Mais PIB e menos beneficiados

Empresa-Cidadã / 06 Fevereiro 2018

Semana passada, em Washington, o Banco Mundial apresentou o relatório Mudança na Riqueza das Nações, em que afirma que, entre 1995 e 2014, a riqueza global cresceu, passando de US$ 690 trilhões para US$ 1 quatrilhão (ONU News). Na América Latina, destacaram-se o Peru e o Chile, países em que a riqueza per capita mais do que dobrou no período. No Brasil, o crescimento foi de 20%.

A apuração da riqueza da economia levou em consideração o capital produzido (máquinas, instalações e equipamentos); o capital natural (terra agricultável, florestas, minerais e petróleo); o capital humano (habilidades e experiência de trabalhadores); e finalmente a soma de ativos e passivos estrangeiros do país.

 

Sai o PIB, entra o IDI

As medidas e as métricas econômicas, como o PIB, são controvertidas. Há algum tempo, discute-se sobre substitutos mais verdadeiros como medidas dos benefícios do crescimento econômico. O PIB, neste aspecto, pouco retrata. Grosso modo, se em uma sociedade há um acidente, com movimentação de ambulâncias, carros de bombeiros, utilização de médicos e pessoal da saúde, toda esta movimentação é agregada ao PIB, fazendo-o aumentar. Se, alternativamente, há tranquilidade absoluta, o PIB não se mexe. É bom crescer assim? A indústria da guerra, a grega valor ao PIB, com a produção de armamentos...

Nesta edição do WEF (World Economic Forum) foi discutida a possibilidade de um novo indicador, que possa responder questões como: o que faz a autêntica prosperidade de um país? Novas propostas de indicadores levam em consideração o custo ambiental na formação dos preços das mercadorias, o nível de inclusão ou de exclusão social, a escolaridade, as condições de saneamento e habitação, a expectativa de vida, os benefícios sociais etc.

O World Economic Forum (WEF) também entrou nesta discussão, com a apresentação de um novo índice, chamado de Índice de Desenvolvimento Inclusivo (IDI), que busca satisfazer a consideração de 11 aspectos econômicos reunidos em três eixos: crescimento, desenvolvimento e inclusão. O WEF afirma em documento que “o crescimento (do PIB) é necessário, mas não é mais uma única condição suficiente para um aumento robusto no padrão de qualidade de vida”, acrescentando considerações sobre o “consenso mundial da necessidade de um modelo mais inclusivo e sustentável de crescimento e desenvolvimento que promove alto padrão de vida para todos”.

 

Em números

O PIB per capita nominal do Brasil, em dólares, é de US$ 8.649 (soma de todo o valor agregado pelos setores primário, secundário e terciário, no ano, dividido pelo número de habitantes, desconsiderando a inflação), segundo o próprio Banco Mundial. Trata-se de uma das últimas posições entre os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), à frente apenas da África do Sul e da Colômbia. A média mundial é de US$ 10.191. O dos EUA é de US$ 57.638, e o da Noruega (o mais alto) é de US$ 70.911.

Na relação do IDI, o país está em 37º lugar em um grupo de 74 nações, e apresenta uma tendência discreta de piorar de posição. Sobre isto, acrescenta o WEF: “A concentração de riqueza no Brasil está entre as mais altas tanto da América Latina quanto das economias emergentes, e tem aumentado vagarosamente nos últimos anos.” Na medição do IDI, países com significativa igualdade social é que se destacam: Noruega, Islândia, Luxemburgo, Suíça, Dinamarca, Suécia, Holanda, Irlanda, Austrália e Áustria.

O relatório afirma ainda que “a descoberta-chave de que um crescimento relativamente forte não pode por si só ser responsável por gerar progresso socioeconômico inclusivo e ampla melhora no padrão de vida”. Há quem diga que os senhores e senhoras do WEF, que em uma edição recente decidiram abolir o uso de gravata, para dissimular o aspecto aristocrático do encontro, estão é jogando para a arquibancada. Vá lá, jogando para os camarotes...

 

Agenda

Jean-Michel Basquiat – Mostra individual de Basquiat, cuja importância maior foi estabelecer territórios para o grafite, a pichação e a arte africana, como expressões estéticas e sociopolíticas. Mais de 80 obras da coleção Mugrabi (grupo detentor de grande parte do acervo do artista) estarão expostas. Incluindo quadros, gravuras, pratos pintados e desenhos, é a mais significativa retrospectiva já realizada com trabalhos deste nova-iorquino do Brooklyn, filho de haitiano (pai) e porto-riquenha (mãe). Basquiat influenciou diversos artistas, inclusive no Brasil. Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte são os próximos destinos da mostra. De 25 de fevereiro até 7 de abril, no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo (CCBB/SP).

 

Rugendas na Caixa Cultural – Exposição individual de Johann Moritz Rugendas (1802–1858) exibe 50 obras do pintor, desenhista, ilustrador, aquarelista e litógrafo alemão, que se tornou um dos primeiros divulgadores de imagens do Brasil, ao lado do francês Jean Baptiste Debret. Rugendas retratou o Brasil (Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais) nos anos 1820, primeiro como membro documentarista da Expedição Langsdorff, patrocinada pelo Czar Alexandre I, por D. Pedro I e por José Bonifácio, com vistas a fortalecer as relações comerciais com a Rússia e que foi chefiada pelo barão Georg Heinrich von Langsdorff, médico alemão naturalizado russo. Mais tarde, passou a atuar como free-lancer. Voltou à Europa em 1825 para dedicar-se à edição, em 1835, em Paris, do álbum Voyage Pittoresque dans le Brésil, com 100 obras. Voltou ao Brasil em 1845, tornando-se o retratista favorito da família imperial.

Rugendas, Um Cronista Viajante. Local: Caixa Cultural do Rio de Janeiro, Galeria 2 (Av. Alm. Barroso, 25, Centro). Curadora: Ângela Ancora da Luz. Patrocínio: Caixa Econômica Federal e Governo Federal. Quando: até 11 de março de 2018 (terça a domingo, das 10h às 21h). Acessibilidade: sim.

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

http://pauloarteeconomia.blogspot.com