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Livro satiriza sistema político brasileiro e suas mazelas

​​​​​​​Milagre em Passadouro, de Lúcia Murad Neffa.

Registro / 29 Abril 2019 - 22:27

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Oportunismo, desonestidade e comédia. Esta é a mistura antagônica e ao mesmo tempo atual que Lúcia Murad Neffa faz em seu postulante romance, Milagre em Passadouro. A história trata do projeto multireligioso entre Vitalina, Tereza e José Ribamar; a beata, a umbandista e o pastor, exatamente nesta ordem. Os três líderes religiosos, no objetivo em atrair turismo religioso à pequena cidade de Passadouro do Norte – e obter lucro – decidiram projetar um milagre, daqueles que não deixam rastro impostor e atrai peregrinos, turistas e imprensa.

No decorrer da história, os personagens questionam-se sobre sua má conduta em nome de Deus, mas são assolados pelo prazer proporcionado pelo dinheiro. Entre idas e vindas, a trama rodopeia entre outros personagens coadjuvantes com características postulantes a políticos da conjuntura real do Brasil, o que nos faz rir e em outros momentos, chorar.

A empreitada, para ter credibilidade e dar o lucro esperado, demandou cérebro e tempo dos líderes religiosos, que tinham boa reputação na comunidade mas havia quem desconfiasse de tamanha aproximação entre religiões tão oponentes. Somente um interesse de força maior para um milagre desses. Reza pela chuva? Talvez!

Após tempo de planejamento a cidade ganhou o Castelo de Milagres. O tal empreendimento milagroso atraiu muitas pessoas, grupos e pessoas com interesses questionáveis, mas talvez isso não importasse ao trio divino e sim o produto financeiro que resultaria. Uma legião de homens se instalou em um dos alojamentos, a quilômetros dali, para despontar as fraquezas da cidade, já conhecidas por todos, mas totalmente neutralizada pelos filhos daquela terra que, encontravam nos desastres naturais, justificativa às mazelas que açoitavam a pequena cidade nordestina.

A cidade dos homens não mais teve que se preocupar com problemas da sorte que fosse. O peregrino que botasse o pé na cidade já era tocado pela espiritualidade que pairava no ar, na fé ao desconhecido e, sem esperar muito, pagava para respirar aquele oxigênio celestial. Deu-se conta de que o que trazia espiritualidade a Passadouro do Norte não era a falácia do milagre, mas a fé que habitava em peregrinos e moradores.

Fé à parte, a cidade era vítima de desvios financeiros e má administração. Falta de médicos, medicamentos e um prefeito que era o rei salvador do povo; com descarado comportamento corrupto e pitoresco que não afetavam o senso crítico dos moradores. Todo o alvoroço turístico-religioso desviara a atenção de quem quer que fosse sobre problemas tão comuns à vista do povo sofredor. Naquele momento, o que restava era a alegria em ver a cidade, até então esquecida, movimentada e gerando lucro e alegria a todos.

Porém, se considerarmos uma cultura desonesta e corrupta já enraizada na cidadezinha com a participação de poucos beneficiários dos desvios financeiros, a abundância financeira conquistada com o turismo impostor também foi alvo da torneira sempre aberta dos cofres públicos.

Voltando aos principais personagens, Tereza intensificou seu negócio com a movimentação na cidade, expandiu para o comércio e dividiu o terreiro em três partes, ofertando atividades diferenciadas para cada público. Pingava uma grana de tudo quanto é lado. O pastor José Ribamar se emaranhou para a venda de combustível ilícito. Vitalina apostava na fé que gerava lucro e usava da boa vontade dos fiéis.

A inflação se alastrou pela cidade do norte e logo seu Severino, um senhor esperto e desconfiado, percebeu que algo saia do controle e a origem de tal desgosto era o trio multireligioso. Severino deu a vasculhar e logo enxergou oportunidade em ganhar com aquilo também. Uma corrente sem fim.

José Ribamar e Carol, sua enamorada, se casaram. Passado um casamento de festa esdrúxula, a química íntima não existiria jamais entre o pitoresco casal e a jovem Carol, esta que mais queria vida boa. O casamento acabou e Ribamar passou um período difícil na cidade, que questionara sua virtude masculina.

Para fim desta verdadeira comédia da vida privada dos três ícones religiosos nada ortodoxos, José Ribamar se enveredou ao ramo da prostituição e se tornou um medíocre refém de Sayonara, a mais cara das artistas do prazer. Vitalina se tornou uma eterna mulher reprimida de desejos sexuais. Já Tereza, a umbandista, permaneceu em seu sucesso empreendedor. Tem gente que nasceu para isso!

No entanto, com tantas voltas e dúvidas geradas pela prática do ato infrator, o livro mostra um milagre inusitado que por tantas vezes passa desapercebido ao nosso redor. Quanto a Passadouro do Norte, nada sairia do lugar, nem o Castelo dos Milagres, nem as mazelas dos passadourenses, sempre excluídos de qualquer benefício ofertado por sua terra amada.

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