Eutanásia do rentier

Por Ranulfo Vidigal.

Opinião / 18:14 - 7 de nov de 2019

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Alguns analistas ligados ao “mercado” creditam a atual queda na taxa de juros nominais da Selic ao grau de austeridade da política fiscal (como assim, se o déficit público nominal continua tão alto?), ou à suposta “credibilidade” do Banco Central (mas como assim, se esse permite uma suculenta remuneração dos saldos livres dos bancos e faz vista grossa aos juros abusivos praticados no crédito ao capital de giro das empresas e ao consumo popular?).

É mais adequado creditar esse momento de taxas nominais cadentes ao excesso de liquidez internacional e ao momento deflacionista/recessivo predominante em importantes economias de primeira linha ao redor do planeta. Na linguagem do mainstream econômico, seriam tempos de “excesso de poupança”.

 

‘Sócios’ da dívida pública tendem a

conviver com uma menor fatia da riqueza

 

O novo quadro tende a mudar, pelo menos temporariamente, o portfólio dos grandes detentores de capital financeiro e sua renda com juros associada ao mercado do dinheiro. Os “sócios” do estoque volumoso de dívida pública e seu capital fictício tendem a conviver com uma menor fatia da riqueza gerada pela sociedade.

Uma parcela da “liquidez” tende a migrar para o setor imobiliário, na busca da renda da terra, com aluguéis, arrendamentos, venda de espaços para moradia de classe média, produção industrial (galpões) e comércio atacadista e varejista.

Outra “fuga” provável será na direção da renda de dividendos provenientes dos excedentes da produção, que remuneram os acionistas das 500 empresas cotadas na Bolsa de Valores. Aliás, a terra da jabuticaba é um dos poucos países do mundo que não tributa estes rendimentos do capital, desde o Governo FHC (e mantido pelo PT).

Ganhará predominância ainda a renda das marcas, um ativo intangível vinculado à produção imaterial, porém mais importante que o rendimento direto da produção (lócus da geração de valor). Rendimento mais associado ao poder dos monopólios, do marketing e da concentração do capital e do domínio de mercado.

Na outra ponta, os rendimentos do trabalho continuam cadentes, em decorrência do alto desemprego e da recuperação anêmica da atividade produtiva. O resultado líquido dessa nova realidade deve se expressar em mais concentração de renda e em maior desigualdade. Só um novo Projeto (popular) de Nação e uma nova correlação de forças políticas modifica este estado de coisas. Contudo, amanhã será outro dia. Vida que segue...

Ranulfo Vidigal

Economista.

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