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Em busca da porta de saída

Conversa de Mercado / 11 Maio 2018

Nossa, isso é música para os meus ouvidos”. As aspas são do CEO de uma empresa que hoje fatura R$ 30 milhões anuais, mas que cresce 30% ao ano. Estávamos falando sobre o acesso ao mercado de capitais. Depois de soltar essa frase, entretanto, ele emendou: “Mas ainda somos muito pequenos para isso. Isso seria ideal para dar uma porta de saída para o fundo que aportou capital na gente”. Quantos empresários como esse têm o mesmo dilema, e quantos investidores que apostam nos empreendedores se perguntam como sair?

A captação de recursos para o financiamento às novas ideias passa por diversos estágios, mas uma coisa é certa: é preciso um mercado de capitais bem desenvolvido para dar saída aos investidores iniciais e garantir que as engrenagens dos empreendimentos continuem girando. O debate sobre como criar um ambiente propício ao desenvolvimento de novos negócios e estimular os investimentos de longo prazo faz parte da agenda do Codemec (Comitê para o Desenvolvimento do Mercado de Capitais), apoiada pela Revista RI e que será apresentada aos candidatos à presidência da República.

Em uma sociedade em constante mudança, sendo inovação um dos principais motes propulsores para a modernização, o Codemec identifica como um dos principais pilares do desenvolvimento um efetivo funcionamento do mercado e seu acesso tanto a ofertantes quanto demandantes. Esse mercado deve ser livre e não pode criar nenhum empecilho que exclua potenciais agentes qualificados de participarem”, afirma Thomás Tosta de Sá, presidente do Codemec, na edição da Revista RI de maio.

Há diversos estágios anteriores para que o empreendedor consiga abrir seu capital na Bolsa de Valores. O primeiro envolve uma mudança de seu próprio perfil e no potencial de inovação. Segundo o último relatório da GEM (Global Entrepreneurship Monitor, 2016), no Brasil, a cada 100 empreendedores, 57 empreendem por oportunidade (dados de 2016). Em relação ao potencial de inovação, a pesquisa demonstra que o país apresenta o segundo menor percentual (20,4%) acima apenas da Rússia (17,5%). As participações refletem os investimentos dos países em pesquisa e desenvolvimento. O Brasil está na 32ª posição no que diz respeito à complexidade econômica.

O segundo ponto é o apoio tanto do governo quanto da iniciativa privada. Os especialistas entrevistados pela GEM apontam como limitantes ao empreendedorismo a falta de políticas governamentais (77,4%) e a ausência de apoio financeiro (31,2%). No Brasil, o número de investidores-anjo fica ao redor de 7 mil, e o potencial, de acordo com o presidente da associação de investidores-anjo Anjos do Brasil, Cassio Spina, é de 150 mil. Em 2016, o volume de investimento-anjo no Brasil atingiu R$ 850 milhões. Em 2010, era de R$ 350 milhões. “O aumento tem sido rápido, mas o mercado ainda é muito pequeno. No mínimo, deveria somar US$ 2 bilhões. Nos EUA é de US$ 20 bilhões”, declarou Spina à Revista RI.

Depois dos investidores-anjo, o empreendedor por oportunidade pode procurar os fundos de venture capital e private equity que fazem investimentos mais robustos. Mas todos os que aportam capital na companhia precisam, em determinado momento, de uma porta de saída para realizarem seus lucros. “O mercado de capitais é uma forma de dar saída para que o investidor-anjo consiga reinvestir em outras empresas. O ideal é que o investidor permaneça dentro da empresa até o seu IPO”, diz Spina.

A proposta defendida pelo Codemec é da criação de um mercado de acesso que atraia essas empresas a abrirem seu capital. “Um dos grandes desafios para o estabelecimento de um mercado de capitais eficiente e pujante, que realmente seja um instrumento ao desenvolvimento econômico de um país, é criar condições de inserção de empresas, que não só estejam em compliance com as regras do mercado, mas que também que percebam o benefício da participação no mercado de capitais”, defende Tosta de Sá. O Bovespa Mais não cumpriu o papel de atrair empresas menores. É hora de rever o mercado de acesso.