E o Rose D’Or Awards vai para ‘Órfãos da Terra’

Por Paulo Alonso.

Opinião / 18:12 - 5 de dez de 2019

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Órfãos da Terra, uma novela da Rede Globo, com 154 capítulos, escrita por Duca Rachid e Thelma Guedes e com direção de Gustavo Fernandéz, acaba de conquistar o prêmio de melhor telenovela no disputado Rose D’Or Awards, em Londres. Em quase 60 anos de história do prêmio, foi a primeira vez que uma novela brasileira saiu laureada.

A trama das 18h, que foi ao ar de abril a setembro deste ano, desbancou produções de Portugal, Reino Unido e Bélgica. Trata-se de uma premiação suíça que ocorre, desde 1961, para coroar os melhores programas da televisão do mundo.

Thelma Guedes já tinha conquistado, também ao lado de Duca Rachid, o Emmy Internacional de melhor novela em 2014, por Joia rara.

Esse reconhecimento internacional prova uma vez mais a qualidade e a importância das produções brasileiras, além de também evidenciar o tema escolhido para essa exibição, que contou a história do casal Laila e Jamil, interpretados por Julia Dalávia (Laila) e Renato Góes (Jamil).

 

Novela da Rede Globo teve

como pano de fundo o conflito sírio

 

Órfãos da Terra mostrou a história de amor entre o muçulmano Jamil e a cristã Laila. Como a protagonista é uma refugiada, a trama mergulhou, com criatividade e inteligência, nessa questão dos refugiados de diversas partes do mundo e teve como pano de fundo o conflito sírio, a guerra civil iniciada em 2011, durante a Primavera Árabe, que já provocou a morte de mais de 400 mil pessoas e também gerou um fluxo migratório de quase seis milhões de pessoas.

A novela mostrou que essas pessoas vêm e continuam vindo para o Brasil para recomeçarem suas vidas, enfrentando muitas adversidades e trazendo um patrimônio cultural que nos enriquece.

Órfãos da Terra foi épica. Ao explorar um atual e urgente tema, o drama dos refugiados de guerra, a novela começou com sequências absolutamente dramáticas, quando a família de Laila passou por maus bocados ao deixar seu país de origem. Além de fugir da guerra, a mocinha ainda precisou fugir de um vilão terrível, o sheik Aziz (Herson Capri) obcecado por ela. Aliás, Capri encarnou, com raro brilho, a figura de Aziz.

Assim, ao mesmo tempo em que Órfãos da Terra mostrava um casal gracioso cheio de empecilhos para viverem um amor, a trama exibiu também as trágicas consequências do conflito armado, em um ambiente com belos cenários. Foram bons momentos que exploravam toda a dificuldade dos refugiados precisando recomeçar longe de suas terras. Com isso, Órfãos da Terra ganhou um tom documental e relevante, com imagens lindas, uma direção segura, além de um texto criativo e contemporâneo e um elenco de primeira grandeza.

Tantas qualidades fizeram com que Órfãos da Terra criasse muitas expectativas junto ao público. No entanto, o tom épico ficou mais restrito à primeira fase. Em seu segundo ato, quando Laila e Jamil já estavam devidamente adaptados à vida no Brasil, Órfãos da Terra se tornou uma trama menos pretensiosa.

Até porque a primeira fase da novela tinha conflitos muito mais envolventes. Aziz era um vilão da melhor qualidade, do tipo que desperta medo. Sua relação com a sofrida Soraia (Letícia Sabatella) fazia com que o público torcesse por ela e por seu amor proibido, Hussein (Bruno Cabrerizo). Matá-los no final da primeira fase era necessário para que a história andasse, mas a trama acabou perdendo dois de seus melhores personagens e que brilharam em seus papéis.

Após, Dalila (Alice Wegmann) assumiu as vilanias da novela. Uma vilã bem eficiente, mas sem a profundidade e a dramaticidade do sheik Aziz.

Em Órfãos da Terra, culturas, crenças, sonhos e sotaques se encontram no Brasil. Na Síria, em um dia de alegria e de celebração para a família Faiek, Laila vê seu destino mudar repentinamente. Um bombardeio os atinge, transformando a vida de uma família estruturada e bem-sucedida em pesadelo.

Com a casa em ruínas e a fictícia cidade de Fardús em guerra, a jovem estudante Laila e sua família – o pai Elias (Marco Ricca), a mãe Missade (Ana Cecília Costa) e o irmão Kháled (Rodrigo Vidal) – são forçados a deixar a Síria em direção ao Líbano, para fugir do conflito e ter a chance de tratar Kháled, gravemente ferido no bombardeio.

De posse do pouco que lhes restou, os Faiek vão parar em um campo de refugiados, em Beirute, onde Laila cruza olhares com Jamil Zarif, que está no campo, acompanhando o patrão, o sheik Aziz Abdallah, em busca de mão de obra para suas empresas.

Mas, assim como Jamil, Aziz também se interessa por Laila e, acostumado a comprar tudo que deseja, oferece ao pai da jovem um contrato de casamento que pode salvar sua família da penúria. Elias recusa a proposta. Mas o estado de Kháled se agrava e Laila se oferece em sacrifício, em troca do tratamento do irmão. Contudo, logo após a cerimônia de casamento, a jovem fica sabendo que o irmão não resistiu à cirurgia.

Laila, então, deixa a mansão do sheik na noite de núpcias, antes do casamento consumado, reencontra a família e, com eles, traça um plano de fuga, para São Paulo, onde os Faiek têm parentes.

Desconhecendo que a esposa fugitiva do patrão é justamente a mulher por quem se apaixonou no campo de refugiados, Jamil é surpreendido por uma missão: embarcar num navio com destino ao Brasil e trazer de volta para Beirute a mulher que Aziz acredita ser sua propriedade. Antes, porém, de embarcar, Jamil descobre que essa mulher é a sua Laila. A paixão intensa e inesperada que une o casal é maior do que o compromisso que Jamil assumiu com Aziz: casar-se com a ardilosa Dalila (Aline Wegmann), a filha preferida de seu patrão.

No pano de fundo dessa história de amor, o universo de pessoas de diversos lugares do mundo, refugiados de guerras, de conflitos políticos ou deslocados por razões econômicas ou acidentes naturais. Cenários dos mais fantásticos, com diálogos lúcidos e profundos e narrativas inteligentes e emocionantes, e, por vezes, cômicas.

Órfãos da Terra terminou, deixando uma sensação de dever cumprido no elenco e na produção, certamente. A trama de Rachid e Guedes fez jus à missão de elevar os índices de audiência herdados das duas últimas tramas do horário, Espelho da Vida e Orgulho e Paixão. A saga protagonizada por Júlia Dalávia e Renato Góes se despediu com média geral de 21,8 pontos – quatro a mais que os 17,8 atingidos por Espelho da Vida, e alguns décimos acima de Orgulho e Paixão (21,5).

Na mesma base de comparação, Órfãos da Terra se sobressai ainda a antecessoras como Sol Nascente (21,2), Além do Tempo (19,8), Sete Vidas (19,4), Boogie Oogie (17,4), Meu Pedacinho de Chão (17,8), Joia Rara (18,4), Flor do Caribe (21,2) e Lado a Lado (18,2). Fica aquém apenas de Tempo de Amar (22,7), Novo Mundo (23,8) e Eta Mundo Bom (27,1).

O elenco ainda teve, dentre outros, nomes como Rodrigo Simas, Nicette Bruno, Marcelo Médici, Osmar Prado, Betty Goffman, Danton Mello, Flávio Migliaccio, Eliane Giardini, Paulo Betti e Carmo Dalla Vecchia.

Não somente pela história, atualíssima, criada por Duca Rachid e Thelma Guedes, pelo talento dos artistas, estupenda direção, sedutora fotografia, trilha sonora escolhida, figurino, caracterização, iluminação e cenários, Órfãos da Terra fez jus em receber prêmio tão importante, vencendo superproduções de todos os continentes.

Essa novela entra, pelo conjunto da obra apresentada, para a História da Televisão Brasileira, ao lado de Roque Santeiro, Irmãos Coragem, Selva de Pedra, O Bem-Amado, Avenida Brasil, O Clone, Tieta, Os Ossos do Barão, Rainha da Sucata, O Casarão, O Rebu, Beto Rockfeller, Que Rei Sou Eu?, Vale Tudo, O Rei do Gado, Gabriela, Escrava Isaura e Pantanal.

Aplausos e mais aplausos!

Paulo Alonso

Jornalista, é chanceler da Universidade Santa Úrsula.

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