Furnas: sede ou escuridão?

Opinião / 12:46 - 5 de out de 1999

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O exercício da democracia envolve saber ouvir, agir e voltar atrás nas questões. Na conjuntura atual, ceder não cabe somente aos partidos da chamada oposição, mas também aqueles que se encontram no poder federal. A apresentação de uma agenda positiva, de ambos os lados, é fundamental para que tenhamos um resultado eficaz para o Brasil e não apenas a "energia" gerada pelo próprio atrito ideológico. A imagem degradada da atual administração Federal deve-se, em grande parte, à total resistência a qualquer reformulação de posição. Um dos principais exemplos da inflexibilidade é a questão de Furnas, que se encontra floreada de um debate totalmente emocional entre o ser "privado" e o ser "estatal". A questão técnica tem sido abandonada pelos burocratas de plantão. Temos mais exemplos recentes de países vizinhos, que acreditavam que algum "ectoplasma do mercado" resolveria magicamente seus problemas econômicos, no momento em que repassassem todos os seus ativos para o setor privado. Hoje, está demonstrado, em muitos casos, que o sistema fracassou. Não mais podemos acreditar em contos de fadas ou em mágicos. Muitos desses países nada tem mais a vender e atualmente estão lançando olhares catatônicos para o passado, e tristes, para o futuro, sob um nível de desemprego sem precedentes na história, e em alguns casos não possuindo nem mais o controle sobre a própria moeda. O radicalismo de algumas atitudes, existente em uma parcela do governo Federal, principalmente da área econômica, diante da questão de Furnas, faz com que se lancem ouvidos moucos, mesmo a reclames estabelecidos pelos partidos da sua própria base governista. Porém, hoje o assunto está ganhando requintes de crueldade quando se lança o debate dessa questão em conjunto com o debate do "uso de água". O Planeta Terra tem um terço de sua massa de terra e dois terços de água. Destes, 95% são de água salgada e 5% de água doce. Da parcela de água doce, 4% estão sob a forma de geleiras, umidade do ar e solo e águas subterrâneas, isto é, de forma não diretamente acessível. Portanto, somente 1% do total de água do planeta é disponível para uso humano, agricultura e criações. Da parcela de 1% de água doce, aproximadamente 21% estão no Brasil e 14% no Canadá. Estes dados eloqüentes dão a dimensão dos desafios que enfrentaremos no próximo milênio, onde a questão da água, um dos recursos naturais fadados à escassez, será um assunto de disputa entre nações, como foi o petróleo no século 20. Neste contexto, nos causa preocupação a insistência na privatização dos grandes reservatórios de água da região mais densamente habitada do país, a sudeste, com a privatização do parque gerador hidráulico, suas usinas e reservatórios, principalmente de Furnas. Nos estranha ainda mais, no momento em que o Executivo e o Congresso Nacional caminham para um aprofundamento do debate sobre as águas e o processo regulatório de seu uso, com a possível criação da Agência Nacional das Águas (ANA), que ao mesmo tempo se orientem ações para um insensato e inconseqüente processo de cisão e privatização de Furnas, que conta com nove grandes usinas hidrelétricas e seus respectivos reservatórios nas regiões que compreendem Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo e Goiás. A cisão de Furnas em três empresas (duas geradoras e uma de transmissão) traz ainda requintes de fragilização para o setor elétrico. Temos o exemplo do recente episódio das telecomunicações, onde as conseqüências da desintegração de atividades poderão ser mínimas diante dos riscos potenciais que teremos para o setor de geração de energia elétrica nacional e, principalmente, para a questão dos recursos hídricos. Tais riscos constam do relatório técnico recém elaborado pela conceituada COPPE/UFRJ, feito a pedido do Governo do Estado do Rio de Janeiro, em um trabalho que temos feito em parceria com o Governo de Minas Gerais. Portanto, neste momento é urgente que toda a sociedade e o Congresso Nacional se articulem em um movimento entre os principais Estados atingidos, visando a sensibilização das autoridades federais em favor da suspensão da cisão e da privatização de Furnas Centrais Elétricas S.A., evitando-se que as gerações vindouras sejam comprometidas pela falta de visão de futuro nas decisões tomadas hoje, e que a intolerância de parte da burocracia privatizante de uma parcela da equipe econômica se supere por uma ação de grandeza e altivez dos principais administradores do setor elétrico, o que levará a termos um único ser vencedor deste processo: Brasil, sem o risco da "sede ou escuridão". Wagner Granja Victer Secretário de Estado de Energia, da Indústria Naval e do Petróleo

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