Advertisement

Inteligência Artificial e a advocacia (brasileira) – Parte 1/2

Por Walter Barcellos Duque.

Opinião / 17:37 - 17 de Jun de 2019

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Muito se tem discutido sobre a grande revolução do uso da Inteligência Artificial (IA) hoje em dia e sua rápida evolução no futuro próximo. As principais questões que se colocam são justamente aquelas ligadas à substituição da mão de obra humana por computadores e softwares em determinadas atividades profissionais.

Para entender de que forma um aplicativo pode substituir um profissional humano na execução de sua atividade, é preciso antes compreender o que é a IA, o que é o Big Data e em que momento da evolução desses sistemas nós estamos.

Todos os seres humanos funcionamos de maneira bem parecida com os aplicativos que utilizamos. Nosso cérebro trabalha como um algoritmo (bem parecido com o computador) e nós o programamos com nossas experiências presentes e passadas. A criança que coloca o dedo perto do fogo e sente dor já programou seu cérebro para se afastar quando identificar o fogo novamente e automaticamente já relacionou a fonte de calor, mesmo sem fogo, ao perigo.

 

A evolução se dá transferindo nossas

escolhas e em seguida pela confiança

 

Assim funcionamos e, com base nas experiências, construímos um arcabouço de informações que servem para definir nossas escolhas futuras. Este conjunto de informações é o equivalente ao Big Data dos computadores, mas no caso do ser humano, nossa capacidade de processar as informações e com base nelas orientar nossa conduta é enorme. Somos rápidos, decidimos a cada instante sobre o que faremos ou deixaremos de fazer utilizando o que já conhecemos. Somos tão rápidos que sequer percebemos esse processo acontecendo.

Os aplicativos de processamento de dados dos computadores, por outro lado, sempre foram excelentes para armazenar as informações, mas o acesso a elas e sua correlação com alguma situação real sempre dependeu do usuário, do ser humano, orientando a busca.

O tempo de resposta dos computadores e afins, quando analisava estes enormes bancos de dados, nunca foi tolerável, tanto é assim que até pouco tempo atrás não dava para depender de um computador para decidir qual o caminho seguir em uma bifurcação da estrada.

Hoje, no entanto, vivemos um momento no qual há uma verdadeira revolução na capacidade de processamento, os sistemas e seus algoritmos são mais rápidos do que nunca e, por meio de sensores (câmeras, acelerômetro, giroscópio, sensor de toque, etc), captam muito mais do que as informações que antes eram inseridas pelo usuário.

As entradas de dados acontecem a todo momento. Por exemplo: quando utilizamos o Netflix estamos indicando quais são nossas preferências em relação a entretenimento; quando abrimos o Waze e traçamos uma rota, estamos informando aos sistemas (e são vários ligados ao aplicativo) onde estamos e para onde vamos; quando realizamos buscas no Google, estamos registrando quais são nossos interesses.

Como se vê, alimentamos todos os sistemas com dados sobre nós e nossas preferências. Em verdade, hoje já fazemos mais do que isso, nós já transferimos para alguns desses sistemas parte de nossas escolhas. O Waze é um exemplo disso, confiamos a ele a escolha do melhor trajeto e em geral ele acerta qual é o mais rápido!

O que está mudando nesse momento é que, graças à alta capacidade de processamento e à IA, esse grande banco de dados agora passa a ser “administrado” por sistemas com capacidade de processamento como nunca foi possível. Os sistemas agora conseguem construir relações entre as informações, de modo a antecipar as escolhas que o usuário fará. Essa capacidade de administrar e extrair de um gigantesco banco de dados as informações que orientam as escolhas é parte das funções do que chamamos de Inteligência Artificial.

Vejamos na prática como isso se aplica. Imaginemos um radiologista que, ao longo de sua vida inteira, estudou e observou 500 mil exames. Certamente, esse profissional consegue, com sua experiência, identificar um tumor com mais facilidade e rapidez do que um outro profissional que só analisou 500 exames.

Pois bem, imagine agora que esse profissional tenha a capacidade de armazenar em seu banco de dados mais de 100 milhões de exames realizados em vários lugares do mundo e relacionar com dados como a etnia, região de origem de pacientes, histórico familiar de patologias e várias outras informações dos exames já registrados. Por óbvio os resultados dos exames por ele realizados serão muito mais precisos do que aqueles executados pelo profissional anterior. Ele será capaz ainda de identificar novos padrões de doença e sua evolução. Quem não vai querer um laudo emitido por esse profissional tão experiente?

Pois bem, é exatamente essa a aplicação da IA associada ao Big Data, uma evolução na forma de analisar informações e apresentar resultados aplicáveis às situações fáticas, substituindo as escolhas humanas. É nesse sentido que caminhamos. A evolução se dá primeiro pela transferência de nossas escolhas e em seguida pela confiança que passamos a depositar nos novos sistemas que utilizamos.

Não é exagero dizer que em pouco tempo aquele radiologista que fez 500 mil exames perderá sua posição para o sistema com capacidade muito superior de processar as informações e gerar laudos embasados em um maior volume de dados.

Essa substituição da mão de obra vai acontecer em várias áreas e muito se escreve sobre a questão. No Direito são muitos os artigos que tratam de IA aplicada na tomada de decisões judiciais, mas será que no Brasil isso é tão simples assim? No próximo artigo tratarei da IA aplicada ao Direito em terras tupiniquins, com suas nuances e especificidades.

 

 

Walter Barcellos Duque

Advogado – Sócio na AWD Consultoria / AWD Advogados Associados.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor