Mafaldas, pirralhas & Nilceas

Estão por toda parte, honrando o nome que tem em sua origem o significado de força e combate.

Empresa Cidadã / 20:23 - 7 de jan de 2020

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Mafalda é uma conhecida personagem das histórias de quadrinhos (HQ), escrita e desenhada, entre 1964 e 1973, pelo cartunista Joaquín Salvador Lavado Tejón (17 de julho de 1932, em Guaymallén, Argentina) mais conhecido como Quino. A personagem é uma menina que se preocupa incansavelmente com a Humanidade, com a Justiça e com a Paz. O nome Mafalda tem na sua origem o significado de força e combate.

– “Mafaldas” são “pirralhas”, espalhadas pelo mundo, como as centenas delas expulsas do ambiente da COP25, recentemente realizada em Madrid, após protestarem contra os ataques aos direitos das mulheres e dos indígenas e pedirem por mais ambição e efetividade nas ações dos políticos em defesa do ambiente global.

Inconformadas com a injusta contradição estabelecida no impedimento à presença da sociedade civil na COP25, enquanto lobistas do uso da energia derivada de combustíveis fósseis circulavam livremente no espaço da Conferência, as manifestantes em defesa do clima presentes em Madrid convocaram um protesto global, na sexta-feira, 13 de dezembro.

Em várias partes do planeta, jovens se reuniram com as palavras de ordem “O que nós queremos?” “Mudança!” “Quando nós queremos?” “Agora!” Em cidades como Berlim (100 mil manifestantes, segundo estimativa da polícia local), em Melbourne e Londres foram verificados os mesmos números de Berlim. Em New York, a prefeitura estimou em 60 mil o número de manifestantes nas ruas da cidade.

 

Fridays for Future

O Movimento Fridays for Future (fridaysforfuture.org) é derivado de uma prática instituída pela liderança da adolescente mafalda sueca Greta Thumberg, que a partir de uma ação solitária, de sentar-se do lado de fora do Parlamento sueco, toda sexta-feira, para chamar a atenção dos parlamentares e da opinião pública para a gravidade da crise ambiental que vivemos, se espalhou.

Hoje, ela consegue fazer com que 4 milhões de pessoas, em 161 países, movimentem-se no maior protesto já visto contra os maiores responsáveis pelas causas das mudanças climáticas, com um movimento consolidado, o Fridays For Future.

 

Mafaldas advertem: ‘Não importa se vocês gostem ou não’

Em 23 de setembro, a Organização das Nações Unidas (ONU) realizou a Cúpula da Ação Climática de 2019, nas palavras do secretário-geral da ONU, António Guterres, para “impulsionar a ambição e acelerar as ações na implementação do Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas”. Sentada ao lado do secretário-geral, Greta Thunberg fez um contundente comunicado aos dirigentes políticos e lideranças corporativas. Disse ela:

Está tudo errado. Eu deveria estar na escola, do outro lado do oceano. Ainda assim, vocês todos pedem a nós, jovens, por esperança. Como se atrevem? Vocês roubaram meus sonhos e a minha infância com suas palavras vazias. Estamos no início de uma extinção em massa, e tudo o que vocês conseguem falar é sobre dinheiro. Por mais de 30 anos, a ciência tem sido clara. Como vocês ousam continuar a desviar o olhar e vir aqui dizer que estão fazendo o suficiente quando as políticas e as soluções necessárias ainda estão longe de vista? Os olhos de todas as gerações futuras estão sobre vocês. E se vocês escolherem falhar conosco, eu digo: nunca vamos perdoar vocês! Aqui e agora é onde nós traçamos a linha. O mundo está acordando e as mudanças estão vindo. Não importa se vocês gostem ou não.”

 

Mafaldas por todo lado

Incansável, no mesmo dia, Greta Thunberg, junto a outros e outras 15 “mafaldas”, na sede do Unicef, representaram ante a Convenção dos Direitos da Criança contra cinco países (Brasil, Argentina, Turquia, Alemanha e França. EUA, China e Índia não ratificaram a Convenção de 1989, escapando assim do compromisso de garantir o bem-estar e a saúde das suas crianças, aspecto demandado aos 44 signatários).

 

Mafalda, personalidade de 2019

Dias depois, na última edição de 2019, a revista Time atribuiu a Greta Thunberg o status de capa, como Pessoa do Ano, com o título “A Força da Juventude”. Isso depois de o presidente da República do Brasil dizer publicamente que não entendia como a imprensa do país dava tanta importância a uma “pirralha”. E soltar os seus cães de ataque sobre a jovem, tentando alcançá-la com notícias falsas (as notórias “fake news”). Será que ele entende agora? Desenhistas. A postos!

Também o presidente dos EUA encontrou uma brecha na tentativa de se safar no processo de impeachment que responde junto à Câmara de Representantes, para fazer insinuações machistas sobre o fato de a adolescente não se apresentar com um “namorado” ou sobre questões particulares da saúde dela. É como se a jovem ativista especulasse sobre problemas de próstata dele.

 

Como não posso votar...’

Como não posso votar, essa é uma das maneiras que eu posso fazer minha voz ser ouvida”. Assim falou GT sobre a sua atitude de resistência.

 

Na Idade da Inocência’

Na obra do cineasta francês François Truffaut (Paris, 6 de fevereiro de 1932–Neuilly-sur-Seine, 21 de outubro de 1984), Na Idade da Inocência (L’argent de Poche, 1976), a fala emocionada do professor Richet (na bela interpretação de Jean-François Stévenin, 23 de abril de 1944) junto aos seus alunos, no último dia de aula, sobre a realidade do aluno Julien Leclou, agredido pelos pais, sentenciou. Ou teria profetizado?

(...)Todo mundo que tem poder afirma que não aceita ameaças. Mas eles cedem a pressões. Uma demonstração de força é a única forma de obter resultados. Adultos entendem isso (...) e eles conseguem o que reivindicam por pressão. O que eu quero mostrar é que quando os adultos estão determinados, eles podem melhorar muito. Mas os direitos das crianças são totalmente ignorados.”

Os partidos políticos não estão comprometidos com garotos como Julien ou vocês. Sabe por quê? Porque criança não vota! Se crianças tivessem o direito de votar, elas teriam escolas melhores, apoio para a prática de esportes. Vocês conseguiriam por que políticos precisam do seu voto. Você poderia vir à escola uma hora mais tarde no inverno, em vez de sair de casa às pressas, sem a luz do dia (...). Um dia, vocês terão seus próprios filhos. Se eles não sentirem que você os ama, então eles vão transferir o amor deles e o carinho para outras pessoas ou outras coisas. Assim é a vida! Cada um de nós precisa ser amado! Bem, crianças, a escola acabou. Boas férias!”

 

A reitora ‘mafalda’

Há poucos dias, em meados de novembro de 2019, a mídia trouxe notícias derivadas de estudo produzido pelo IBGE, dando conta de uma inédita ultrapassagem do número de matrículas no ensino universitário por pretos e pardos (50,3% do total), sobre o número de matrículas de brancos e outros. Em um país com um ranço escravocrata como o nosso, não é pouca coisa, trata-se de uma conquista. Talvez por isso, apesar de o assunto conter um componente inevitável de controvérsia, as matérias continham também um carinhoso acolhimento, ainda que tímido.

Muito dessa conquista da cidadania deve-se ao sistema de cotas, que reserva vagas a determinados segmentos populacionais, corrigindo condições de iniquidade preexistentes. Implantar o sistema, hoje quase consagrado, não foi fácil. A primeira universidade a fazê-lo foi a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), para meu orgulho. Muito teve que ser construído para dar sustentação ao sistema de cotas, de resto aprovado em todas as avaliações.

Muito desta construção é devido à força e à combatividade da então reitora da Uerj, Nilcéa Freire (14 de setembro de 1953–28 de dezembro de 2019), uma dessas “mafaldas”, que aí estão e estarão para sempre, enquanto houver justiça por que se lute.

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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