Investimento em precatórios pode render até 40% ao ano

Plataforma da Hurst permite venda direta do ativo aos investidores.

Mercado Financeiro / 22:26 - 27 de mai de 2019

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A brasileira Hurst Capital dispõe de uma plataforma que permite às pessoas físicas investirem em ativos reais - aqueles ativos que estão na economia real, mas fora do mercado financeiro -, dentre estes os precatórios, os chamados títulos públicos judiciais, que são dívidas reconhecidas, líquidas e certas de governos municipais, estaduais e federal que podem remunerar o investidor entre 20 e 40% ao ano. O investimento mínimo via plataforma é de R$ 10 mil.

Praticamente tão seguras quanto qualquer título do Tesouro Nacional, essas dívidas são conhecidas no meio jurídico como precatórios, ordem de pagamentos contra entes públicos já reconhecidas pela Justiça e em fase de pagamento e podem render, na média, pelo menos 20% ao ano ou cerca de 320% do CDI. Enquanto o rendimento do Tesouro Direto, se o título for mantido até a data do vencimento está em torno de 6,50% ao ano, ou 100% do CDI.

A Hurst é uma empresa de investimento em ativos reais. “Não é e não atua como instituição financeira, correspondente bancário ou administrador de carteira de valores mobiliários. Também não atua como advogado ou procurador de seus clientes. As ofertas realizadas via plataforma são de venda direta do ativo aos investidores, os quais passarão a ser condôminos do bem, portanto, essas ofertas estão fora do âmbito de atuação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM)”, diz o estatuto da empresa. Além do endereço online (https://app.hurst.capital/), a Hurst tem dois escritórios em São Paulo, um no bairro do Itaim Bibi, e outro no centro da cidade.

Em entrevista ao MONITOR MERCANTIL, Arthur Farache, CEO da Hurst, explica como funciona a plataforma que conta com a tecnologia de robôs. Segundo ele, até então, esse mercado era inacessível para as pessoas físicas, pois a originação dos ativos é complexa e cara. Era movimentado exclusivamente pelas tesourarias das grandes instituições financeiras e fundos de investimento especializados. “Desenvolvemos robôs que vasculham os tribunais em busca desses ativos e seus titulares de uma forma muito mais rápida e segura”, destaca.

Como foi o início do negócio?

- A gente começou fazendo investimentos proprietários, usando o próprio capital, em ativos judiciais que ainda não eram precatórios, eram ativos bem arriscados. O precatório é quando a coisa está definida. E aí você não tem mais recursos e não tem que passar mais por processo judicial. Com dinheiro próprio a gente comprava o direito patrimonial disponível que ainda sequer tinha sido processado. Pagávamos advogados, as custas judiciais, e assumíamos todo o trabalho e tempo que isso iria custar. Lá na frente quando isso saísse a gente ficava com uma parte. Quando a gente começa a estudar um ativo, fazemos primeiro com investimento proprietário para entender o ativo, o mercado, e todo o processo de auditoria e de formalização. E só depois que fizemos isso de forma repetida e aplicando o nosso próprio dinheiro e que decidimos colocar isso em uma plataforma online. Oficialmente, a empresa começou a operar, em abril.

Inicialmente, a empresa fez algumas rodadas privadas de investimento. A primeira rodada deste ano fechou em fevereiro e foi utilizada para a compra de precatórios do Estado de São Paulo. O valor total captado foi de R$1,56 milhão e deve gerar retorno de 30% ao ano.

Há alguma dificuldade em fazer esse tipo de investimento online? Qual o perfil desse público, desse brasileiro que vai apostar nesse produto?

- Na verdade, hoje com o que fazemos na Hurst ficou muito simples. Qualquer pessoa consegue investir com R$ 10 mil nesse ativo. Isso porque a gente colocou toda uma camada de prestação de serviço que tipicamente só as grandes instituições financeiras possuem, os grandes fundos. E ainda colocou uma camada de tecnologia para colocar essa história mais eficiente e mais barata. Caso contrário, nunca conseguiríamos trazer isso ao investidor pequeno. Fazemos o mesmo trabalho que um banco ou grande fundo faz na hora de comprar esse ativo, só que colocamos essa camada de tecnologia que deixa o processo mais barato e nos possibilita levar ao investidor de varejo.

Como os robôs entram no processo?

- A gente sempre cria tecnologia para explorar determinado ativo. E para cada ativo você vai ter uma tecnologia diferente. Uma coisa é criar uma tecnologia para comprar precatório, uma outra é para adquirir crédito, comprar energia. São tecnologias diferentes. Estamos sempre estudando ativos diferentes.

Como os robôs vasculham os tribunais?

- Essa tecnologia é específica para o precatório. Os robôs buscam nos sites dos tribunais de justiça, nos diários oficiais e também buscam processos judiciais que tenham precatórios. Selecionam aqueles que estão melhores em termos das características que a gente olha, enriquecem os dados de contatos daquelas pessoas que possuem aquele direito e depois a gente parte para negociar. É uma tecnologia que ajuda.  Se fosse de forma manual levaria tempo. Imagina falar com 20 setores por dia. Com essa tecnologia, a gente consegue acessar muito mais processos e pessoas.

Uma vez feita essa peneira, qual o segundo passo?

- É como uma mineração pegar essas informações. Depois vem a tarefa mais refinada: fazer a diligência do papel e dos titulares, precificar o ativo corretamente, negociar com a pessoa que detém o precatório dando uma oportunidade para ela de antecipar o valor, ao invés de esperar longos anos pela decisão do poder público. Lembrando que essa pessoa normalmente já enfrentou um processo judicial de 10, 15, 20 anos. Você encara um processo judicial contra o poder público que sempre tem prazo dobrado. No final do processo, te emitem um título chamado precatório que pode levar mais tempo para receber. A coisa toda é penosa para essas pessoas, muitas morrem antes de receber, tem muita gente em tratamento de saúde. Aliás, aqui temos vários casos e estamos documentando em vídeo depoimentos de pessoas que estavam precisando do dinheiro para fazer tratamento de saúde, uma cirurgia, por exemplo. Então, olhando para esse lado estamos ajudando essas pessoas.

E depois, o que vocês fazem com o precatório?

- Temos uma estratégia muito definida do que iremos fazer com esses precatórios que é modelar financeiramente para vender para investidores que concordam em esperar aquele prazo. A empresa origina os precatórios, faz todo o processo de due diligence e o monitoramento do ativo até sua liquidação. Como esse mercado ainda não tem liquidez, o investimento é de médio prazo. “A aplicação de pessoas físicas, pode ser um excelente negócio se o investidor dispuser de um capital que possa manter aplicado de 12 a 36 meses, que é a média da efetiva quitação dos nossos precatórios. O risco nesse tipo de aplicação fica por conta da data do depósito em conta, já que a dívida é reconhecida pelos entes públicos e pela Justiça, mas sempre podem ocorrer imprevistos que retardem seu pagamento, entre 12 a 36 meses. 

Como está sendo a aceitação no mercado?

- Está sendo bem grande. Não estamos conseguindo na verdade originar a quantidade de precatórios que temos de demanda. A gente também não quer aumentar tanto a originação. Tem vindo bastante investidores atrás desse ativo. Porque é um ativo que tem risco de crédito muito bom, é do governo. É um ativo que tem uma rentabilidade muito boa. A diferença desse ativo é que a liquidez dele é um pouco incerta. Por que é incerta? Porque, embora a gente consiga fazer cálculos de como está “a fila “de pagamentos do precatório e as finanças do ente federativo, e prever mais ou menos quando aquele precatório será pago, a gente depende do judiciário para levantar o dinheiro. Aí o juiz está de férias, dá problema no sistema do tribunal, acontece uma série de questões ali que podem antecipar o pagamento ou atrasar o pagamento. Tem liquidez, mas não tem prazo, o dia exato do pagamento. Não temos como estabelecer período obrigatório, o que damos é uma sinalização do que a gente acredita que vai ser o prazo de operação daquele ativo específico. Sinaliza para o investidor. De forma alguma a gente se compromete com o prazo da liquidação, não tem como saber.

E existe uma média de tempo para o investidor receber?

- Depende de cada precatório, depende das finanças públicas de cada ente federativo. O Estado de São Paulo, por exemplo, está pagando precatório de 2002. A união está pagando em dia, em no máximo 18 meses.

Em termos de acesso à plataforma, uma pessoa que mora no interior de São Paulo, por exemplo, e tem os R$ 10 mil para aplicar, como ela pode investir?

- Investidor de qualquer lugar do Brasil pode aplicar, desde que seja maior de idade, tenha conta bancária, e que o dinheiro seja de origem lícita. Mas, antes de tudo, ele tem que analisar o precatório, tirar todas as dúvidas sobre o ativo. Ele assina o contrato online. E a partir daí, o investidor começa a receber relatórios mensais sobre o andamento daquela ação. Temos uma equipe comercial preparada para prestar informações se necessário.

Quais as expectativas da empresa nos próximos meses?

- Nossa plataforma se propõe a ser a primeira plataforma online do Brasil de investimentos de ativos reais. Na verdade, a gente já é porque não temos nenhum concorrente. Mas temos interesse em desenvolver a cultura no mercado brasileiro de que o investidor não precisa só investir no mercado financeiro. Ele pode investir em ativos reais, em coisas que as pessoas sempre investiram, mas dentro de um determinado nicho específico. Por exemplo, as pessoas sempre investiram em imóveis, mas de forma não profissional. Aí a gente coloca uma camada de gestão financeira, de tecnologia e aí possibilita vários investidores aplicarem um pouco do dinheiro em ganho de escala. Advogados, por exemplo, sempre investiram em precatórios. Só que forma não profissional, porque ele não entende de investimento.  A filosofia é simples. Pegamos ativos reais que têm potencial de valorização e colocamos serviço financeiro, tecnologia e deixamos as pessoas investirem no varejo Colocamos de forma transparente. Sabemos que o brasileiro não é investidor de bolsa de valores (a bolsa tem mais de 100 anos e tem x cpfs). O brasileiro quer investir em poupança e imóvel. Porque ele vê e tem mais segurança. O que estamos tentando fazer é isso: aqui, você tem ativos reais, não vai ter aquela volatilidade que tem na bolsa, sempre terá lastro de uma coisa que existe.

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