Legalidade, um exemplo, uma esperança

Por Pedro Augusto Pinho.

Opinião / 20:01 - 5 de nov de 2019

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Exibido em pouquíssimas telas, Legalidade, filme de Zeca Brito, sendo obra de ficção, é absolutamente correto na reconstituição histórica. Os ingredientes estão todos lá: a onipresença estadunidense em nossa República desde a Era Vargas, os militares golpistas e descartados depois do uso pelos interesses antinacionais, a acomodação das elites e a exceção que Leonel Brizola representou na história política brasileira.

Vamos nos deter mais na história do que no filme, que tem bom ritmo, música emocionante, adequada e muito bem escolhida, atores e direção de cena competentes, para este leigo em interpretações. Salta aos olhos a excepcionalidade, na política do Brasil República, de um estadista do porte de Leonel Brizola.

Sem dúvida, para quem se debruça em nossa história, Getúlio Vargas foi a maior figura. Foi o único presidente que se preocupou com a formação do Estado Nacional Brasileiro, ou seja, um Estado soberano, seguro, habitado por cidadãos. Também foi quem teve a habilidade de montar a mais ampla rede de apoio, do nazifascista Filinto Strubing Müller ao revolucionário de esquerda Leonel de Moura Brizola, incluindo neste meio banqueiros, empresários industriais, ruralistas, intelectuais, acadêmicos e militares.

 

A acomodação, o acordo com o

inimigo nos leva a esta triste realidade

 

Mas, como ficou evidente, após a ação revolucionária de 1930, Getúlio buscou a pacificação e a união nacional. Foi brilhante político, mas a ideia nacional que Getúlio defendeu, incrivelmente, jamais prevaleceu no Brasil. É uma questão que merece estudo aprofundado pelos cientistas políticos, sociais, psicólogos e historiadores.

Veja que, ainda no período colonial, em represália à invasão das tropas francesas a Portugal, brasileiros e portugueses ocuparam a Guiana Francesa, em 1809. Esta ação correspondia, no entanto, ao que Francisco Maurício de Sousa Coutinho, governador da capitania do Grão-Pará entre 1790-1803, pedia para garantir as fronteiras do Oiapoque. No entanto, em 1817, o Brasil devolveu aos franceses a Guiana.

Arthur César Ferreira Reis, em Portugueses e Brasileiros na Guiana Francesa (MEC, 1953), escreve: “Registrou-se, então, qualquer coisa de inédito, de espantoso: os colonos franceses que assistiam à cerimônia choravam de pesar com a nossa retirada. Havíamos efetuado um governo de paz, de trabalho, de respeito à dignidade de cada um. Não fizéramos obra de conquistadores brutais.” Mas nós fomos brutalizados pelos permanentes colonizadores.

O filme Legalidade mostra que os Estados Unidos da América (EUA) pretendiam derrubar o avião que levaria João Goulart a Brasília. Em 1964, forças estadunidenses estavam prontas para invadir o Brasil. Esta é nossa história recente, toda vez que um governo nacionalista ou popular chega à Presidência, chega também um golpe articulado pelos interesses estrangeiros, seja de um país, como os EUA, seja de um sistema, como a banca – o sistema financeiro internacional, seja de suas alianças nacionais.

A desculpa das elites empoderadas é sempre “evitar o derramamento de sangue”. Mas este corre todos os dias, derrama-se em todo território nacional, na forma violenta que ruralistas, mineradores e outros atuam em matanças de lideranças rurais, camponeses, indígenas brasileiros, na poluição dos rios e aquíferos. Também pela miséria a que nos levam seus gerentes espoliadores de nossas riquezas naturais, intelectuais, e da força de nosso trabalho.

O que representa a saúde precária dos brasileiros mal nutridos, o combate permanente ao Sistema Único de Saúde (SUS), exemplar modelo de atendimento médico, a instrução protetora da vida e da dignidade, a falta de habitação, a degradação urbana, não é tudo isso o sangue dos brasileiros que corre dia e noite, do Oiapoque ao Chuí?

A acomodação, o acordo com o inimigo nos leva a esta triste realidade. A ela não se conformou Brizola e reagiu com a campanha pela legalidade.

Não se pode prever, felizmente, o rumo que a sociedade tomará. Mas, com toda certeza, se Jango ouvisse Brizola, fosse com ele para Brasília e por terra, com o III Exército, apoiado pela maioria da população, como se constatou nas pesquisas de opinião realizadas às vésperas do golpe de 1964, o Brasil seria, hoje, bem diferente.

Temos, nós os nacionalistas, hesitado entre os acordos e as rupturas. No entanto, os interesses estrangeiros e seus serviçais no Brasil não hesitam em matar, pelas balas, pela fome e pela doença, os brasileiros.

Atualmente vemos verdadeiro descaramento de um governante que se diz nacionalista e vai entregando as riquezas naturais do pré-sal, dos minerais estratégicos, das terras agricultáveis brasileiras para capitais e países estrangeiros. Mas não para por aí, também as riquezas construídas com nosso saber, nossos investimentos em recursos humanos e anos de pesquisas, como a Embraer, a Base de Alcântara, o conhecimento sobre energias, agricultura saem sem um centavo de retorno para suprir as carências de outras nações, de empresas de outros países.

Vemos nestes dias, em nossos vizinhos sul-americanos, movimentos de ruptura com o passado colonial e obtendo diferentes graus de sucesso. São lições que deveríamos estudar, em vez de canhestros e submissos nos manifestarmos em favor dos algozes desses povos e seus títeres de ocasião.

Pedro Augusto Pinho

Administrador aposentado.

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