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Lobo em pele de cordeiro

Empresa-Cidadã / 02 Outubro 2018

A onda da responsabilidade socioambiental empresarial despertou em muitos empresários e executivos de empresas um jeito diferente de perceber a gestão da empresa, atento para aspectos que levam em conta mais do que a tradicional racionalidade de considerar como missão única da empresa a busca do lucro e nada mais.

No entanto, neste rebanho de cordeiros, também são encontradas algumas invasões, por baixo da cerca, feitas por lobos descaracterizados. O conhecido “lobo em pele de cordeiro”, nestas práticas, também é conhecido como “greenwash”. É como se alguma empresa tomasse um “banho de verde”, isto é, assumisse práticas visando conferir a ela a qualidade de empresa preocupada e ocupada com preservação ambiental e, num sentido mais amplo, também com a inclusão social. Só que de mentirinha. Uma fraude, portanto.

Matéria publicada no jornal The Guardian, edição internacional, de 28 de setembro passado, traz uma interessante matéria sobre esta questão, “Is Goldman Sachs’ new fund really just greenwashing stocks”. Nela, Chase Woodruff and David Sirota questionam sobre as verdadeiras razões da Goldman Sachs e do bilionário Paul Tudor Jones firmarem uma parceria para ajudar capitalistas responsáveis a investir em negócios corretos, disponibilizando um fundo de empresas indexadas, ou seja, capazes de oferecer retornos aos poupadores, ao mesmo tempo em que suas aplicações apoiam empresas verdadeiramente responsáveis.

Em nota, quando do lançamento do fundo, Jones declarou que o capitalismo tem a força necessária para gerar mudanças positivas. O fundo procura colocar o seu peso financeiro em empresas que tenham, por trás de suas práticas, procedimentos éticos e sustentáveis. Até aqui, o fundo, instituído em junho, representa um dos maiores sucessos conhecidos, negociando inversões financeiras em empresas cujos ativos alcançam a ordem de US$ 250 milhões.

No entanto, documentos do fundo relatam que alguns dos maiores investimentos foram realizados em empresas produtoras de combustíveis fósseis (Exxon Mobil) e também em empresas com registros de fraudes juntos a investidores (J.P. Morgan), práticas ilícitas em campanhas políticas (Facebook), ou em práticas trabalhistas condenáveis (Amazon). Isto sem falar de empresas que atuam anulando os aspectos concorrenciais de mercado.

O próprio Goldman Sachs, nos meses que antecederam o lançamento do fundo, andou envolvido em escândalos de inobservância de direitos humanos em suas instalações, bem como em articulações legislativas que podem vir a dificultar os seus stakeholders na percepção precisa do desempenho sustentável.

São lobos em pele de cordeiro circulando em meio ao rebanho que se acha protegido. Não está, porém.

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).