‘Find new roads’

Nova campanha publicitária da Chevrolet envolve-se indevidamente em aspectos políticos.

Empresa Cidadã / 19:39 - 6 de ago de 2019

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

O objetivo maior da General Motors (GM) é o de voltar e permanecer na relação das dez maiores marcas mundiais, considerando todas as empresas de todos os ramos de negócios. Parte deste processo é o alinhamento da sua plataforma de marketing sob a marca “Find new roads”. A plataforma foi desenvolvida pela agência Commonwealth para todas as suas marcas, a saber, Buick, Cadillac, Chevrolet, FAW, GMC, Daewoo, Holden, Jiefang, Opel, Vauxhall e Wuling, presentes em mais de 140 países. Com sede mundial em Detroit, a GM emprega 205 mil pessoas no mundo. A organização foi fundada em 3 de novembro de 1911, por Louis Chevrolet.

Está no Brasil desde 1925, então como montadora de veículos importados exclusivamente (até 1934, quando dá início a serviços como fabricante de partes de veículos). Terceiro maior mercado da GM (atrás dos EUA e da China), o Brasil representa cerca de 15% do faturamento global. Em 1974, atingiu a produção de 1 milhão de veículos; em 1980, chegou à marca de 2 milhões e à estimativa de 700 mil, em 2019. Em outubro de 1964, lançou a perua C-1416, mais tarde chamada de “Veraneio”, preferida entre alguns públicos.

A corporação, que se gaba de privilegiar a inovação, não foi bem assim na hora de evitar o naufrágio definitivo, para emergir da Crise de 2008. A General Motors chegou a apresentar então um pedido de falência, no início de junho de 2009. As dificuldades foram além da indisponibilidade de crédito e procedimentos nada inovadores de austeridade, desemprego e ajuda do governo foram postos em prática, a exemplo da manutenção de poucas marcas (Chevrolet, Buick, Cadillac e GMC), desfazendo-se das marcas Hummer, Saab, Pontiac, Saturn e Opel. Fechamento de quase 40% da sua rede de concessionárias, além de 11 fábricas, correspondentes a 27 mil postos de trabalho. E, sobretudo, venda de 60,8% das ações da General Motors Corporation (GMC) ao governo norte-americano, como garantia da ajuda financeira de US$ 50 bilhões em dinheiro público e de 11,7% ao governo canadense.

 

Publicidade aética

No Brasil, a nova campanha publicitária da Chevrolet para a picape S10, envolve-se indevidamente em aspectos políticos, ao exaltar argumentos polêmicos do agronegócio. Entre imagens do veículo, um texto em “off” afirma que “tem gente que adora reclamar”, por exemplo, “reclama que o pasto só aumenta” (não chegam a mencionar explicitamente se o pasto também aumenta com o desmatamento) e “reclama dos transgênicos”.

No final: “Mas, enquanto eles reclamam, a gente segue em frente [movidos a combustível de origem fóssil]. Porque a gente sabe que não dá para ficar chorando leite derramado. Tem é que produzir mais leite, criar mais gado [aumentando o desmatamento e a emissão de carbono?], para continuar botando comida na mesa. E mesmo assim tem aqueles que sempre vão reclamar” [não falam sobre subsídios nem sobre as renúncias fiscais conseguidas nas suas instalações no país].

No sábado, 27 de julho, horas antes da campanha publicitária ir ao ar, o “ministro do Meio Ambiente”, Ricardo Salles, postou e festejou o vídeo, via Twitter. “Recebi essa propaganda, que enaltece o Brasil e espanta o mau humor. Chega de sandália de couro e sunga de crochê… daqui para a frente, só de Chevrolet… kkk”.

Em janeiro deste ano, a GM tinha divulgado ameaça, com frases do presidente mundial, Mary Barra, sobre a possibilidade de fechar fábricas na América do Sul, por não conseguir justificar os prejuízos na região. As declarações geraram tensão entre a montadora e o recém-empossado governo de Jair Bolsonaro (PSL).

Na ocasião, era imprevisível o destino de programas de incentivo ao setor, já que o ministro da Economia, Paulo Guedes, declarou-se contrário à concessão subsídios ou benefícios fiscais a empresas. Carlos da Costa, secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do mesmo Ministério, reagiu às declarações da montadora dizendo: “Se precisar fechar, fecha”.

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor