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Glória a Deus

Pela terceira vez, o Banco Central revisa sua perspectiva de crescimento para a economia brasileira, obviamente, para baixo. A expectativa agora...

Conversa de Mercado / 28 Setembro 2018

Pela terceira vez, o Banco Central revisa sua perspectiva de crescimento para a economia brasileira, obviamente, para baixo. A expectativa agora é de que o PIB brasileiro cresça 1,4%, enquanto a projeção anterior era de um incremento de 1,6%. No fim do ano passado, a autoridade monetária acreditava que o produto teria uma alta de 2,6% em 2018. Sem condições de recuperar as perdas dos anos anteriores, a economia patina no mesmo patamar de sete anos atrás.

A política tem contaminado o lado real da economia. A instabilidade provocada pelo cenário eleitoral ajuda somente a piorar as coisas é uma das causas da manutenção do nível de desemprego. De acordo com a mais recente pesquisa do IBGE, atualmente o Brasil possui 12,7 milhões de desempregados. Fora esta massa da população, há outros 11,2 milhões de brasileiros encontram-se na informalidade, 23,3 milhões trabalham por conta própria e 4,8 milhões estão desalentados, ou seja, desistiram de buscar uma colocação.

O equacionamento das contas do governo também está tão longe de ocorrer quanto o crescimento econômico. Atualmente o governo é um sorvedouro da poupança privada, seja através de absorção pela tributação que não retorna como produtos ou serviços, seja pela necessidade de financiar suas atividades emitindo dívida, que é comprada pelos investidores que procuram retornos com baixo risco. O estado brasileiro mostra-se falido. Os déficits fiscais acumulados ano após ano reduziram a capacidade de o país crescer. Uma das emergências é criar uma poupança privada que gere fonte de recursos para o investimento das empresas e sua expansão.

Em agosto, o déficit primário do setor público consolidado (União, estados e municípios) ficou em R$ 16,876 bilhões, resultado 77,1% maior do que de igual período de 2017, quando chegou a R$ 9,529 bilhões. No acumulado em 12 meses encerrados em agosto, as contas públicas ficaram com saldo negativo de R$ 84,433 bilhões, o que corresponde a 1,25% do PIB. A meta de déficit é de R$ 161,3 bilhões neste ano. Já a dívida líquida do setor público somou R$ 3,459 trilhões em agosto, o que corresponde 51,2% do PIB. Em agosto, a dívida bruta atingiu 77,3% do PIB.

Mas nenhuma destas questões parece ter relevância no cenário eleitoral. O brasileiro está preocupado em ensinar catolicismo ao Papa, nazismo aos alemães ou como ser uma celebridade à Madonna. Os candidatos à Presidência não demonstram tecnicidade nos debates e os planos econômicos pouco são claros sobre como tratarão tanto a crise fiscal como a falta do crescimento econômico. Pela forma como as questões são tratadas, a saída é dar glória a Deus. Será que Ele é mesmo brasileiro? Se for, deve estar pedindo cidadania para outro país.

Sanear as contas públicas requer mais do que privatizar as estatais para tapar os buracos ou retornar com a jabuticaba da CPMF. Os planos dos candidatos à Presidência prometem resolver o déficit fiscal em até dois anos sem aumento de impostos. Falam em privatizar para levantar recursos, sem planejamento; de pôr fim a desonerações, sem citar quais setores serão afetados, de usar o BNDES como mola propulsora de crescimento, sem citar de onde virá o dinheiro, de capitalizar a previdência sem explicar que isso cria um rombo maior no curto prazo... Não há verdade matemática nisso.

O plano de Bolsonaro, por exemplo, afirma que o déficit público primário precisa ser eliminado já no primeiro ano e convertido em superávit no segundo. Seu assessor econômico Paulo Guedes, defende a venda de empresas estatais como forma de reduzir o endividamento público. A estimativa é reduzir em 20% o volume da dívida por meio de privatizações, concessões, venda de propriedades imobiliárias da União e devolução de recursos em instituições financeiras oficiais. Mas o mesmo documento afirma que o BNDES deverá retornar à centralidade em um processo de desestatização mais ágil e robusto, atuando como um “Banco de Investimentos” da União. Contradição?

A situação do país é similar à da época do Plano Real. A diferença agora é de que o dragão não é a inflação, mas o lado fiscal. A resolução do déficit é o primeiro passo para que o país retome o crescimento, porém muitos outros precisam ser dados. Falta aos presidenciáveis a matemática e aos brasileiros racionalidade.