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Facada: raiva ou insanidade?

Conversa de Mercado / 21 Setembro 2018

As eleições brasileiras novamente começam a demonstrar a bipolaridade dos esquizofrênicos. Não se discute saídas para o país vencer a crise, muito menos o grande problema: não há como cumprir a maioria das promessas dos candidatos à Presidência. O fato é simples: com teto dos gastos ou sem teto dos gastos, o dinheiro acabou. Mas se fala em resolver em um ou dois anos, o problema fiscal gerado pela gastança de muitos e muitos anos.

Alguns defendem que isso será possível privatizando as estatais. Ora, não se vende empresas da noite para o dia. A economia não é padaria e a resolução do problema fiscal é muito mais complexa do que o que vem sendo apregoado pelos políticos. Passa, inclusive, por terrenos espinhosos como a reforma da Previdência. Esta última, abordada pela coluna anterior, deve ser bem estudada. Não é capitalizando a Previdência da noite para o dia que o problema se resolve. O rombo do regime anterior aumenta. E aí? Como é que fica?

Fala-se também em reduzir ainda mais a taxa de juros, mas para isso é preciso credibilidade. E a credibilidade se conquista. Não com gritos ou promessas vazias, mas com medidas efetivas que demonstrem que haverá a sanidade fiscal, uma reforma da previdência factível e medidas corretas para aumentar os investimentos privados de forma a retomar o crescimento salutar.

No momento, deve-se observar que o cenário externo não ajuda. Como reduzir ainda mais a taxa de juros, enquanto o mercado norte-americano, tido como porto seguro, sobe as suas, que hoje em 2% ao ano? Olhe para a crise de nossos vizinhos. Na Argentina, a taxa de juros está em 60% ao ano. Somente em 2018, os juros argentinos subiram mais de 30 pontos percentuais e, diante da crise, pediu-se ajuda para o FMI. Os desequilíbrios macroeconômicos e a elevada taxa de inflação levaram ao aumento da desconfiança com relação ao peso, o que promoveu a forte desvalorização da moeda.

Ufa! Não somos a Argentina, nem tampouco a Venezuela. Macroeconomicamente falando, o Brasil ainda tem alguns indicadores que trazem alento. A inflação está controlada, o déficit de transações correntes é baixo e ainda há as reservas cambiais, que dão certo conforto aos investidores. O problema que vem ganhando corpo é o radicalismo da extrema direita contraposto pelo movimento de esquerda. A polarização dá voz às facadas, ao radicalismo e não à busca por soluções efetivas e factíveis para tirar o país da crise. O populismo cresce e com ele a miopia econômica.

Diante do temor da volta da heterodoxia do PT, o mercado bolsonarizou, porém espera que o “novo Bolsonaro” esteja falando a verdade. Quer esquecer aquele que votou contra muitas das medidas que sanearam o país no passado e que será um liberal de fato. Há controvérsias.

No primeiro plano de governo do PT, por exemplo, falava-se de usar parte das reservas cambiais para financiar obras públicas e reduzir o desemprego. O objetivo era de “criar o fundo de financiamento da infraestrutura, composto por pequena parcela redirecionada das reservas internacionais, recursos do BNDES e recursos privados”. O discurso mudou, e Haddad já demonstrou que não está tão ligado às propostas heterodoxas e não sairá gastando tudo e o céu também, como apregoava o então ministeriável do PT Marcio Pochmann. Ao colocar o economista de escanteio ele deixa a mensagem de que seu plano econômico não será tão radical como o divulgado anteriormente, quando o nome do PT era Lula. É um aceno para o mercado financeiro.

Já Bolsonaro, na outra ponta, mandou um “cala boca” Paulo Guedes. Depois do senta lá e fica quieto, o economista apelidado de “Posto Ipiranga” cancelou sua agenda de encontros. A repreensão ocorreu após a polêmica declaração do ministeriável sobre a criação de um imposto, nos moldes da CPMF. Do hospital, Bolsonaro postou nas redes sociais um recado: “Não procede. Querem criar pânico, pois estão em pânico com nossa chance de vitória. Ninguém aguenta mais impostos”. O recado foi direto para Guedes e deixa claro que a carta branca não é tão branca assim. Nesta sexta-feira, Bolsonaro amenizou a raiva. Disse que as propostas de Guedes foram distorcidas pela imprensa, e que tudo será estudado.

Por último, quando se fala de propostas econômicas, não se pode deixar de pensar que é a política que viabiliza as decisões. Se os finalistas das pesquisas chegam ao poder, precisarão compor novas alianças para conseguirem governar. Sem Congresso, as medidas não passam. Vide o que a situação que o ex-ministro da Fazenda de Dilma Rousseff Joaquim Levy passou. Se aquelas propostas tivessem sido concretizadas, o lado fiscal já seria praticamente página virada. Estaríamos agora discutindo medidas para o crescimento, redução do desemprego. Mas o Brasil mais uma vez prefere ficar dividido. Sem sanidade, não se olha as consequências. A briga nas mídias sociais que o digam.