Expectativas de inflação sobem mesmo com juros mais altos

Opinião do Analista / 12:25 - 30 de out de 2002

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O Banco Central divulgou segunda-feira o relatório semanal Focus, que consolida projeções macroeconômicas (inflação, PIB, balança comercial etc.) para 2002 e 2003 coletadas a quase uma centena de bancos, corretoras e consultorias especializadas. Todos sabem o papel extremamente importante que as expectativas exercem sobre a evolução dos agregados macroeconômicos e, dentre elas, as expectativas inflacionárias merecem destaque. Porém, neste aspecto, a situação parece nada confortável. Apesar da elevação dos juros básicos (Selic) para 21% há pouco mais de duas semanas, as projeções de inflação (medida pelo IPCA) não param de subir. No relatório Focus de segunda, as expectativas para a variação do IPCA de 2002 subiram de 7,61% para 8,07%, e para o ano que vem subiram de 6,62% para 7,10%. Vale lembrar que a meta de inflação para 2003 é de 4% com tolerância de 2,5 pontos percentuais. Ou seja, a curva projetada para a inflação de 2003 já está acima do limite máximo permitido no âmbito do sistema de metas de inflação. Se esta configuração prevalecer será o terceiro ano consecutivo de não cumprimento das metas estabelecidas. Eis aí um problema complicado para a próxima equipe econômica resolver. Há duas saídas: ou se apertam ainda mais as condições monetárias e fiscais da economia, acentuando a recessão para trazer de volta a inflação para a trajetória meta previamente estabelecida, ou se muda, de novo, a meta de inflação do próximo ano. Durante a campanha presidencial, os assessores econômicos ligados ao PT sempre criticaram as metas de inflação extremamente ambiciosas que foram definidas no âmbito do atual regime de política monetária. Isto sinaliza que é mais provável que a segunda hipótese (novo relaxamento das metas) prevaleça. Porém é preciso entender que tal fato irá desmoralizar completamente o sistema de metas de inflação no Brasil, que funciona tanto como âncora nominal da economia como é um dos pilares do recente acordo firmado do Brasil com o FMI. Confiança também é preocupação para próximo governo Além da aceleração da inflação, colocando riscos para o cumprimento de sua meta para 2003 (veja edição de ontem deste informativo), mais um problema deverá estar no centro das atenções do governo que toma posse em janeiro: o restabelecimento da confiança junto ao mercado financeiro internacional. A razão é mais que óbvia. Mesmo considerando-se um forte diminuição do déficit em conta corrente para 2003 (a estimativa do BC divulgada na semana passada gira em torno de US$ 9 bilhões), a necessidade bruta de financiamento externo da economia brasileira no ano que vem ronda a casa dos US$ 37 bilhões. Isto porque no próximo ano vencerão US$ 28 bilhões em amortizações da dívida externa, um volume ligeiramente inferior aos US$ 30 bilhões deste ano de 2002. E para enfrentá-lo o Brasil contará com um montante bem menor em termos de reservas livres: começamos 2002 com US$ 27 bilhões e iniciaremos 2003 com cerca de US$ 13 bilhões. Com uma necessidade de financiamento externo ainda muito elevada e com US$ 14 bilhões a menos em caixa prontamente disponíveis, o restabelecimento da credibilidade no exterior é fundamental para que o crédito externo retorne e viabilize a rolagem da dívida externa brasileira, tanto do setor público quanto do setor privado. Do contrário o ajuste continuará sendo feito pela via dolorosa : mais desvalorização cambial gerando mais superávit na balança comercial, fazendo o déficit externo caber no tamanho da disposição dos agentes externos em financiá-lo. E a inflação será o preço a pagar. Luiz Rabi Analista-chefe do BicBanco.

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