Eu só quero amar!

Seu Direito / 13 Novembro 2017

Convenhamos. Tem gente completamente sem noção. Fosse uma pessoa do povo, sem instrução, vá lá. Mas, partindo de uma ministra, desembargadora aposentada, certas coisas chegam a doer na alma, de tão hipócritas. O jornal O Estado de São Paulo noticiou que a ex-desembargadora baiana Luislinda Valois, atual ministra dos Direitos Humanos, enviou ao governo um pedido escrito para que pudesse acumular o seu salário de ministra (mais de R$ 30 mil) com o de desembargadora aposentada (R$ 30.471,10), o que lhe renderia a bagatela de mais de R$ 61 mil por mês. Sem contar que há outras mordomias, legalmente asseguradas, como carro com motorista particular, sem limite de combustível, jatinho da FAB para onde e quando quiser, cartão corporativo e apartamento funcional. Quantos mortais você conhece que têm isso?

A pobre ministra chegou a comparar o trabalho que faz ao “trabalho escravo”. Disse, no papelório enviado à administração, que precisava dessa bufunfa porque não pode se apresentar por aí de qualquer jeito e tem de estar “trajada dignamente” para assegurar a sua “representatividade” como órgão do governo. Precisava comprar alimentos, roupas, perfume, artigos de toucador para fazer o cabelo e dar um trato na “face”. Essas coisas. Ouvida, a doce senhora teria dito:

Eu, como desembargadora aposentada, posso botar um chinelinho simples e ir a qualquer lugar. Mas como ministra de Estado, não posso fazer isso. Eu tenho uma representatividade. Não de luxo, mas de pelo menos me apresentar trajada dignamente. É cabelo, é maquiagem, é perfume, é roupa, é sapato, é alimentação. Porque, se eu não me alimentar, eu vou adoecer e, aí, vou dar trabalho para o Estado. É tudo isso que tem que ter. Então, eu pedi, formulei o pedido, como qualquer pessoa que se achar no direito pode requerer”.

O pedido da ilustre ministra não é apenas inconstitucional. É completamente imoral. Ofende nossa noção de ética e moralidade. Ademais, a Constituição Federal – que, suponho, vale para mim, para você e, talvez, até mesmo para a ministra – proíbe qualquer salário acima do teto. Apenas para refrescar a cuca da ministra, o salário mínimo de um trabalhador brasileiro é de R$ 937,00 (D. 8.948, de 29/12/2016). Para ganhar os R$ 61 mil que a ministra quer num único mês, esse trabalhador precisaria trabalhar 65 meses. Ou seja: o que a ministra quer ganhar num mês o trabalhador comum levaria 5 anos e 4 meses para ganhar. Segundo o art.81, da CLT, o salário mínimo é o ganho do trabalhador suficiente para pagar despesas com alimentação, habitação, vestuário, educação, saúde, lazer, previdência social, higiene e transporte. Tudo isso tem de caber nesses minguados R$ 937,00 mensais.

Isso, ministra, é trabalho escravo. O resto é pantomina. O seu inusitado e inconstitucional requerimento já tem o carimbo certo separadinho na mesa de um auxiliar administrativo, antes de ir à mesa do chefe: “Indefiro”. Para o segundo requerimento, o do seu pedido de demissão, provavelmente um burocrata já terá o carimbo certo separado e abastecido de tinta e com letras garrafais: “Defiro”.

Acho que cairia muito bem o refrão da música de Tim Maia:

"De jeito maneira

Não quero dinheiro

Quero amor sincero

Isto é que eu espero

Grito ao mundo inteiro

Não quero dinheiro

Eu só quero amar

(Eu só quero amar)

Um cheiro!"