de turbulências externas. Ne ste quesito, porém, o melhor remédio continua sendo fazer a lição de casa para voltar a crescer. Enquanto isso não acontece, espera-se que os mercados de ações, câmbio e juros sigam andando "de lado" e relativamente congestionados, com oscilações dentro de uma estreita faixa de variação.

Em função deste cenário de curto prazo, não logramos atingir em fevereiro a mesma performance que obtivemos em janeiro, com devolução de parte do alfa acumulado no início do ano devido a i) frustrações pontuais de resultados trimestrais em algumas posições na carteira de ações, levando a correções frente aos picos e máximas recentes; ii) alta de mais de 3% do dólar, com ligeira pressão e abertura de prêmios ao longo da curva de juros, reduzindo sensivelmente o alfa do início do ano. Por outro lado, posições direcionais abertas recentemente em ações, câmbio, metais e juros encontram-se bastante próximas ao ponto de maturação de suas teses, o que nos encoraja a seguirmos firmes nas estratégias estabelecidas.

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