Mandela, uma estratégia do bem

Por Paulo Alonso.

Opinião / 17:12 - 14 de nov de 2019

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Aziz Djendli é psicoterapeuta e trabalha em centros de saúde na França. Autor de livros sobre estresse e tensão emocional, tem feito palestras nos cinco continentes e acaba de ter o livro Nelson Mandela, une strategie du bien, traduzido para o português por Isabel Janot, editado pela Tabla.

Foi, justamente, a partir da experiência desse líder universal, da sua disciplina, benevolência e perdão que ele adotou para transcender sua condição durante os 27 anos em que esteve preso, que o autor dessa obra elaborou um método, aplicável à vida cotidiana, de mudança interna profunda cujos benefícios vão muito além de uma realização pessoal.

A adoção de um regime comportamental que se baseia na observação de si mesmo e na sinceridade, em um compromisso legítimo de não colaboração com o negativo e de não violência, permite, segundo Aziz, que uma transformação de proporções amplas possa acontecer, de fato. E ele foi buscar o exemplo de Mandela, para compor a sua inteligente e lúcida narrativa, ao longo de 110 páginas.

 

‘O ódio é algo que se aprende. Mas o amor também se aprende.

E o amor é mais natural que o ódio para o ser humano'

 

Importante salientar que não se trata de uma biografia de Mandela, nem muito menos uma análise sobre a sua vida e obra. A intenção do autor é oferecer ao leitor uma reflexão sobre a capacidade que todos nós temos de promover uma mudança positiva na vida cotidiana, a partir do legado de Mandela.

Dividido em duas partes – a estratégia do bem e a disciplina dos benevolentes – o livro, na perspectiva da vida de Mandela, é dividido em três períodos: sua vida antes da prisão, durante a prisão e depois da prisão. O líder negro costumava dizer que o cárcere lhe permitiu perceber o que ele nunca teria percebido em outro contexto. E foi nesse contexto hostil que ele pôde se conhecer muito melhor e sedimentar, em sua essência, a força do perdão, da unidade, a estratégia do bem e a reconciliação.

O fundamento mental e espiritual da “força de espírito” de Mandela vem da visão de vida o que ele queria para os outros e para si próprio. “Uma visão que não é acompanhada pela ação é apenas um sonho”, repetia. O homem que tem o hábito de se irritar constantemente é um ser triste e que se envenena todos os dias um pouco com o seu próprio rancor e para contrapor esse sentimento, Mandela pregava que “o ressentimento é um veneno”.

Aziz, durante todo o texto, vai citando frases construídas por Mandela e contextualizando esses pensamentos com a natureza humana, com valores, disciplinas e visões de mundo. Esses links são muito interessantes e faz com que o leitor não tenha a menor pressa de ler o livro, mas saborear cada uma das suas páginas, devido ao ensinamento profundo das lições nele contidas.

Em uma visão positiva como a de Mandela, o espírito enfatiza a aptidão para o bem: “Ninguém nasce odiando o outro por causa de sua cor de pele, cultura ou religião. O ódio é algo que se aprende. Mas o amor também se aprende. E o amor é mais natural que o ódio para o ser humano.”

Atualmente, os avanços da neurociência demonstram claramente que a raiva, a frustração ou um estado permanentes de tensão emocional aumentam a secreção dos hormônios do estresse e diminuem a secreção de endorfinas, os hormônios do bem-estar. Dessa forma, indo ao encontro de um provérbio chinês, “aprenda a perdoar; não pelos outros, mas pelo bem do seu corpo e da sua alma.” Aliás, do alto da sua sabedoria, Mandela já pregava: “Uma pessoa constantemente aprisionada à raiva, à frustração e à tensão é uma pessoa infeliz.”

Tanto Mandela, como Gandhi e Dalai Lama, figuras tão admiradas, deixaram sinais de que alcançar a benevolência é possível. A admiração deve nos conduzir à ação que, por sua vez, nos levará a uma disciplina amável e sólida. O sentimento de admiração é, na realidade, o despertar da nossa capacidade de seguir, com disciplina, um caminho que nos leva a ser uma pessoa do bem, ou nos conduz ao caminho firme do ser. Afinal, a disciplina do coração e do espírito torna o homem livre e bom.

Nelson Mandela (1918–2013) foi presidente da África do Sul e líder do movimento contra o apartheid – legislação que segregava os negros no país. Condenado em 1964 à prisão perpétua, foi libertado em 1990, depois de grande pressão internacional. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em dezembro de 1993, pela sua luta contra o regime de segregação racial, e ainda a importante Medalha da Liberdade, que ganhou do presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton.

Em 1939, Mandela ingressou no curso de Direito, na Universidade de Fort Hare, a primeira Universidade da África do Sul a ministrar cursos para negros. Por se envolver em protestos, junto com o movimento estudantil, contra a falta de democracia racial na instituição, foi obrigado a abandonar o curso. Mudou-se para Joanesburgo, onde se deparou com o regime de terror imposto à maioria negra.

Em 1943, concluiu o bacharelado em Artes pela Universidade da África do Sul. Continuou os estudos de Direito, por correspondência, na universidade de Fort Hare. Mais tarde receberia o título de Doutor Honoris Causa, na tentativa de compensar a sua expulsão.

Em 1960, diversos líderes negros foram perseguidos, presos, torturados, assassinados ou condenados. Entre eles estava Mandela, que em 1964 foi condenado à prisão perpétua. Na década de 80, intensificou-se a condenação internacional ao apartheid que culminou com um plebiscito que terminou com a aprovação do fim do regime. No dia 11 de fevereiro de 1990, depois de 26 anos, o presidente da África do Sul Frederik de Klerk, liberta Mandela.

Ao sair da prisão, Mandela faz um discurso chamando o país para a reconciliação: “Eu lutei contra a dominação branca e lutei contra a dominação negra. Eu tenho prezado pelo ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas possam viver juntas em harmonia e com iguais oportunidades. É um ideal pelo qual eu espero viver e que eu espero alcançar. Mas caso seja necessário, é um ideal pelo qual eu estou pronto para morrer”.

Até hoje, Madiba, como era conhecido, é um dos líderes mais conhecidos do mundo. Em sua biografia, ao explicar o porquê do seu interesse em lutar boxe na juventude, Mandela disse a seguinte frase: “Não era a violência que me interessava no boxe, mas a sua ciência. Me intrigava ver como o corpo podia se mexer para se proteger, como se usa a estratégia para atacar e esquivar-se, como se controla o próprio ritmo.”

As eleições de 1994 foram muito importantes na biografia de Mandela, pois, além de ser a primeira vez na vida que ele votou, foram as primeiras eleições livres do país. O líder sul-africano foi eleito presidente do país com 62% dos votos, aos 75 anos de idade.

A posse do presidente no dia 10 de maio foi marcada pela experiência de um país onde a liberdade estava renascendo, com novos símbolos, e inclusive a partir uma nova constituição proposta por Mandela, com valores ligados à igualdade, liberdade, democracia, justiça e respeito. Mandela na ocasião prometeu: “Uma sociedade de que toda a humanidade se orgulhará, que nasceu da experiência de um desastre humanitário que durou tempo demais.”

No filme Invictus (2009), estrelado por Morgan Freeman, os sul-africanos bateram os All Blacks em uma vitória épica e, com o apoio de Mandela, muitos negros no país se puseram a favor da seleção nacional, o que parecia impossível devido às circunstâncias. O presidente vestiu a camisa do time e entregou o troféu pessoalmente ao técnico da seleção. Invictus é um dos poemas prediletos de Nelson Mandela, escrito pelo inglês William Ernest Henley, e utilizado como inspiração para os anos de prisão de Mandela.

Em 2010, aos 92 anos, aparece pela última vez em um grande ato público, na final do Mundial de Futebol no Estádio de Joanesburgo. Simbolicamente, a sua presença no estádio representa a evolução do país.

Mandela é um dos homens mais premiados e homenageados do mundo. Com 695 prêmios, é a única pessoa a ter uma data em sua homenagem pela Organização das Nações Unidas, que declarou 18 de julho, data do aniversário dele, Dia Internacional Nelson Mandela.

Dentre as muitas frases e pensamentos de Mandela, o livro de Aziz Djendli resgata “sonho com o dia em que todas as pessoas levantar-se-ão e compreenderão que foram feitos para viverem como irmãos”, “ser livre não significa apenas libertar-se das correntes, mas viver de forma que respeite e envolva a liberdade dos outros” e “a educação é a arma mais forte que você pode usar para mudar o mundo.”

O autor conta a vida de Mandela, parafraseando o seu pensamento e, ao mesmo tempo, cria esse belo ensaio prático sobre o caminho da disciplina da benevolência, aconselhando aos leitores a trabalharem com disciplina e com o coração, tal qual fizeram Gandhi e Mandela. Só assim, acredita Aziz, as pessoas poderão obter resultados mais profundos que ajudarão a si próprios e a todos os que gravitam ao seu redor. Afinal, o mais difícil não é mudar a sociedade, mas mudar a nós mesmos.

Paulo Alonso

Jornalista, é chanceler da Universidade Santa Úrsula.

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