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Maldades imediatas

Conversa de Mercado / 23 Novembro 2018

Moço, desculpa informar, mas sua camisa está do avesso.

Moça, muito obrigado. Eu nem tinha notado. É o desespero. Sair com a camisa assim é o menor dos meus problemas.

Que está havendo? Precisa de algo?

Não, não há o que a senhora possa fazer. Eu vim aqui na Eletropaulo para pagar uma conta de luz atrasada. Eu pulei o pagamento sem querer. Estava sem cabeça. Agora cortaram minha luz. O pior é que minha mulher está em tratamento para o câncer. O remédio dela custou R$ 21 mil e precisa se manter gelado. Eu vendi meu carro para comprar. Pedi urgência para religarem a luz, mas me falaram que nada podem fazer. Tem fila... Espero que a luz esteja religada até meus quatro filhos chegarem da escola, e eu não perca o remédio. Ela depende disso, e o posto de saúde não liberou. É muita roubalheira do governo e, quando a gente precisa, não tem.

O homem suado na frente do posto de atendimento da Eletropaulo conversava com uma senhora que reclamava do valor da conta de luz. Ela dizia que não tinha condições de pagar os R$ 200 cobrados indevidamente. “Sou só eu e a minha neta. Nem chuveiro tenho”. São cenas cotidianas de uma população que, insatisfeita com a situação econômica do país nos últimos anos, decidiu pela mudança. Um salto no escuro. Grande parte dos votantes que elegeu Bolsonaro não sabe o que é liberalismo econômico e o que realmente precisará ser enfrentado nos próximos anos. Mas todos tinham um só pensamento: fora PT. “Nosso capitão irá acabar com a corrupissão” (SIC.), li num post de Facebook.

O noticiário da Lava Jato trouxe ao coletivo brasileiro a visão de que o grande problema do país era a corrupção. Portanto, era preciso tirar os caciques e renovar. Entre discursos exacerbados, bandeiras pelo conservadorismo cristão e fake news impulsionadas pelas mídias sociais, a campanha de Bolsonaro trouxe o candidato como o “único herói capaz de mudar isso daí”. Com ele, pegaram carona uma série de pessoas que enxergaram a oportunidade de responder aos anseios populares para obter um assento no Congresso. Ao todo, 88 deputados eleitos nunca tiveram ligação com a política.

A questão agora é se essa renovação veio para melhorar. “O momento político atual é de estupefação e incerteza. O que caiu não foi a presidência, mas a estrutura dos sistemas partidários. Como estes novatos vão se comportar?”, questiona o cientista político e professor da FGV EESP, Fernando Limongi. A incerteza quanto ao futuro do país é demonstrada inclusive na escolha dos ministérios, o que fica evidenciado nos nomes que ficarão à frente da saúde e da educação. “O nível de liderança é fator de preocupação”, afirma o professor.

Do lado econômico, a crise política que assolou o Brasil nos últimos anos não só fez ascender a direita ao poder, mas também deixa como legado o conflito distributivo. Nos próximos anos, será preciso encontrar 4% do PIB brasileiro para fechar as contas públicas e sair do déficit para o superávit. O problema: nenhuma das medidas que precisam ser tomadas para que isso aconteça agradarão a população, e será preciso maturidade do novo Congresso para que sejam aprovadas. Será que as bancadas da renovação entendem a urgência das mudanças?

Muito além da corrupção, o conflito das contas do governo é estrutural e traz consigo o risco do retorno da década de 80, o de que nos tornemos a nova Argentina. O que segura a economia atualmente é o nível das reservas. “Ainda tem gente que acha que o problema fiscal é a corrupção, mas ela não provoca perdas grandes. O problema fiscal é estrutural”, comenta o economista da FGV Ibre Samuel Pessoa.

Depois da queda de Dilma, Temer reverteu a política econômica e retomou o tripé (meta fiscal, meta de inflação e câmbio flutuante). No entanto, o atual presidente não teve apoio suficiente para tomar todas as medidas necessárias, muitas delas de impacto social negativo, como a Previdência. Eleito pelo povo, Bolsonaro terá estímulo para fazer todas as maldades imediatas. “Ele colhe o que foi feito e faz as reformas logo de imediato”, ressalta Pessoa.