Geosmina, nitrosamina & Regina

Já fizeram de tudo, mas ainda não conseguiram ressuscitar o cadáver capitalista.

Empresa Cidadã / 21:21 - 21 de jan de 2020

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As nossas vidas podem depender da forma como nos relacionamos com palavras que subitamente se tornaram familiares. Dietilenoglicol, por exemplo, é a substância misteriosamente encontrada em alguns lotes de bebidas da cervejaria Backer, em Minas Gerais, que combinada com a monoetilenoglicol, até o fechamento desta edição, tinha matado quatro e mantinha outros vinte e tantos internados.

 

A maca no corredor faz escola

A repercussão do caso da cerveja mineira na imprensa, possivelmente, foi causa de não ter sido vista nenhuma das vítimas precariamente deixada em corredores de hospitais. O recurso de fazer da maca um leito pode ter sido a gambiarra engendrada pelo dublê de pastor, engenheiro e prefeito da cidade do Rio de Janeiro que, em vez de construir escolas, com instalações dignas para quem precisa e onde precisa, optou, depois de três anos de exercício de mandato, por fazer um puxadinho em escolas já existentes, de preferência Cieps, pouco se importando com danos que esta prática pode acarretar. Anotem aí: rivalidades entre gangues de diferentes comunidades, reunidas no mesmo espaço, vão fazer a violência explodir nas escolas-puxadinho.

 

A multinacional brasileira do tráfico

A multinacional brasileira do tráfico de drogas, conhecida pela sigla PCC, libertou nesta semana de uma prisão em Pedro Juan Caballero, na fronteira com Ponta Porã (Mato Grosso do Sul) 75 (isto mesmo, 75!) colaboradores. Será que a Cedae (Cia. Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro), que popularizou a geosmina (enzima acusada de causar tonalidade e cheiro de cocô na água recentemente servida no estado) tem o que aprender com a já citada facção do crime? Refiro-me apenas às técnicas de gestão...

Como ninguém vai preso mesmo, nem se exonera da boquinha, faça o que fizer, na Vale, como na Cedae, lembramo-nos de que nesta semana faz um ano da tragédia de Brumadinho. O tempo passa rápido. E a lama, como a vida, também.

 

Brumadinho: 1 ano do crime ambiental

Há um ano do desastre do rompimento da barragem da Vale (25 de janeiro de 2019), são contabilizados 259 mortos, 11 “pessoas sem contato” (conforme a página da empresa) e ninguém preso.

 

Economia Sexcida

Na Suíça, entre um chocolate e outro, de 21 a 24 de janeiro, ocorre mais uma edição do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês, uma espécie de Rock in Rio do capital). Já fizeram de tudo, até mesmo a ousada proibição do uso de gravata pelos participantes, mas ainda não conseguiram ressuscitar o cadáver capitalista. Nesta edição do WEF, vão tratar da principal causa mortis: excesso de desigualdade (que também se conhece como concentração de renda e riqueza, ou como iniquidade, ou ainda como injustiça). O relatório traz informações preocupantes: assina o atestado a ONG inglesa Oxfam que, como tem acontecido a cada WEF (este é o 50º), oferece um relatório no início dos trabalhos sobre o tema da ocasião.

Em 2018, apenas 2.153 homens (bilionários mais ricos do mundo) detinham renda equivalente aos 60% mais pobres. “Este enorme abismo é consequência de um sistema econômico falido e sexista, em que importa mais a riqueza de uma elite privilegiada, em sua maioria, homens”, segundo o relatório da Oxfam. Capturadas pelo sistema econômico nas atividades de menor ou nenhuma remuneração, como são as atividades de cuidadoras, dos serviços domésticos, entre outras, as mulheres com mais de 15 anos são responsáveis por gerar uma economia submersa da ordem de US$ 10,8 trilhões a cada ano. A isto, o relatório da Oxfam denomina Economia Sexista, conceito que em alguns pontos aproxima-se do conceito da Economia do Amor, criado pela futurista Hazel Henderson (Bristol- England - 27 março 1933). Na verdade, é uma Economia Sexcida.

Os números da injustiça são alarmantes. Desde o ano 2000, a riqueza detida pelos bilionários cresceu 16,5%, ao ano, enquanto metade dos habitantes da Terra vive com menos do que US$ 5,5 por dia. A riqueza acumulada pelo 1% mais rico do planeta equivale ao dobro da riqueza acumulada por 92% da população menos rica. Entre os antídotos para corrigir a injustiça, o relatório da Oxfam relaciona: a instituição de sistemas tributários progressivos em relação à renda e à riqueza; e legislar em favor de quem cuida.

 

Brasil, vela que se apaga...

...a cada dia no cenário internacional, não se fez presente na pessoa do seu presidente. Enfim, uma decisão sensata, considerando o vexame de 2019, em que o presidente se viu intimidado ante a presença de outros chefes de Estado e de governo e abreviou a sua fala para míseros seis minutos e meio, além do constrangimento de ter que recorrer à “cola” do ministro posto Ipiranga, para responder qualquer coisa que não seja fazer o gesto de “arminha”, e de cercar o presidente dos EUA nos corredores, para receber dele um insignificante afago. Melhor mesmo ficar por aqui, fazendo a supervisão do estágio da Regina, na Secretaria da Cultura.

Este 50º WEF traz uma pauta inédita, que é a ênfase na questão da sustentabilidade. O chefe da delegação brasileira (posto Ipiranga), na primeira rodada de que participou, tentou tirar a poeira da posição do governo militar brasileiro na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, Suécia (1972).

Estocolmo foi a primeira reunião de cúpula organizada pela (ONU), para tratar de questões ambientais de forma abrangente. Nela, a delegação brasileira, chefiada pelo então presidente do BNH, Rubens Vaz da Costa, apresentou a tese de que haveria uma “poluição” (conceito que centralizava as preocupações ambientais da época) causada pelos ricos e outra poluição causada pelos pobres. Depois da fala nostálgica, o posto Ipiranga montou a sua banquinha (não confundir com Banco de Investimentos Bozano) de camelotagem (é por aqui! Na minha mão o Brasil é mais barato!)

 

Enquanto isso, a pirralha...

... Greta Thunberg, a pirralha, provocada por uma fala do presidente Donald Trump, presente ao 50º WEF, onde declarou “não ouçam os alarmistas!”, respondeu “ouçam a ciência!”

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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