Imperialistas disputam com avidez o Chifre da África

Internacional / 15:23 - 21 de jun de 2016

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Berbera (Chifre da África) – O Ocidente colonialista sempre cobiçou a África e continua – mais do que nunca – cobiçando. As riquezas do subsolo africano continuam disputadas ferozmente pelos ex e neocolonialistas ávidos pelos seus minérios estratégicos e, mais recentemente, pelo seu petróleo e gás natural, com as grandes petrolíferas multinacionais, as famigeradas Cinco Irmãs, rivalizando-se na conquista das autorizações para realização de prospecções no Continente Negro.

Por longos anos a fome da África foi totalmente ignorada pelo sedento por petróleo Ocidente, mas, agora, é a terra prometida em petróleo e gás natural que pode competir com a região do Grande Oriente Médio. Então, a África é rica? Sim. Mas...

Em poucos anos, a África e, particularmente, a África Oriental tornou-se banqueiro da grande jogatina de pôquer um novo campo de disputas econômicas e, ao mesmo tempo, um campo de manobras geoestratégicas que estende-se do Mar Mediterrâneo ao Oceano Índico e do Mar Vermelho para além de Quênia, envolvendo países africanos e árabes todos empenhados ao perigoso jogo de pôquer das ilusões, jogado entre jogadores – verdadeiras hienas do pano verde – do Leste e do Oeste, apoiados “por solidariedade” de países árabes e, outros “terceiromundistas” de primeira hora.

Interesses são jogados no

'pano verde' da geopolítica

Primeiramente, o controle das linhas litorâneas do Oceano Índico e do Mar Vermelho, por onde transitam os gigantescos navios-tanque transportadores de milhares de toneladas de petróleo para a Europa que, navegando ao longo das costas do Chifre da África (Somália), Quênia, Tanzânia, Canal de Moçambique (entre Moçambique e a ilha de Madagascar), Suazilândia e África do Sul, dobram o Cabo da Boa Esperança – pela primeira vez circunavegado pelo português Bartolomeu Dias, em 1488 – a oeste da Baia Falsa (Kaap die Goeie Hoop, em africâner) e acessam o Atlântico Sul e os portos da Europa.

Segundo, o alinhamento ideológico – voluntário ou não – como opções de Leste ou Oeste ou da “África moderada” contra a África engajada”. Terceiro, a redefinição das fronteiras coloniais. Há duas vertentes: a conquistada no século passado pela Etiópia e atualmente disputada pelo governo de Mogadíscio para realização de seu sonho de criar a Grande Somália, e a Eritréia, igualmente ligada à Etiópia, depois de ter sido colonizada durante 62 anos pela Itália, sem esquecer o episódio do infeliz precedente da Angola.

Rússia dá as cartas

Obviamente, a Rússia não esqueceu a antiga amizade da União Soviética com a região e está presente e disposta de participar do jogo de pôquer fazendo uma nova “aposta”. E por quê? Porque geoestrategicamente está interessada em “botar o pé” nos altos planaltos da antiga Abissínia para ficar de olho na Península Árabe, portentosa possuidora de 60% das reservas mundiais de petróleo e outras tantas de gás natural.

Mas também deseja que, a exemplo de sua presença com uma poderosa base militar na Síria, dispor dos portos de Massauá e Assáb, completando assim a presença da poderosa Marinha de Guerra russa no Oceano Índico e ocupando um imenso espaço “vazio”, criado após o Imperador Hailé Selassié e a longa presença dos EUA na região.

A “aposta” da Rússia é bem mais tentadora, porque Moscou está firmemente consciente de que os EUA e seu presidente, Barack Obama, ainda maisem fim de mandato, certamente, não se oporão e, se o fizerem, não passará de uma reação branda e sem consequências.

Entretanto, para a Rússia conseguir – a qualquer custo – êxito, precisa da solução de três problemas de caráter prioritário: consolidação de seu poder em meio de plena decomposição do antigo poder revolucionário, não alienar a demasiadamente socialista República da Somália e, por fim, evitar qualquer participação na repressão militar ao “problema eritreu”. Sim. Os três problemas são realmente difíceis.

Ás na manga

Há cerca de 40 anos, o então presidente da República de Cuba, Fidel Castro Ruz, convocou para reunião secreta, realizada em Aden, no sul de Iêmen, os então chefes de Estado do conglomerado de nações interessadas, Eritréia, Etiópia, Djibuti e Somália, além do Iêmen, que foi convidado como “observador”. Na ocasião, foi feita considerável pressão sobre os então chefes de Estado da Somália e da Etiópia para encerrarem suas disputas sobre o Ogaden, chamando a atenção de todos sobre as grandes vantagens que teria a criação de uma futura “federação socialista” da África Oriental composta pelos países do conglomerado e, lembrando, especificamente, aos então chefes de Estado de Etiópia e Somália suas invocações de testemunho de Lênin e Marx. Seria subestimar os sentimentos nacionalistas dos dois presidentes, eminentes socialistas.

Foi iniciada, então, uma corrida entre Somália e Etiópia, enquanto, o governo de Mogadíscio multiplicava suas advertências ao Leste e seus avanços ao Oeste, enquanto, a Frente de Libertação da Somália Ocidental (FLSO) destruia os postos avançados etíopes em Ogaden. Mais ao norte, nas montanhas de pedras ardentes da Eritréia, os resistentes guerrilheiros controlavam – com unhas e dentes – a quase totalidade da província, com exceção das cidades de Assab, Massauá e, Asmára.

O blefe

A Arábia Saudita, cuja “sublime obsessão” era eliminar a presença da então União Soviética do Mar Vermelho – “lago árabe” e “nosso santo lago” – objetivo que conseguiu não sem gastar, convidou o general Siad Barré, presidente da Somália, para expulsar “aquele bando de 6 mil conselheiros soviéticos” de seu país e, em troca, “receberia uma irrecusavelmente rica ajuda econômica e militar da Arábia Saudita”. Barré hesitou. Gostaria, em compensação, que o colonialista Ocidente e, particularmente, os EUA, tomasse uma posição definida no então conflito regional e não ficasse naquele blablablá de inconsequente.

Ainda hoje, a Rússia – sucedendo a União Soviética – descarrega na Etiópia muito mais armas do que o Movimento pela Libertação de Angola (MPLA) recebia durante a guerra civil angolana. Uma ponte aérea de indescritíveis proporções está encarregada de atender, imediatamente, qualquer pedido do governo de Adis Abeba que está em condições de sufocar qualquer tentativa interna, assim como, reprimir qualquer plano de seus vizinhos questionando sua capacidade de reação imediata.

Quebrando a banca

Graças a esta ponte aérea de “delivery” de armamentos, a Etiópia é hoje o país mais armado da África depois da África do Sul. Seu arsenal compõe-se de canhões de longo alcance, metralhadoras com 12 canos de fogo, mísseis de alcance variado, um sem número dos famosos blindados T62, além de várias esquadrilhas de caças-bombardeiros Mig 21 e Mig 26 e um ignorado número de unidades locais de combate terrestre, treinadas em caráter permanente por oficiais russos das forças especiais.

Contudo, o jogo de pôquer jogado hoje tenta curar uma infecção criada na Eritreia e que permanece aberta desde a eclosão da disputa em Ogaden e o severo conflito de pequenas e grandes potências buscando definir quem manterá sob seu absoluto controle a banca do Chifre da África. Uma impressionante força de ataque tem sido constituída por “escrupulosos vizinhos” para liquidar os “imundos bandidos eritreus”, enquanto, a resistência armada procura as montanhas, abandonando as cidades ao poder central.

Contudo, hoje, tanto na mesa do pano verde, quanto nos bastidores do jogo tenta-se uma negociação em busca de uma solução. Mas não há solução alguma em vista. Dois jogadores do pôquer – Sudão e Etiópia “fizeram as pazes” – reconciliando-se “emprenhados em prevenir atividades subversivas e, particularmente, as realizadas através de fronteira comum”.

Mas não se iludam. Ao que tudo indica, o governo sudanês de Cartum não cessará de proporcionar seu apoio e sustentar a revolta. É a política para um país cuja estabilidade não é sua principal virtude. Mas, nesta mesa de pano verde e de fluxos e refluxos de “apostas”, nada é definitivamente certo. O desfile de poder da Rússia na Etiópia e a atividade desestabilizadora que o governo de Moscou exerce nesta extremamente sensível região forçou os EUA a reagirem, retirando-se com armas e bagagens, alegando necessidade de sua proteção sobre a rota marítima dos navios-tanque de petróleo contra os piratas, pelo menos de Mombaça no Quênia até Masirah, no Sultanado de Omã.

Os EUA estão profundamente preocupados com o jogo de pôquer jogado pela Rússia, que aposta tudo na conquista do Chifre da África. Enquanto os super-homens da força de intervenção rápida dos EUA não estão em ação na região, várias segundas intenções, novos cálculos estratégicos, manobras internacionais, particularmente, da Rússia, e manifestações de desespero da maioria dos países da região serão ouvidas, mas dificilmente haverá quem venha socorrer os perdedores desta nefasta mesa de pôquer sem nenhum vencedor.

Idalio Soares/Africa News Agency

Sucursal da África Oriental.

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