'Lento, porém persistente!'

Desde o impeachment de Dilma Roussef, as falas dos governantes seguem um sentido: o do agora vai.

Conversa de Mercado / 19:30 - 11 de out de 2019

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Lento, porém persistente!”. Esta foi a definição dada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre a retomada da economia a investidores. Durante sua fala, no Fórum de Investimentos Brasil 2019, ele acrescentou que o investimento é puxado pelo crédito privado, sem depender de “estímulos artificiais”, ou seja, crédito público. A opinião do superministro de Bolsonaro ganha ainda mais peso após o presidente reiterar que ele é 100% responsável pela condução da economia brasileira no mesmo evento em São Paulo.

Na avaliação de Guedes, o Brasil está entrando em um longo ciclo de crescimento, com inflação decrescente, enquanto o mundo desacelera, um cenário bem diferente dos voos de galinha a que o brasileiro já se acostumou. Tudo isso, porque, segundo o ministro, o Brasil está começando uma “revolução em relação ao que há de melhor no mundo ocidental”, após quatro décadas de economia fechada e impostos elevados.

Tudo muito bonito no fantástico país das maravilhas. Sim, há espaço para novo corte de juros e nunca antes na história desse país... e por aí vai o blá blá blá. As falas do ministro, que volta a conquistar seu espaço no governo após as turras com o presidente, são mais retóricas que escutamos desde o início do governo. De fato, o que nos sobra são expectativas, porque a realidade está bem dura de enfrentar.

A baixa inflação permite novo corte de juros e há a possibilidade de que a Selic encerre o ano em 4,5%, porém os efeitos dos juros tão baixos são pouco sentidos no lado real da economia. A exceção é o desespero dos investidores, como já retratado na coluna anterior. As famílias brasileiras já estão muito endividadas, e as taxas de empréstimo não recuaram o suficiente para que haja uma explosão de crédito. Segundo dados do Relatório de Estabilidade Financeira, publicado semestralmente pelo Bacen, a carteira doméstica de crédito bancário aumentou 1,2% entre dezembro de 2018 e junho de 2019. No caso das famílias, o crescimento foi de 4,5%, nada que impulsione o crescimento sustentável de Guedes.

Já entre as empresas, a queda foi de 2,9%. Além das dificuldades em conseguir empréstimos bancários, muitas nem querem. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), seis de cada dez empresas industriais não procuraram renovar operações de crédito ou contratar novos financiamentos no primeiro trimestre do ano. No caso do crédito de longo prazo, o percentual é de 66%.

É a inflação baixa que possibilita os juros menores justamente o maior indício de que o sucesso da reabilitação da economia brasileira será lento muito lento e talvez nada persistente. Nos últimos 12 meses, o IPCA desacelerou para 2,89%, ante os 3,43% registrados no mesmo intervalo anterior, ficando bem aquém da meta de 4,25%. A deflação do IPCA 0,04% em setembro só dá mais certeza a um fato: falta demanda. E a ausência da demanda é provocada por outro fato: falta de renda. E como crescer sem renda?

Desde o impeachment de Dilma Roussef, as falas dos governantes seguem um sentido: o do agora vai. Toda a culpa vai para o artificialismo criado pelo governo anterior e que começou a ser “saneado” pela gestão Temer e as reformas de Bolsonaro vão colocar o país nos trilhos do crescimento sustentável de longo prazo. Espere, a retomada é iminente. Pena que não! De retórica e voos de galinha, a história do Brasil está cheia!

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor