Greve geral

O que está sendo feito para reverter a recessão? Nada!

Conversa de Mercado / 18:49 - 14 de jun de 2019

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As bandeiras levantadas pela greve geral nesta sexta-feira que paralisou as capitais brasileiras são reflexo da estagnação econômica e da falta de iniciativas do governo atual para reverter o cenário desastroso. Apesar de não estar em recessão, a economia brasileira apresenta as características típicas deste cenário: desemprego alto, retração do poder de compra, baixa produtividade e investimentos. O que está sendo feito para a reversão do quadro? Nada!

A evidência de falta de política econômica é demonstrada de maneira simples. Basta dar um “google” perguntando quais as propostas do governo para a economia. O que aparece no último ano? Somente a reforma da Previdência. Aí entra o desespero da população, que não viu e não consegue acreditar em mudança alguma e do próprio ministro Paulo Guedes, que se agarrou neste discurso e vê a reforma ir se diluindo e ficando longínqua.

As mudanças propostas pelo relator da PEC da reforma, deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), reduziu a economia prevista inicialmente, de R$ 1,2 trilhão em dez anos, para cerca de R$ 900 bilhões. Apesar de manter pilares importantes pelo governo, como a idade mínima, o deputado, alterou regras de transição para funcionários públicos e retirou estados e municípios. Guedes declarou que os parlamentares demostraram que não há compromisso com as novas gerações. “O compromisso com os servidores públicos do Legislativo foi maior do que o com as novas gerações”, criticou em coletiva à imprensa. Segundo o ministro, as mudanças abortam a proposta de capitalização, gerando necessidade de nova reforma no futuro.

Além da redução da economia prevista, a reforma, que a princípio sairia logo, deve ficar para outubro. Até lá, quais são as outras coisas que serão colocadas em pauta? A liberação de recursos do FGTS? A mesma medida foi adotada no governo Temer, que, em 2017, levou 26 milhões de trabalhadores a sacarem cerca de R$ 44 bilhões de contas inativas do FGTS. Sua repercussão, entretanto, foi pontual. Funciona como se a família recebesse um prêmio momentâneo. No entanto, não há uma recomposição de renda que leva ao aumento do consumo no longo prazo. Portanto, não haverá reflexo em aumento de investimentos das empresas e tampouco redução do desemprego. Além disso, os valores que a maior parte das famílias têm a receber são muito pequenos.

Com a dívida pública, que ultrapassou os R$ 5 trilhões e avança para os 80% do PIB, a armadilha fiscal do governo vai muito além da Previdência e requer que outras medidas ocorram em paralelo, como a reforma fiscal com o objetivo de reduzir as ineficiências. Segundo as estimativas da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão ligado ao Senado, mesmo com a aprovação da reforma da Previdência, as contas públicas não sairão do déficit primário antes de 2023. A dívida pública, assim, continua crescente.

O país também necessita de medidas que tragam mais segurança para investimentos em infraestrutura, cuja demanda existe, e, com isso, alavanquem novas vagas de emprego. É preciso lembrar que o lado fiscal não se resolve somente com redução de gastos, mas também requer recomposição de receitas. Estas não podem vir através de aumento de impostos, mas sim da melhora da renda da população.

A greve geral desta sexta-feira, que deve ocorrer mais vezes daqui para frente, é somente um reflexo da necessidade de planejar um desenvolvimento econômico que vá além da reforma da Previdência e passe por projetos que levem à retomada do crescimento. Se a ideia do “sacrifício” da população de abrir mão de direitos viesse aliada com a perspectiva de melhora da situação econômica e mudança de perspectiva futura, não haveria protestos. Mas, ao contrário, vão se cortar “privilégios” da Previdência hoje e daqui a alguns anos. A renda se decompõe, assim como as expectativas.

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