Advertisement

Liquidificador: a arma para o ajuste fiscal

Deixa a Damares dar suas fracassadas declarações, virar meme e desviar a atenção da economia.

Conversa de Mercado / 18 Janeiro 2019 - 19:22

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Privatizações, Reforma da Presidência, mudança na política do BNDES, reformas administrativas e maior abertura comercial são algumas bandeiras a serem levadas por Paulo Guedes e Jair Bolsonaro ao Fórum Econômico Mundial, que acontece nesta semana que se inicia na Suíça. As medidas fazem parte da busca pelo ajuste fiscal, porém ainda não foram divulgadas com detalhes. É preciso evitar as críticas antecipadas, não?

No modelo das expectativas racionais, os agentes usam todas as informações relevantes para avaliar a implicação no futuro. Assim, os efeitos das políticas antecipadas e não antecipadas são muito diferentes. Desde as eleições, Bolsonaro e Guedes têm falado sobre as principais medidas econômicas, porém mudaram de ideia várias vezes.

Inicialmente a ideia era criar um regime de capitalização para a Previdência. Agora a discussão vai para o lado oposto. Os economistas convidados para compor o conselho de Guedes votaram contra a proposta de capitalização, e a reforma se aproxima mais a de Temer: propor a idade mínima e apertar as regras para pensão e benefícios. De qualquer forma, Guedes ainda não descartou o regime de capitalização totalmente.

O disse me disse causa insegurança nos agentes, que estão à espera dos famosos primeiros cem dias. É preciso acrescentar ainda que o novo Congresso que assumirá está repleto de pessoas inexperientes, o que aumenta as dúvidas. O mercado financeiro vive, neste sentido, um “otimismo cauteloso”, por parte dos estrangeiros e um otimismo exacerbado por parte dos brasileiros ainda mais por conta da estratégia de privatizações.

Atualmente existem 138 estatais e quase 20 delas são deficitárias. Para estas, os aportes do Tesouro somam cerca de R$ 15 bilhões por ano. O que o ministro não detalhou ainda qual será a estratégia de venda. Durante a campanha eleitoral, o ministro havia estimado que o governo arrecadaria R$ 1 trilhão com a venda de todas as estatais, mas o número é considerado impossível por especialistas. Por exemplo, quem quer comprar a como a do Trem Bala, se não existe trem-bala?

Eu começaria vendendo as mais ineficientes que custam mais à economia brasileira e têm uma chance de dar um valor de venda maior do que o que rendem ao governo. Elas rendem mais vendidas à vista do que o governo pode tirar de lucro, que é muito baixo”, diz o economista José Alexandre Scheinkman, professor de economia na Universidade de Columbia e professor de economia emérito Theodore A. Wells '29, da Universidade de Princeton.

Assim como o número estimado por Guedes está equivocado, a estratégia ainda não está detalhada e se corre o risco de que também seja torpe, Scheinkman acrescenta que sempre existem setores que valem a pena subsidiar porque geram uma externalidade positiva grande. Mas há várias maneiras de subsidiar. Para isso, o governo pode subsidiar junto ao setor privado.

É questão de dizer: olha, se você é uma companhia de saneamento e, dependendo da renda da população em que se está conectando a água ou o esgoto, você não precisa cobrar mais que este valor à população, pois eu entro com a diferença de preço. Isso se faz no mundo inteiro. O problema é saber se nós precisamos de uma infraestrutura como a do BB, da CEF ou da BR Distribuidora na mão do governo para cumprir os objetivos sociais”, critica. Toda questão tem a ver com o marco regulatório e as negociações com os possíveis compradores.

Quanto ao BNDES, desde a gestão Temer, a política adotada já começara a mudar. O banco já indicava que iria priorizar empresas pequenas e que o objetivo de seu braço de investimentos iria sair de grandes posições em ações de grandes companhias. Desde 2004, Petrobras, Embraer, Norte Energia, Vale e a construtora Odebrecht, envolvida em escândalos de corrupção na Operação Lava Jato, são os cinco maiores clientes.

As medidas econômicas do novo governo terão forte impacto na população e precisam ser mais bem detalhadas. Aparentemente, o que se vê é falar-se de tudo e de nada ao mesmo tempo, no estilo coloque todos os ingredientes no liquidificador, deixa a Damares dar suas fracassadas declarações, virar meme e desviar a atenção da economia. As expectativas viram irracionais, assim como a arma na mão de uma criança.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor