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E quem duvidou?

Desemprego alto paga a inflação baixa, já dizia a velha curva de Philips.

Conversa de Mercado / 11 Janeiro 2019

A inflação oficial no Brasil, medida pelo IPCA, fechou o ano abaixo do centro da meta (4,5%) em 3,75%. Em dezembro, o índice ficou em 0,15%, o menor patamar desde 1994, quando foi implantado o Plano Real. Para 2019, segundo o relatório Focus, os economistas projetam um IPCA em 4,01%, também abaixo do centro da meta de 4,25%.

No entanto, as comemorações de que o Brasil está com inflação menor que o centro da meta são, no mínimo, questionáveis. Será que o Banco Central não poderia ter sido mais flexível com os juros, de forma a impulsionar o PIB que demonstrará um pífio crescimento em 2018? Quais os fatores que levaram a inflação brasileira a atingir um nível tão baixo? Quais os custos econômicos e sociais implicados nisso? Quais são os riscos futuros?

Ora, a questão da definição da meta de taxa de juros (Selic) não impacta somente a inflação. É preciso lembrar que o país precisa olhar também para o fluxo de capital estrangeiro e para a conjuntura econômica externa, marcada pelo aumento da taxa de juros norte-americana. Após quatro aumentos consecutivos, os juros dos EUA se encontram na faixa de 2,25% a 2,5% e são referência para economia mundial, pois o investimento no país é tido como livre de risco. Até então, havia a perspectiva de novos aumentos, porém, as notícias mais recentes é de que o ciclo de alta se encontra perto do fim.

Se o Brasil não oferecer uma taxa básica acima da norte-americana, os estrangeiros deixam de investir na renda fixa do país, prejudicando a rolagem dos títulos. Até porque a volatilidade do câmbio influencia também a tomada de decisão, pois aumenta a possibilidade de perda.

Para exemplificar: em uma conta de padeiro simples, sem levar em consideração os juros reais (descontada a inflação) e utilizando os 6,5% ao ano (patamar atual da Selic). Um estrangeiro que colocou US$ 1 mil no Brasil, obteve R$ 3.269,70 (conversão pelo dólar comercial taxa de 2 de janeiro). Colocando a taxa de juros Selic para um ano, ele obtém R$ 3.482,23. Ao sair da operação e converter o valor para dólar, ele fica com US$ 898,69, cotação do final de 2018. Mesmo que a conta tenha um monte de simplificações, percebe-se que, pelo risco cambial, emergentes precisam se adequar para manter os rendimentos atrativos, um dos fatores que fez o BC brasileiro colocar o pé no freio.

Outra questão relacionada é que o regime de metas demanda um elevado grau de coordenação entre as autoridades monetária e fiscal no momento e magnitude de mudanças em preços controlados, ou, então, a exclusão de preços controlados do índice balizador das metas. Dentre as maiores altas que impactaram a inflação estão a energia e a gasolina. Além do mais, o sistema metas não coíbe uma política fiscal irresponsável e tampouco assegura reformas fiscais e financeiras.

Sobre a segunda pergunta, a resposta é bem mais simples. Como ter inflação com desemprego, consumo baixo e alta capacidade ociosa das empresas. Estes fatores relacionados ao baixo crescimento da economia por si só garantiram o controle inflacionário. Neste sentido, não precisava nem se preocupar com a Selic muito baixa. As próprias condições econômicas ruins garantem preços baixos, mas há questão social implicada. Desemprego alto paga a inflação baixa, já dizia a velha curva de Philips.

Para este ano, a inflação fica controlada. Até porque o novo governo – sem entrar no mérito dos absurdos – ascende com uma agenda reformista liberal. Ao liberalizar a economia, há um ganho de curto prazo. Eliminam-se grandes custos do governo. Com a Reforma da Previdência, privatizações, queda dos investimentos estatais, dentre outras medidas, fazem as contas do governo fechar. Isso aumenta o fluxo de capitais estrangeiros, e a Selic pode ser reduzida novamente. Perfeito: a economia cresce e se volta a um círculo virtuoso, mas até quando?

A renda da população mais pobre cai (vide o aumento pífio do salário mínimo), há uma precarização das relações trabalhistas – o que implicará redução dos custos dos empresários e de renda para o trabalhador – o consumo futuro fica comprometido (quem não usa o 13º para pagar contas atrasadas, viajar, pagar o acúmulo de gastos de início de ano ou simplesmente dar presentes). A liberalização pura, em um país pobre, não é tão simples assim.