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Estado estacionário

Conversa de Mercado / 03 Agosto 2018

A principal função de um governo é estabilizar a economia. Temer conseguiu. O comportamento do PIB atual não é mais de forte crescimento para devolver tudo no dia seguinte, pelo contrário, em vez de registrar volatilidade, a economia brasileira parece caminhar para o estado estacionário. A cada semana, as projeções de crescimento são revistas para baixo e agora estão ao redor de 1%. É preciso lembrar que, no início do ano, acreditava-se que 2018 seria da recuperação, com incremento ao redor de 3%.

Esta semana foi a vez do Bradesco reduzir sua projeção para o crescimento econômico. A estimativa de alta de 1,5% recuou para 1,1%, patamar similar ao que aconteceu em 2017. Para 2019, a instituição volta a ser otimista, esperando um incremento de 2,5%. Já a Fitch manteve o rating soberano do Brasil em BB-, com perspectiva estável e afirmou que o país passa por recuperação “moderada” em 2018, com crescimento de 1,5%. O comitê de 25 economistas da Anbima também reduziu a previsão para o PIB para 1,5%. Ao falar do motivo de tal redução, o presidente do comitê, Marcelo Carvalho, declarou que a economia apresenta baixo dinamismo e elevada ociosidade.

O problema de o Brasil pisar no freio em vez de no acelerador é que a economia sofreu um período de forte recessão, e o incremento atual pouco reverte o quadro para que haja a retomada da renda e dos investimentos. O pior da crise já passou, mas a recuperação também não chegou. A teoria clássica revista pelo economista Robert Solow afirma que estado estacionário é uma situação em que o investimento iguala a depreciação. Nesse estágio, aumentos do capital reduzem o consumo.

Durante os últimos anos, o investimento brasileiro ficou abaixo da depreciação do capital, o que gera a fraqueza do país em conseguir voltar a crescer com alguma robustez. Ao mencionarem os motivos da queda nas projeções, os economistas defendem que, em grande parte, ela está relacionada à greve dos caminhoneiros. Ora, o motivo está mais embaixo, pois a greve foi provocada pela negligência do governo em fomentar investimentos na infraestrutura logística do país.

Comparando com EUA e China, países de tamanho similar, os problemas do Brasil se destacam: temos cerca de 200 vezes menos estradas pavimentadas do que os EUA, e a nossa rede ferroviária tem apenas 10% do tamanho da dos EUA e da China”, destaca o estudo da Oliver Wyman. De acordo com o levantamento da Empresa de Planejamento e Logística do Governo Federal (EPL), 65% da carga do país é transportada por meio das rodovias. O setor de transportes requer uma taxa de investimento 131% maior que a observada entre 2011 e 2016 para atingir o investimento alvo de 2% do PIB e cobrir um déficit equivalente a 14% do PIB em 25 anos. Óbvio, isso não vai ocorrer, ainda mais se depender somente da verba pública.

O problema é de difícil solução e requer um planejamento de longo prazo, algo que o Brasil quase nunca teve. As políticas econômicas do país se concentram em mandatos e necessidade de ganhar as eleições, só! Chega-se ao último ano da presidência e se fomenta políticas populescas para demonstrar trabalho. Na China, por exemplo, o planejamento do Estado, que levou ao forte crescimento das últimas décadas, data da reforma de 1978. Nesta foram buscadas as 4 Modernizações (4M): agricultura, indústria, defesa, ciência e tecnologia. Tais áreas haviam sido definidas por Zhou Enlai, em 1964.

Deixando o lado político de lado, pois os chineses no poder queriam fazer reformas econômicas para também justificar ideologicamente a simbiose da economia de mercado com a economia de planificação sob o controle do Estado, uma tentativa de perpetuar a hegemonia do PCC, é de um plano de longo prazo que o Brasil precisa para crescer com estabilidade. Os voos da galinha, que levam a projeções equivocadas e frustrações, afastam os investidores e colocam a confiança dos empresários e dos consumidores para baixo. Neste cenário, estamos no lucro ao ficar no estado estacionário. Ao menos, é melhor que retroceder.