Maduro renova apelo ao diálogo com a oposição na Venezuela

Internacional / 17 Julho 2017

O presidente venezuelano Nicolas Maduro reiterou o seu apelo ao diálogo político com o partido de oposição Mesa da Unidade Democrática (MUD) no domingo.

Isso aconteceu no dia em que seu governo realizou um teste para as eleições de 30 de julho para a Assembleia Nacional Constituinte (ANC), enquanto a MUD realizou um referendo não oficial para permitir que o povo venezuelano expresse seu apoio ou rejeição à ANC do governo.

"Eles (MUD) tiveram uma consulta tranquila hoje (...) Eu lhes digo que não fiquem loucos, pedimos que eles voltem à paz, se sentem e conversem, para começar um novo ciclo de diálogo buscando a paz", disse Maduro durante uma entrevista por telefone dada à estatal Venezolana de Televisión.

Ele pediu à oposição para recuperar "um caráter democrático" e "isolar" os setores que Maduro culpou pelos protestos violentos.

"Devemos estar conscientes das diferenças que temos no país, devemos resolvê-las com a paz, votos e não balas, com tolerância e com a democracia", continuou Maduro.

Maduro criticou o referendo organizado pela MUD dizendo que teve pouca participação, mas afirmou que a simulação da votação da ANC como tendo visto uma participação "muito grande", maior do que qualquer eleição em 18 anos.

Seu apelo pode ter sido afetado pela morte de uma mulher, Xiomara Scott, 61, em um centro de votação para o referendo da MUD.

No final de domingo, o promotor-geral emitiu uma declaração afirmando que um tiroteio na cidade de Catia, a oeste de Caracas, havia matado Scott e outras três pessoas que estavam do lado de fora do centro de votação.

No entanto, os representantes da MUD rapidamente atribuíram o ataque a "grupos armados" ligados ao governo.

O vice-presidente da Assembleia Nacional, Freddy Guevara, membro da MUD, enviou uma carta a Maduro e ao ministro da Defesa, Vladimir Padrino Lopez, no qual afirmou que o exército foi o responsável pelas mortes.

A morte de Scott eleva o número total de pessoas mortas desde os protestos anti-governo que começaram no início de abril para 95.

 

Oposição diz que presidente foi "revogado" com resultado de plebiscito

O presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Julio Borges, disse que, como a oposição conseguiu quase sete milhões de votos a favor da sua proposta no plebiscito contra o governo, o resultado deixa Maduro praticamente "revogado".

"Com os votos do povo venezuelano, matematicamente Nicolás Maduro está revogado no dia de hoje. Esse era o medo que tinha do plebiscito revogatório e, por isso, impediu; por isso o governo não quer fazer eleições nunca mais", disse Borges após conhecer os resultados eleitorais.

O opositor assegurou que a denominada consulta popular aconteceu "com total beleza e confiança" e que os venezuelanos contaram com menos centros de votação do que em qualquer outra disputa nacional.

"No entanto, o povo superou todos os obstáculos, não somente o de haver menos lugares para votar, mas também superou o medo, superou a violência, superou as ameaças do governo aos funcionários públicos, às pessoas que recebem programas sociais", prosseguiu Borges.

A chamada comissão de fiadores do plebiscito opositor informou antes, com base em 95% do total de votos, que 7.186.170 de venezuelanos participaram da consulta feita à margem do poder eleitoral e que pelo menos 98% dos eleitores votaram sim nas três perguntas.

"Esperamos o número final que será divulgado hoje, 17 para que nós possamos ter a certeza de que vamos conseguir a mudança democrática no país", finalizou.

 

No Brasil, milhares votam - Ainda de acordo com a Agência EFE, milhares de venezuelanos votaram ontem em cidades brasileiras na consulta popular promovida pela oposição para manifestar rejeição à Assembleia Constituinte proposta pelo governo de Nicolás Maduro. As informações são da.

A maior participação foi em Roraima, onde cerca de 30 mil venezuelanos chegaram nos últimos meses, depois de abandonar seu país por conta da grave crise econômica e da severa escassez de produtos básicos. Conforme dados oficiais, a quantidade de pedido de refúgio apresentado por cidadãos venezuelanos disparou e, nos primeiros seis meses deste ano, chegou a quase 6 mil, frente aos 3.375 registrados ao longo de todo o ano passado.

Em Roraima, as mesas para a consulta foram instaladas principalmente em Boa Vista, onde organizações de assistência têm diversos programas de ajuda aos venezuelanos. Também foram habilitados locais de votação em Brasília, Curitiba, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Belém, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo.

Em Brasília, o local escolhido para os venezuelanos manifestaram sua opinião à Assembleia Constituinte foi o Parque da Cidade, onde os opositores de Maduro também receberam o apoio de brasileiros. Já no Rio, a votação aconteceu na Lagoa Rodrigo de Freitas.

Este processo acontece paralelamente a uma simulação eleitoral convocada pela CNE como teste para a Constituinte marcada para o dia 30.

 

Ataque de grupo armado deixa dois mortos em Caracas

Ao todo, duas pessoas morreram e quatro ficaram gravemente feridas no oeste de Caracas neste domingo, depois que um grupo de homens armados atirou durante a realização da consulta popular da oposição sobre o processo Constituinte promovido pelo governo. Segundo a Agência EFE, a informação foi passada pelo chefe de campanha do plebiscito e prefeito do município de Sucre, Carlos Ocariz.

"Há pouco, um incidente em Catia. Paramilitares dispararam. Há quatro feridos gravemente e dois mortos", escreveu o governante no Twitter.

O incidente foi confirmado pelo Observatório Venezuelano da Agitação Social (OVCS): "Grupos Paramilitares atiraram em Catia. Cidadãos se escondem na Igreja El Carmen, na Avenida Sucre."

A Avenida Sucre, no setor Catia, abriga um dos pontos habilitados para a consulta. De acordo com Ocariz, uma investigação já foi solicitada ao Ministério Público.

O líder opositor Henrique Capriles, por sua vez, publicou um vídeo na mesma rede social mostrando o tumulto na porta da igreja e o barulho dos disparos.

"O desespero de @nicolasmaduro e da sua cúpula corrupta que mandaram os seus grupos paramilitares para assassinar o nosso povo em Catia!", escreveu.

Segundo a reitora da Universidade Central da Venezuela, Cecilia García Arocha, a participação foi alta, levando-se em conta que havia sete vezes menos mesas de votação do que numa eleição nacional e que o plebiscito foi organizado em duas semanas, por 50 mil voluntários e sem a estrutura do governo. Arocha integra o grupo de acadêmicos que monitorou a consulta popular.

Já o presidente Maduro considera que o resultado do plebiscito foi "desmoralizante" comparado com a participação na simulação para a eleição da Assembleia Nacional Constituinte. A oposição vai boicotar a votação do dia 30, por considerá-la uma manobra de Maduro para reescrever a Constituição e se perpetuar no poder, apesar da crescente insatisfação da população com o desabastecimento e a inflação anual de mais de 700%.

A crise econômica, agravada pela queda do preço do petróleo (principal produto de exportação venezuelano), determinou a vitória da oposição nas eleições legislativas de 2015. Pela primeira vez em 18 anos de governos socialistas, os oposicionistas controlam o Congresso. Mas suas decisões têm sido anuladas pela Suprema Corte que, segundo a oposição, é aliada de Maduro.

Desde abril, a Venezuela tem sido palco de protestos contra e a favor do governo, que resultaram na morte de pelo menos 95 pessoas. Maduro tem acusado a oposição de estimular a violência e prometeu reagir com força, se necessário. Mas a oposição - e o Ministério Píblico do país - responsabilizam a repressão e o governo.

Vários governos, além do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, têm criticado a Venezuela pela falta de independência dos três poderes. Desde março, quando começou a criticar abertamente o governo, a procuradora-geral Luisa Ortega tem sido alvo de investigações, cujo objetivo é tirá-la do cargo. A oposição teme que o primeiro passo da Constituinte será dissolver o Congresso.

 

Com informações da Xinhua e da Agência Brasil, citando a EFE