A guerra pela água (II)

Empresa-Cidadã / 14 fevereiro 2017

A água, em julho de 2010, declarada direito humano essencial pela Assembleia Geral da ONU, vem sendo alvo de corporações que procuram dela se apropriar. Há casos de resistência cidadã, porém. Entre lutas importantes para religar a economia ao bem comum, uma das mais significativas foi a Guerra pela Água, em Cochabamba (Bolívia).

Em 1996, o Banco Mundial prometeu àquela municipalidade boliviana um empréstimo de US$ 14 milhões, para expandir o serviço de água. “Tão bonzinho”, o Banco Mundial condicionou o empréstimo à privatização do fornecimento de água da cidade.

Em setembro de 1999, em um processo silencioso, a água de Cochabamba foi arrendada, até 2039, para uma nova empresa chamada Aguas del Tunari. Logo se identificou que se tratava de “testa de ferro” da gigantesca corporação Bechtel, da Califórnia (EUA). O contrato assegurava o lucro assombroso de 16%, a cada um dos 40 anos contratados.

A resistência popular foi se organizando, sob a denominação de La Coordinadora para a Defesa da Água e da Vida. A liderança era composta por representantes do sindicato dos trabalhadores de uma fábrica local, irrigadores, fazendeiros, grupos ambientalistas, economistas, alguns membros do Congresso e de organizações populares.

Apesar de manifestações de protesto, em janeiro de 2000, a Bechtel aplicou um tarifaço de 200% sobre o fornecimento de água. A população reagiu com uma greve geral de três dias. Uma faixa foi fixada na sede provisória de La Coordinadora, anunciando “El Agua es Nuestra, Carajo!”

A população então deixou de recolher a tarifa e se manifestou publicamente. O governo reagiu com o uso violento de tropas, trazidas de outras regiões, dando início a uma ebulição que parou novamente Cochabamba, resultando na renúncia do governador, prisões, lei marcial, censura, pressão internacional sobre o CEO da Bechtel, Riley Bechtel e no assassinato do jovem Victor Hugo Daza.

Até que o governo central capitulou, anunciando o cancelamento do contrato e a fuga do país dos executivos da Bechtel. La Coordinadora e o governo indicaram os dirigentes da nova companhia de água de Cochabamba, Semapa.

O final feliz, no entanto, ainda estava por vir. Em novembro de 2001, a multinacional da água reiniciou a guerra, ao cobrar uma indenização de US$ 25 milhões contra a Bolívia, através do Banco Mundial, a mesma instituição que forçara a privatização.

Uma vez mais, a resistência organizada inibiu a investida da Bechtel. Em agosto de 2002, lideranças populares de 41 países apresentaram a Petição Internacional de Cidadãos, requerendo transparência nas decisões e forçando um recuo do Banco Mundial.

Como a Bechtel se vê

Em sua página, edulcorada por belas afirmações, a Bechtel declara-se comprometida em ser a maior empresa em engenharia, construção, e administração de projetos do mundo, alcançando e oferecendo resultados extraordinários para os clientes, construindo carreiras para o seu pessoal (55 mil empregados no mundo), e retorno para os acionistas.

Os valores que declaradamente preza são “ética” (integridade, honestidade e preços justos); “Saúde e segurança”, “Qualidade” (Excelência, fazer certo desde o início, a Reputação depende dos valores percebidos por clientes e comunidades); “Gente” (trabalho inspirado por propósitos, desafios encarados como oportunidades, remuneração de carreiras); “Cultura” (construir ativamente a diversidade e o trabalho colaborativo, onde todos os pontos de vista são bem-vindos, a abertura é encorajada e o trabalho em equipe e o mérito são convergentes); “Orgulho” do que faz e como faz; “Relacionamentos” (construir relacionamentos sólidos com clientes, contratados, fornecedores e empregados, alicerçados na verdade, no respeito e em colaboração); “Inovação” (desenvolver e aplicar tecnologia de classe mundial, procurar as boas idéias, valorizando práticas de compliance e melhoria contínua); e “Sustentabilidade” (respeito às culturas locais, engajamento de pessoal local e proteção ao ambiente).

Onde quer que esteja e como faça, o grupo demonstra “Integridade”; é “Reverente” (trata a todos com respeito e dignidade); “Colaborativo” (resolver ambiguidades e conflitos com entendimento mútuo) “Constrói verdades” (ser delicado ao construir entendimentos), “Aprende, faz e compartilha”; “Abraça e contribui” ativamente para a própria cultura organizacional e deixa um “Legado” de orgulho.

Paulo Márcio de Mello

Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br