Hélio Fernandes, legado de honradez e de caráter

Opinião / 17 Agosto 2017

Conheci o jornalista Hélio Fernandes na rotina do jornalismo e estive com ele, para minha satisfação e alegria, em várias oportunidades. Durante algum tempo, enviava artigos, como colaborador, para que fossem publicados na Tribuna de Imprensa, onde pontificavam repórteres dos mais talentosos e extraordinários. Aliás, a Tribuna da Imprensa e Hélio Fernandes se confundem.

A história de Hélio Fernandes é longa na imprensa nacional e coroada de glórias, pela defesa firme e intransigente dos princípios democráticos, pela defesa firme e intransigente de uma imprensa livre e soberana, pela defesa firme e intransigente dos Direitos Humanos. Todo e qualquer comunicador deve ter em Hélio Fernandes um parâmetro de como ser um bom profissional e de fazer um bom jornalismo. Pai de dois outros jornalistas consagrados, Rodolfo e Hélio, ambos já falecidos, e precocemente, e irmão do desenhista e humorista Millôr Fernandes, Hélio Fernandes é um carioca, nascido em 1920.

Defesa firme e intransigente

dos princípios democráticos

Fez sua estreia no jornalismo, aos 13 anos, quando se empregou na revista O Cruzeiro, onde permaneceu por 16 anos. De lá, migrou para o Diário Carioca, onde chegou à função de editor. Com o fechamento do periódico, emprestou seu talento, coragem e dinamismo para a revista Manchete, tendo sido seu diretor.

Teve a possibilidade de, após o final do Estado Novo, em 1945, fazer a cobertura da Assembleia Constituinte, no Governo Dutra, em 1945. Lá, conhece outro expoente do jornalismo, Carlos Lacerda, que viria, mais tarde a ser governador do então Estado da Guanabara. Sua relação com Lacerda, um grande orador, foi longa. Aos 96 anos, Hélio é o único jornalista vivo que fez a cobertura dessa Assembleia Constituinte. Trabalhou como jornalista na recém-lançada Tribuna da Imprensa, tendo-a adquirido em 1960.

Homem polêmico e sempre com ideias esquerdistas, foi duramente perseguido antes do Golpe de 1964, preso incomunicável em 1963, por quatro dos 11 dias vividos no cativeiro, acabou sendo libertado por decisão do Supremo Tribunal Federal. Teve os seus direitos políticos cassados, em 1966, pela ditadura militar, certamente devido à sua audácia, coragem e enfrentamento dos poderes então constituídos. Foi um dos redatores do manifesto da Frente Popular, lançado por JK, Lacerda e Goulart.

Nessa ocasião, era violentíssima a censura aos meios de comunicação e essa era uma imposição do AI-5, editado em 1968. Preso várias vezes, por sempre defender suas ideias e convicções, Hélio Fernandes em tempo algum aceitou a censura e jamais deixou de tentar publicar as notícias que visavam combater o regime ditatorial que se instalara, com mãos de ferro, no Brasil. No Governo Médici, em 1973, foi preso por seis dias no quartel da Polícia do Exército, no Rio de Janeiro.

A sede do jornal chegou a ser alvo de um atentado a bomba, poucos dias antes do RioCentro, já na época final da ditadura militar, no Governo Figueiredo, em 1981, mas no dia seguinte, com sua conhecida obstinação, o jornal estava nas bancas. Aliás, pode-se afirmar que esse atentado ao jornal foi fator determinante para que Hélio Fernandes buscasse ainda mais ânimo e disposição para manter o diário e sua linha editorial ainda mais crítica e beligerante.

O jornal, todavia, veio se exaurindo economicamente e, em 2008, deixou lamentavelmente de circular, fazendo com que Hélio Fernandes criasse uma versão eletrônica, atualmente transformada em um blog noticioso.

Na realidade, Hélio Fernandes jamais se omitiu e suas palavras sempre foram e continuam sendo vigorosas fortes e eloquentes. Suas verdades, campanhas e denúncias sempre incomodaram e intranquilizaram aos brasileiros de má índole. Combateu todos os governos e jamais pleiteou algo pessoal. Seus valores sempre foram os mesmos e admirados por todos os que tiveram o raro privilégio de com ele conviver. Dedicou-se ao jornalismo por inteiro, desde o primeiro dia em que abraçou essa profissão como se fosse um sacerdócio.

Decano dos jornalistas brasileiros, a vida e a trajetória de Hélio Fernandes, 96 anos, merecem um documentário ou um filme. E seria muito bom que as novas gerações conhecessem a trajetória de luta e de coragem desse Grande Brasileiro. Hélio Fernandes é exemplo. Certamente, um imortal do jornalismo do Brasil.

 

Paulo Alonso

Jornalista, é diretor-geral da Facha.