Leonel de Moura Brizola

“A educação é o único caminho para emancipar o homem. Desenvolvimento sem educação é criação de riquezas apenas para alguns privilegiados”.

Empresa Cidadã / 18:11 - 25 de jun de 2019

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Em um período de escassez absoluta de lideranças, como o que vivemos, quando tudo se vende, inclusive o que não se tem para entregar, quando o “bom-mocismo” não resiste a 36 horas de conversas entre quadrilheiros nas redes sociais, o heroísmo de Leonel Brizola, menos de uma semana após 21 de junho, dia da sua morte, vem à memória.

Quando venceu as eleições para o Governo do Rio Grande do Sul, em 1959, Leonel Brizola implantou o desenvolvimentismo nacionalista no estado, gestão pública caracterizada pela construção de um capitalismo industrial moderno e intervencionista, como primeiro referiu-se a ele o economista Ricardo Bielschowsky.

A complexidade daquele momento histórico pode ser aferida pelas três diferentes presidências com que Leonel Brizola conviveu, a de Juscelino Kubitschek, de Jânio Quadros e de João Goulart, sempre com atitudes incisivas, especialmente em relação à desapropriação da Companhia de Energia Elétrica Rio-grandense (Ceerg, em maio de 1959), da Companhia Telefônica Nacional (CTN, em fevereiro de 1962) e do acervo da International Telephone & Telegraph Corporation (ITT, pelo Decreto 13.186, de 16 de fevereiro de 1962); e da condução da Campanha da Legalidade (agosto/setembro de 1961), garantindo a posse do presidente constitucionalmente eleito, João Goulart.

Além destes feitos, criou a Fundação da Comissão Estadual de Terras e Habitação (CETH; 1960) e o Movimento dos Agricultores Sem-Terra (Master). Em 1961, instituiu o “Ano da Educação” no RS, com a entrega simbólica de 2 mil escolas; ação que representou a base do que se pode denominar de escola popular. Brizola liderou a criação do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE); bem como a criação do Instituto Gaúcho de Reforma Agrária (Igra). Em 1962 foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro. Outras das suas iniciativas foram a implantação da Siderúrgica Aços Finos Piratini; a intervenção para a implantação da refinaria Alberto Pasqualini no Rio Grande do Sul; a Implantação da Açúcar Gaúcho S/A (Agasa); e a conclusão das Termelétricas de Charqueadas e de Candiota.

Único brasileiro a governar duas Unidades da Federação; no Rio de Janeiro, foi eleito governador por duas vezes, quando empenhou-se em uma das suas principais bandeiras, a educação. Criou os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), escolas de tempo integral, também conhecidos como Brizolões. O projeto educacional, denominado Programa Especial de Educação, foi assinado por Darcy Ribeiro, e o projeto arquitetônico dos Cieps teve a assinatura de Oscar Niemeyer.

É de Brizola a sentença: “A educação é o único caminho para emancipar o homem. Desenvolvimento sem educação é criação de riquezas apenas para alguns privilegiados”.

Brizola, no exercício do governo do Rio de Janeiro, foi o responsável não-autoral por “inovações” no jornalismo brasileiro, ainda que indiretamente. Por exemplo, a edição local dos telejornais, que antecede à edição nacional, foi uma engenhoca criada pelo cartel de empresas de comunicação. Colocar as notícias potencialmente favoráveis à construção da imagem do então governador Brizola na edição local (edição circunscrita ao Estado do Rio de Janeiro) e, ao mesmo tempo, as notícias depreciativas à imagem do governador na edição nacional. Simultaneamente, foi erguido um muro para apartar o nome do governador de qualquer citação no restante da programação. Quem não se lembra do mico de um Cid Moreira, constrangido, lendo um direito de resposta determinado pela Justiça, a única forma adotada na defesa da liberdade de imprensa.

O mesmo mecanismo de higienização de notícias seria aplicado às edições dos jornalões, filtrando as notícias, entre as favoráveis à imagem construída do Governo do Rio de Janeiro (que ficariam restritas aos leitores do Rio de Janeiro) e as depreciativas (que seriam projetadas para os leitores em um círculo mais amplo), conforme o interesse político-editorial.

 

Retrato em preto e branco

Um fato trágico traduz, com evidência solar, as relações das elites brasileiras com a população. Willian Weslei Lelis, proprietário de um veículo Mercedes-Benz, comprado em 2018 por R$ 220 mil, chegava ao condomínio de luxo onde mora em Taguatinga (Distrito Federal), na noite de sábado, 15 de junho. Deparou-se então com a diarista e vendedora de balões Marina Izidoro de Moraes, de 63 anos. Willian Weslei perguntou pelo preço de cada balão. Ela respondeu que cada um custava R$ 10. Willian Weslei resolveu barganhar e ofereceu R$ 20 por três balões. D. Marina recusou a proposta, ao que Willian Weslei resolveu acrescentar um derradeiro “argumento”: arrancou com a Mercedez-Bens onde os fios dos balões se enroscaram e arrastaram D. Marina por 100 metros; R$10 foi o preço das escoriações que levaram D. Marina ao Hospital de Taguatinga, onde ela aguardou em vão pelas desculpas de Willian Weslei...

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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