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Humanismo solidário

Empresa-Cidadã / 12 Junho 2018

Uma das estilingadas das revoluções do final dos anos 1960 foi a Encíclica Populorum Progressio, editada em 17 de março de 1967. Através dela, a Igreja católica romana anunciava aos “homens e às mulheres de boa vontade” o alcance mundial adquirido pela questão social.

 

A Encíclica ofereceu outro padrão ético, capaz de abrigar parcelas crescentes da Humanidade, em que a paz, a justiça e a solidariedade demandariam um esforço proporcional. As bases da nova ética surgiram no Concílio Vaticano II, sendo que os princípios de interdependência global e do “destino comum de todos os povos da Terra” foram as premissas desta formulação.

 

Em sua complexidade, o Homem passou a vivenciar que os acontecimentos de uma região ou atividades do planeta podem ter efeitos em outros, e que não é dado a ninguém sentir-se seguro num mundo onde há sofrimento e miséria.

 

A Encíclica Populorum Progressio pode ser assumida como o estatuto ético programático da Igreja católica, na era da mundialização. Seus postulados orientam o “humanismo plenário”, através de “modelos praticáveis de integração social”, originados do encontro entre “as dimensões individual e comunitária”.

 

Diferenças culturais e de crenças deveriam ser toleradas, como afirma a Encíclica Laudato Si (Papa Francisco, Carta Encíclica sobre o cuidado com a “casa comum”). “É preciso ter presente que os modelos de pensamento influem realmente nos comportamentos. A educação será ineficaz, e os seus esforços, estéreis, se não se preocupar também por difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a natureza”.

 

A Congregação para a educação católica avalia como características do cenário contemporâneo (http://anec.org.br/blog/2017/10/18/educar-ao-humanismo-solidario-para-construir-uma-civilizacao-do-amor-50-anos-apos-populorum-progressio/) as de serem multifacetadas, em permanente mudança, e atravessado por múltiplas crises, que são de diferentes naturezas, como as crises econômica, financeira, de trabalho; política, do sistema democrático, de participação; ambiental e natural; demográfica, migratória etc.

 

A paz está constantemente ameaçada e, juntamente com as guerras travadas entre exércitos, difunde-se a insegurança causada pelo terrorismo internacional, (...) “favorecendo a radicalização do conflito entre culturas diferentes. Guerras, conflitos e terrorismo são algumas vezes a causa, outras vezes o efeito das desigualdades econômicas e da injusta distribuição dos bens da criação”.

 

– “De tais iniquidades nascem a miséria, o desemprego e a exploração. As estatísticas das organizações internacionais mostram os sinais da emergência humanitária em curso, que diz respeito também ao futuro, se forem analisadas as consequências do subdesenvolvimento e das migrações nas gerações mais jovens”.

 

– “Também não se podem isentar de tais perigos as sociedades industrializadas, onde as áreas de marginalidade aumentaram. De particular relevo é o complexo fenômeno das migrações, presente em todo o planeta, que provoca encontros e conflitos de civilizações, acolhimento solidário e populismos intolerantes e intransigentes. Estamos diante de um processo que foi oportunamente definido como uma mudança de época. Isso revela um humanismo decadente, fundado geralmente no paradigma da indiferença”.

 

– “A lista dos problemas poderia alargar-se, porém as oportunidades que o mundo atual apresenta não podem ser ignoradas. A globalização das relações é também a globalização da solidariedade. Disso tivemos vários exemplos, por ocasião das grandes tragédias humanitárias causadas pela guerra ou em casos de catástrofes ambientais: as correntes de solidariedade e as iniciativas de assistência e de caridade têm envolvido cidadãos de todas as partes do mundo”.

 

– “Do mesmo modo, nos últimos anos surgiram iniciativas sociais, movimentos e associações, em prol de uma globalização mais igualitária, atenta às necessidades dos povos economicamente em dificuldade. Muitas vezes quem funda essas iniciativas – e também participa delas – são os cidadãos das nações mais ricas, os quais poderiam usufruir das vantagens das desigualdades mas, pelo contrário, lutam pelo princípio de justiça social com gratuidade e determinação”.

 

– “É paradoxal que o homem contemporâneo tenha alcançado metas importantes no conhecimento das forças da natureza, da ciência e da tecnologia e, ao mesmo tempo, seja carente de projetos para uma convivência pública adequada, a fim de tornar a existência de todos, e de cada um, aceitável e digna”.

 

A formação da pessoa responde a exigências, como a afirmação da cultura do consumo, da ideologia do conflito, do pensamento relativista etc. É necessário, portanto, humanizar a educação, ou seja, torná-la um processo em que cada pessoa possa desenvolver as próprias atitudes profundas, a própria vocação e assim contribuir para a vocação da própria comunidade.

 

– “Humanizar a educação” significa colocar a pessoa no centro da educação, num quadro de relações que compõem uma comunidade viva, interdependente, vinculada a um destino comum. É desta maneira que é caracterizado o humanismo solidário.

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br